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Rússia procura recuperar Moldávia para “esfera de influência”: agitação política e “chantagem energética” são os meios de atuação

Rússia procura recuperar Moldávia para “esfera de influência”: agitação política e “chantagem energética” são os meios de atuação
DUMITRU DORU

Desde 2020 que a Moldávia é presidida por Maia Sandu, pró-Ocidente e defensora da adesão à União Europeia. No entanto, a tentativa de influência da Rússia no país dura há décadas e documentos obtidos pela Ucrânia comprovam os mais recentes esforços de manipulação russos. Ao Expresso, o historiador Bruno Cardoso Reis ajuda a contextualizar a situação de vulnerabilidade da Moldávia

A guerra prolonga-se na Ucrânia há mais de oito meses, mas há outros territórios em que a Rússia trabalha para aumentar a sua influência. Documentos obtidos pelos serviços de informação ucranianos e consultados pelo “The Washington Post” mostram que o Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB) tem empreendido esforços para manipular a Moldávia, país liderado por uma Presidente pró-Ocidente, Maia Sandu.

A informação demonstra que o FSB tem investido na criação de uma rede de políticos moldavos com o intuito de implementar uma reorientação da governação do país para Moscovo. A figura-chave do empenho do Kremlin chama-se Ilan Shor, líder de um partido populista na oposição que está exilado em Israel desde 2019. É visto como “um parceiro digno a longo prazo” e referido como “o jovem” pelo FSB – tem 35 anos.

A 26 de outubro, os Estados Unidos anunciaram sanções a um grupo de nove indivíduos e 12 entidades – Shor é um deles – com vista a “combater as persistentes campanhas de influência maligna e corrupção sistémica do Governo da Federação Russa na Moldávia”. Os alvos das sanções incluem “oligarcas amplamente reconhecidos por capturarem e corromperem as instituições políticas e económicas da Moldávia e aqueles que atuam como instrumentos da campanha de influência global da Rússia”, lê-se no comunicado.

Cartaz de Ilan Shor em Chisinau, capital da Moldávia
DANIEL MIHAILESCU/Getty Images

Ainda de acordo com o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, antes das eleições parlamentares na Moldávia em 2021, a Rússia planeou “prejudicar a Presidente moldava” e “devolver” o país à sua “esfera de influência”. Shor desempenhou um papel fundamental: através do “apoio russo”, o partido que lidera estava, em junho deste ano, a empenhar-se em criar “agitação política” no país – altura em que a Moldávia obteve o estatuto de candidata à União Europeia, juntamente com a Ucrânia.

O FSB enviou uma equipa de estrategas políticos russos para aconselhar o partido de Shor, que nega ter recebido apoio de Moscovo e culpa a inclinação pró-ocidental do Governo da Moldávia por aproximar o país de um “colapso económico”. “Somos um partido absolutamente independente, que defende apenas a posição dos cidadãos moldavos”, afirma, citado pelo “The Washington Post”.

Desde 2016, as operações do FSB na Moldávia têm sido dirigidas por Dmitry Milyutin, general com ligações a Igor Chaika, empresário que é filho do antigo procurador-geral da Rússia, Yuri Chaika. Igor é o embaixador na Moldávia da Delovaya Rossiya, associação empresarial ligada ao Kremlin, e também está incluído no grupo alvo de sanções dos Estados Unidos por colaborar com os esforços de manipulação russos.

Modus operandi russo

O historiador e especialista em segurança internacional, Bruno Cardoso Reis, explica ao Expresso que a Moldávia é “uma zona de interesse russo há muito tempo”. O país tornou-se independente em 1991, com o fim da União Soviética. Desde então, esse interesse faz-se sentir sobretudo por uma “via indireta”, nomeadamente através do “antigo Partido Comunista, que se reformou e passou a ser chamado Partido Socialista”, que se sabe que foi “fortemente apoiado e financiado pela Rússia”.

