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"Muitas pessoas têm ideias preconcebidas acerca das mulheres árabes: que estamos atrasadas, não temos acesso a educação, nem liberdade"

ivanamaglione

Bodour Al Qasimi é uma mulher árabe, dos Emirados Árabes Unidos, que, um dia, fundou uma editora de livros por causa da filha mais velha. Os livros a que a filha tinha acesso eram “aborrecidos” e não transmitiam a verdade da sua cultura. Nesta história, se houver moral a reter, a empresária escolhe uma frase, sem hesitar: “Todos nós queremos sentir-nos representados"

14 setembro 2022 22:18

Numa das mais recentes viagens que fez, à Argentina, Bodour Al Qasimi apaixonou-se pela literatura de Jorge Luis Borges. É, a par com os livros de Gabriel García Márquez, uma das suas fontes de inspiração. Mas Bodour Al Qasimi quer mais: que os livros sejam mundos imaginados, com a representatividade da realidade. Que os livros constituam, em suma, um espelho da Humanidade.

Na sétima edição das Conferências do Estoril, a fundadora da editora infantil Kalimat Group, da Emirates Publishers Association, do Conselho de Livros para Jovens dos Emirados Árabes Unidos e presidente da International Publishers Association (a segunda mulher em 126 anos) referiu-se ao exemplo do aclamado poeta norte-americano apresentado como Yi-Fen Chou, cuja inclusão na American Poetry Anthology (de 2015) causou alvoroço quando se descobriu que se tratava, de facto, de um poeta caucasiano chamado Michael Hudson. A submissão tinha sido repetidamente rejeitada até o autor ter adotado um nome diferente. O sucesso do poeta demonstrou que as revistas literárias aplicam diferentes critérios de qualidade tendo por base a etnia e o género.

Bodour Al Qasimi, filha do sultão Muhammad Al-Qasimi, quer romper estereótipos e convenções, e ensinar, através dos livros, que a angústia, a verdade e a alegria são universais. Nesta conversa com o Expresso, a empresária e ativista fundadora do movimento PublisHER (que promove as carreiras das mulheres em editoras) explica por que decidiu abraçar a missão da equidade de género e da igualdade de acessos aos mercados livreiros de todo o mundo.

O mundo das editoras de livros não é uma escolha óbvia para uma mulher árabe…
Não é uma escolha óbvia para ninguém, na verdade. Costumo dizer que comecei por causa das minhas filhas. A minha filha tinha quatro anos e não gostava dos livros árabes que eu lhe comprava. Por isso, decidi fazer isto por diversão: publicar livros em árabe, para promover a curiosidade e a imaginação dela, mas também para estimular o amor dela pela nossa língua. Via, na nossa sociedade, que muitas pessoas se viravam para os livros em inglês, negligenciando a própria língua. Não queria isso para as minhas filhas. Por isso, decidi publicar livros, como hobby, e ver como corria. Quando publiquei os primeiros, as minhas amigas que tinham filhos pediram-me para não parar, porque realmente era necessário termos mais livros criativos para crianças, que encorajassem o seu amor à leitura e a sua curiosidade, que lhes contassem as histórias da nossa cultura. Encorajaram-me a continuar e o resto é história... Já passaram 15 anos desde que comecei a minha editora. Já publicámos 200 títulos, recebemos prémios em várias feiras de livros, como a de Bolonha. Já não publicamos apenas livros para crianças, mas também ficção, não ficção, poesia e outros géneros.

Em alguns países ocidentais, tem sido apontada a desigualdade de género patente nos livros para crianças. No mundo árabe, isso é ainda mais notório. Editoras e escritoras têm uma voz muitas vezes silenciada. Foi difícil assumir um papel que a sociedade não lhe vende como seu?
Um dos aspetos pelos quais mais gosto de publicar livros é a construção de pontes com as outras pessoas e culturas. Muitas pessoas têm ideias preconcebidas acerca das mulheres árabes. Pensam que estamos atrasadas, que não temos acesso a educação, que não temos liberdade nem direitos. Publicar livros ajuda a desmistificar essas conceções. Ao longo da minha carreira, tenho visto que é uma ferramenta importante para educar as pessoas no sentido de que somos realmente muito semelhantes. Podemos parecer diferentes, mas, por dentro, somos semelhantes. Publicar livros tem essa serventia.

