Internacional

Turquia apresenta lista de exigências para abrir a porta da NATO à Suécia e à Finlândia

25 maio 2022 18:25

José Pedro Tavares

José Pedro Tavares

Correspondente em Ancara

anadolu agency/getty images

Negociações entre a Suécia, a Finlândia e a Turquia começaram hoje em Ancara para tentar ultrapassar o veto turco à adesão dos dois países escandinavos à NATO. Ancara quer compromissos escritos sobre o fim do alegado apoio dos países escandinavos a organizações terroristas que atacam o Estado turco. Erdogan ameaça, entretanto, lançar nova ofensiva militar sobre zonas curdas sírias.

25 maio 2022 18:25

José Pedro Tavares

José Pedro Tavares

Correspondente em Ancara

Uma delegação escandinava chefiada por dois secretários de Estado dos Negócios Estrangeiros Oscar Stenstrom, da Suécia, e Jukka Salovaara, da Finlândia foi recebida esta quarta-feira em Ancara pelo secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros da Turquia, Sedat Önal, e pelo conselheiro presidencial Ibrahim Kalin, para tentar desbloquear o veto turco à entrada daqueles dois países na NATO.

Ancara acusa os dois países escandinavos, sobretudo a Suécia, de financiarem e apoiarem ativistas e militantes curdos, nomeadamente das milícias curdas sírias do YPG, que os turcos dizem ser um braço do PKK, uma organização separatista curda que luta há quase quatro décadas contra o Estado turco, e que é reconhecida pela UE como terrorista. O YPG foi o principal aliado da coligação internacional na luta contra o Daesh na guerra na Síria.

A Turquia acusa a Suécia, por exemplo, de financiar as milícias curdas sírias com centenas de milhões de euros e de lhes dar armamento. Ainda esta semana, a imprensa turca publicou várias fotos de algumas armas antitanque AT-4, de fabrico sueco, apreendidas recentemente em esconderijos do PKK no norte do Iraque.

Estocolmo desmente. A primeira-ministra sueca disse esta quarta-feira, numa conferência de imprensa realizada em Estocolmo, que “a Suécia nunca financiou ou armou as milícias curdas sírias”, embora a ministra dos Negócios Estrangeiros, Ann Linde, tenha confirmado numa entrevista ao diário "Aftonbladet" que o seu país “financiou muitos projetos humanitários na região”.

Compromissos em cinco áreas

Os negociadores turcos apresentaram hoje em Ancara à delegação dos países escandinavos um acordo escrito com compromissos em cinco áreas: acabar com o apoio político ao terrorismo curdo, eliminar as fontes de financiamento para os terroristas, acabar com o apoio militar ao PKK e às milícias curdas sírias do YPG, o levantamento do embargo da venda de armas à Turquia, que os dois países tinham imposto em 2019, e mais cooperação na luta contra o terrorismo.

Sabe-se, também, que os países escandinavos já puseram de lado a possibilidade de extradição das 33 pessoas que Ancara alega serem terroristas e que receberam asilo político na Suécia e na Finlândia.

O ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlut Cavusoglu, que está na Palestina, reiterou também esta quarta-feira que Ancara insiste em compromissos escritos e sugeriu que as negociações vão continuar nos próximos dias, possivelmente com a presença do secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg.

Erdogan defende-se

Na segunda-feira, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan voltou a defender o veto turco, dizendo que a atitude de Ancara tem princípios: “Disse a todos os nossos aliados que esses países têm de escolher entre dar apoio prático e político a organizações terroristas, ou obter o nosso aval à sua entrada na NATO”. E completou: “Veja-se o caso da Suécia, cujas ruas estavam pejadas de bandeiras do PKK/YPG há dias".

Stoltenberg tenta apaziguar os ânimos. Esta semana, no Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça, reconheceu “a importância das preocupações turcas”. “Eles são um aliado importante. Mais nenhum outro membro da NATO sofreu tantos ataques terroristas como a Turquia”. E mostrou-se confiante de que “a NATO encontrará uma solução”, como já o fez no passado.

O problema é que essa solução poderá tardar e fazer perigar a confirmação da adesão dos dois países escandinavos durante a próxima cimeira da Aliança Atlântica, que terá lugar em Madrid já no fim de junho – todos os restantes países queriam uma adesão célere.

Entretanto, e para complicar o tema, Erdogan ameaçou esta semana iniciar mais uma operação militar no nordeste da Síria, precisamente na área controlada pelas milícias curdas sírias, para criar uma zona tampão de segurança, de cerca de 30 quilómetros de profundidade, para o seu território. A Turquia já controla algumas dessas zonas noutras partes do norte da Síria e ameaça agora estender esse “cordão de segurança” ao nordeste do país. O assunto será discutido esta quinta-feira durante uma reunião do conselho de defesa nacional turco e ameaça complicar ainda mais a adesão da Suécia e da Finlândia à NATO.

O anúncio foi mal recebido em Washington. Ned Price, um porta-voz do Departamento de Estado, disse hoje: “estamos muito preocupados com essas notícias. Reconhecemos a legitimidade das preocupações turcas com a sua segurança nacional, mas uma nova ofensiva iria desestabilizar ainda mais a região e colocar em risco tropas americanas e os esforços da coligação internacional contra o Daesh”.

Segundo Ziya Meral, um investigador turco no Royal United Services Institute, um think-tank britânico, estas decisões recentes de Erdogan “estão a destruir o capital de confiança e boa vontade que a Turquia conseguiu reunir nos últimos 12 meses”, também devido aos esforços turcos para mediação na guerra entre a Ucrânia e a Rússia.