O então líder do Partido Socialista, Igor Dodon, presidiu ao país entre 2016 e 2020. Nesse ano, após escândalos relacionados com corrupção, foi derrotado nas eleições por Maia Sandu – ex-primeira-ministra e antiga economista do Banco Mundial – e neste momento encontra-se em prisão domiciliária.

Tomada de posse de Maia Sandu, em 2020, com o anterior Presidente da Moldávia, Igor Dodon
Anadolu Agency/Getty Images

Os documentos dos serviços de informação mostram que Moscovo rapidamente procurou um “substituto” para Dodon, cujo partido era até esse momento o principal veículo do FSB na Moldávia. É aqui que entra Ilan Shor: o FSB encarou-o como “manipulável”. Depois de liderar um banco moldavo, foi eleito presidente da câmara da cidade de Orhei em 2015 e, dois anos mais tarde, considerado culpado pelo roubo de mil milhões de dólares do sistema bancário do país.

Após a “descredibilização” associada a Dodon, a Rússia “apostou num outro líder mais populista, mas usando exatamente o mesmo tipo de estratégia, de financiamento de manifestações e do partido”, com o objetivo de “procurar ter uma alternativa e criar pressão sobre o Governo atual”, enquadra Bruno Cardoso Reis.

A partir de Israel, Shor continuou a liderar o partido à distância, obtendo o terceiro lugar nas eleições parlamentares de 2021. Os estrategas do FSB escreveram num relatório datado de abril desse ano que, para alguns, é “uma figura inaceitável”, mas para outros representa “um verdadeiro ídolo e líder”.

“Há uma longa tradição da Rússia achar que os países na sua vizinhança próxima não devem ser países plenamente independentes, devem estar na esfera de influência e obedecer às ordens de Moscovo”

Os especialistas russos viajaram pela primeira vez para Chisinau, capital da Moldávia, para trabalhar com o partido em março de 2021, esforçando-se para que a sua presença se mantivesse secreta. Uma das medidas recomendadas foi a tentativa de limpeza da imagem de Shor, nomeadamente dos seus “antecedentes negativos”, por exemplo através de “recompensas” a jornalistas para apagarem determinados artigos.

Para Bruno Cardoso Reis, tudo isto “corresponde àquilo que sabemos que é o modus operandi da Rússia”. “Há uma longa tradição da Rússia achar que os países na sua vizinhança próxima não devem ser países plenamente independentes, devem estar na esfera de influência e obedecer às ordens de Moscovo”, explica o especialista. “E quando isso não acontece, a Rússia [considera que] tem toda a legitimidade para usar todo o tipo de meios ilegais, militares ou a nível de serviços de informações, para corrigir a vontade de estes Estados serem verdadeiramente independentes e não simplesmente satélites de Moscovo.”

“Chantagem energética”

Neste caso, há determinadas particularidades que acentuam a vulnerabilidade da Moldávia. Trata-se de um país “muito pobre, com muito poucos recursos”, além de ser “um Estado encravado – não tem acesso ao mar, o que é sempre um problema”, e que “está muito dependente dos vizinhos a todos os níveis”, analisa Bruno Cardoso Reis.

A quase total dependência do gás russo tem sido um dos principais problemas da Moldávia nos últimos tempos. Os cortes no fornecimento da Gazprom atingem os 40% e a região da Transnístria, controlada por separatistas pró-russos, também limitou o abastecimento de eletricidade. “O preço da energia subiu cinco vezes e no orçamento da maior parte das pessoas já representa mais de 50%. Portanto, há a possibilidade de a Rússia utilizar com muita eficácia a chantagem energética”, salienta o investigador do Centro de Estudos Internacionais.

As dificuldades aumentam com os ataques russos a infraestruturas energéticas da Ucrânia, outro fornecedor importante. “Cada bomba que cai sobre uma central elétrica ucraniana é uma bomba que cai também sobre o fornecimento de eletricidade da Moldávia”, afirmou Nicu Popescu, ministro dos Negócios Estrangeiros da Moldávia.