Acredito que as mulheres árabes têm conquistado muitas coisas, já fizeram muitas conquistas no passado, e aquilo que temos de fazer é dar-lhes a oportunidade de partilhar o seu sucesso com o resto do mundo. É preciso destacar os aspetos mais notáveis da cultura e das mulheres árabes. Eu quero realmente fornecer uma plataforma para essas vozes. Fui a única pessoa, não apenas árabe, mas também da Ásia, a ser eleita para a direção [da International Publishers Association (IPA)]. É uma oportunidade, e uma responsabilidade também, tentar mudar a perceção que as pessoas têm das mulheres árabes.

Mas não concorda que, em muitos países árabes, a liberdade das mulheres está suprimida, que a arte não é permitida às mulheres?
Esse é o meu trabalho: educar o mundo acerca da importância do contributo das mulheres árabes para a sociedade. Temos grandes mulheres, grandes escritoras e artistas que ainda não tiveram a oportunidade de atingir a atenção internacional. Quero partilhar isso com o Ocidente, para que também o Ocidente sinta curiosidade em relação a elas.

Bodour Al Qasimi, nas Conferências do Estoril

Bodour Al Qasimi, nas Conferências do Estoril

Que ideias preconcebidas acerca das mulheres do Médio Oriente gostaria de ver apagadas?
Obrigada por essa pergunta. A primeira coisa que gostaria de dizer, sobre qualquer cultura e pessoa com quem não estamos familiarizados, é que não se deve ter qualquer noção preconcebida. É importante ter o coração aberto...

“Estou há 20 anos nesta indústria da publicação de livros, e não falava do preconceito de que fui vítima. Não sentia que podia.”

Como devemos partir para o começo de um livro?
Sim, como um livro. Não julguem um livro pela capa. Esperem até lerem o livro para saberem sobre o que é. Enfrentei algum preconceito nesta indústria e foi difícil. Foi doloroso e desnecessário. Por que não aceitamos os outros exatamente por aquilo que eles são? Seria bom podermos admitir que somos diferentes, mas conseguimos conviver. Estou há 20 anos nesta indústria da publicação de livros e não falava do preconceito de que fui vítima. Não sentia que podia, porque encaro esta posição com muita responsabilidade. Estou a representar a indústria das editoras à escala mundial. Só comecei a partilhar essa experiência nos últimos dois anos, e muitas pessoas abriram-se e disseram que passaram pelo mesmo. Muitas pessoas passam por isso, mas não falam. Por isso, não estão conscientes. É uma dualidade de critérios e padrões de que não se dão conta. É importante que as pessoas saibam que também passei por isso, para não se sentirem isoladas.

O que podem as pessoas que vivem em outros lugares do mundo aprender com o testemunho de mulheres árabes? O que está o mundo a perder em termos de testemunho por não ter acesso a essa literatura?
Eu encorajo toda a gente a pegar num livro de alguém que não conheça e a aprender com ele. Não digo isso apenas em relação às mulheres árabes, mas de todas as culturas à volta do mundo, como seja a cultura africana e latinoamericana. É uma oportunidade para aprender mais e para se aproximarem dessas comunidades. Nós podemos parecer diferentes, mas os nossos valores partilhados são provavelmente semelhantes.

Para começar, o que recomendaria?
Poderia recomendar muitas autoras árabes. Hoda Barakat é um exemplo famoso, e escreveu livros maravilhosos. Eu própria já publiquei livros de escritoras árabes, é um bom ponto por onde começar.

As meninas árabes ainda não se sentem representadas nos livros que lêem e nos filmes que vêem? Foi com esse propósito que fundou a PublisHER?
Esse grupo internacional começou em 2019, porque senti que não havia uma grande representatividade de mulheres na indústria de publicação de livros. Queria dar a oportunidade às mulheres de tomarem mais decisões nesse universo e de treinarem as suas capacidades de liderança. Através da PublisHER, organizámos eventos de 'networking' em todo o mundo. O primeiro foi na feira do livro de Londres. O segundo foi em Frankfurt, e o terceiro em Nairobi. Recentemente, tivemos um no Brasil; é bastante internacional. É algo que é muito importante, não só para as mulheres árabes, mas para as mulheres de uma forma geral. Todos nós queremos sentir-nos representados.

Em muitos países do mundo, as raparigas não têm sequer o direito à alfabetização. No Afeganistão, por exemplo, houve alguns retrocessos em relação aos direitos das meninas, que, agora a partir dos 11 anos, já não podem ir à escola…
Isso é muito importante. Através da minha fundação, trabalhamos com comunidades que foram afetadas pela guerra, pela pobreza e pelas crises. Nós damos-lhes livros e construímos bibliotecas. Fazemo-lo em vários países, não apenas nos árabes. Doámos livros a campos de refugiados na Palestina, no Líbano, na Jordânia e no norte de África. Essas são as comunidades que conseguimos, para já, apoiar, mas esperamos dar esse suporte a outras comunidades que falem outras línguas também.

Recentemente voltei da Colômbia, onde me perguntaram se eu poderia fazer o mesmo pelas crianças colombianas, porque muitas não vão à escola e não têm acesso a livros. Estou a trabalhar no sentido de perceber como posso fazer isso acontecer; quero fornecer livros em espanhol para poderem aprender.

“Os livros dão-nos a oportunidade de realmente visualizar coisas que não conseguimos ver na nossa comunidade e na nossa vida.”

Poderia ajudar de várias formas... Por que é que os livros são tão importantes para si?
Poderia falar para sempre sobre isto... Os livros são muito importantes, dão-nos asas para voar. Se as crianças puderem ler e nutrir a sua imaginação, podem ser o que quiserem. Podem sonhar com um futuro melhor. Os livros dão-nos a oportunidade de realmente visualizar coisas que não conseguimos ver na nossa comunidade e na nossa vida. A minha frase preferida é de Einstein. Ele disse: "Se quer que os seus filhos sejam brilhantes, leia-lhe contos de fadas. Se quer que os seus filhos sejam ainda mais brilhantes, leia-lhe mais contos de fadas." Os contos de fada são muito importantes, e dão às crianças as ferramentas para lidarem com este mundo complexo.

Neste mundo complexo que descreveu, os livros podem ser ainda mais importantes para jovens mulheres e meninas?
Sim, porque as ajuda a tomarem decisões. Com a PublisHER, transmito isso. Se pudermos decidir que livros publicar, teremos obras que responderão às necessidades das raparigas. Terão livros com personagens femininas fortes e com histórias com que se identificam. Ver-se-ão refletidas nessas histórias. Tem de haver um gancho mais familiar para se verem refletidas nos livros.

O que podem fazer as editoras ocidentais, no sentido de serem mais sensíveis à desigualdade de acessos?
Isso mudou bastante nos últimos anos. As editoras estão mais conscientes da importância, e já o vemos pela forma como escolhem o seu pessoal. Muita gente começa a querer a diversidade das pessoas que tomam decisões, e isso vai refletir-se nos livros que serão publicados. Nós criamos o conteúdo que os leitores vão receber. Se criamos conteúdo branco e masculino, é isso que os leitores vão ler. Se criamos conteúdo de diversidade, que apoia os povos indígenas, outras culturas e línguas, porque reflete realmente o mundo em que vivemos, é isso que os leitores vão ler.

Pensava inicialmente que a sua atividade poderia tornar-se uma missão?
Não, não tinha pensado nisso dessa forma. Sempre dei um passo de cada vez. Esta função realmente chamou-me, porque era uma oportunidade de fazer a diferença. Fazer a diferença e deixar essa marca era muito importante para mim. Espero conseguir fazê-lo nos quatro meses restantes de presidência.

O meu sonho é ver um mundo mais justo e equalitário para toda a gente.