Com uma economia “muito frágil e muito pouco competitiva”, onde as pessoas “já são muito pobres” e o Estado “tem muito pouca margem para dar apoios”, o prolongar da crise e do aumento dos preços da energia fazem com que Bruno Cardoso Reis alerte para “o perigo de que a Moldávia, ao contrário da Ucrânia, caia para uma espécie de regime ou governo pró-russo nos próximos meses”.

“Há a possibilidade de a Rússia utilizar com muita eficácia a chantagem energética”

“Ou seja, que os protestos se massifiquem, que sejam utilizados por estes grupos pró-russos para dizer que o Governo não consegue resolver os problemas do custo de vida e que a solução é uma política pró-russa”, explica o especialista. Nas últimas semanas têm ocorrido manifestações em Chisinau contra o Governo. Em outubro foram detidas 24 pessoas, entre as quais membros do partido de Shor, devido a um alegado financiamento ilícito das manifestações – foram apreendidos 20 sacos com dinheiro.

Durante os protestos e através de uma transmissão em vídeo, Shor apelou a que os manifestantes pressionassem a marcação de eleições antecipadas. “Grupos criminosos querem criar uma situação de conflito a fim de derrubar a ordem pública e ganhar poder para que a Rússia possa usar o nosso país na guerra”, criticou Maia Sandu. As “tentativas de desestabilizar a situação no país estão a tornar-se mais frequentes” e são perpetradas por “aqueles que querem guerra e caos”, acrescentou a Presidente.

Protestos em Chisinau no dia 6 de novembro
DUMITRU DORU

Fraca capacidade militar

Também ao nível da capacidade militar, a Moldávia é “extremamente frágil”. Num país com cerca de 2,5 milhões de habitantes, as forças armadas “têm poucos milhares de tropas, à volta de 5000”, aponta Bruno Cardoso Reis. “Todo o exército da Moldávia é mais ou menos do mesmo tamanho que o pequeno contingente de tropas russas que está na zona da Transnístria”, ilustra.

Tal significa que o país “não tem forma nem meios para se defender de uma possível agressão” e que, contrariamente ao que acontece, “pelo menos até ver”, nas zonas de fronteira com países da NATO, a Rússia “não tem claramente nenhum problema em fazer ataques, nomeadamente estes bombardeamentos com mísseis e drones, mesmo junto à fronteira da Moldávia”.

O especialista recorda que já existiram pelo menos “dois incidentes”: em outubro, o Governo moldavo acusou a Rússia de violar o espaço aéreo do país com o lançamento de três mísseis a partir de navios no Mar Negro e estilhaços de um míssil russo caíram em território moldavo, junto à fronteira com a Ucrânia, sem registo de vítimas.

Neste contexto, Bruno Cardoso Reis refere a importância de a União Europeia, enquanto “ator geopolítico e geoestratégico”, apresentar uma “resposta rápida” de apoio à Moldávia para “atenuar os efeitos” da crise em curso. “É fundamental que os países ocidentais rapidamente reforcem os seus apoios a este Governo, democraticamente eleito, que parece ter um programa sério de reformas e de combate à corrupção.”

No dia 1 de novembro, Maia Sandu afirmou, no Parlamento da Roménia, que a Moldávia “escolhe ser livre e continuar no seu caminho europeu, independentemente das circunstâncias”. “Estamos dispostos a pagar o preço da nossa liberdade”, garantiu. No domingo, a presidente da Comissão Europeia declarou que Bruxelas está a trabalhar num “apoio adicional” para ajudar a Moldávia relativamente às “necessidades imediatas de gás e eletricidade”. Ursula von der Leyen conversou ao telefone com Maia Sandu, com quem se irá reunir na visita ao país prevista para esta semana.

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: scbaptista@impresa.pt

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