Internacional

Investigação revela funcionamento de 'campos de reeducação' de Xinjiang

24 maio 2022 17:31

Salomé Fernandes

Salomé Fernandes

jornalista da secção internacional

getty images

A versão chinesa, garantindo que os centros em Xinjiang respeitam a liberdade dos “alunos” é novamente desafiada. Desta vez por uma investigação da BBC, com base em documentos que revelam a presença de polícias armados nos campos de reeducação e ordem para disparar em caso de fuga

24 maio 2022 17:31

Salomé Fernandes

Salomé Fernandes

jornalista da secção internacional

Há polícias armados nos campos, ordem para matar em caso de tentativas de fuga e detenções por ofensas que variam desde “deixar crescer a barba sob a influência de extremismo religioso” até à leitura de escrituras islâmicas vários anos antes da acusação. É este o retrato dos campos de reeducação de uigures e de prisões em Xinjiang, na China, exposto pela BBC esta terça-feira, com base em documentos divulgados por um ‘hacker’.

A fonte dos documentos alega que acedeu aos servidores de computadores da polícia em Xinjiang, tendo descarregado e desencriptado os ficheiros, antes de os passar ao académico Adrian Zenz, da fundação “Victims of Communism Memorial Foundation”. Foi Zenz quem partilhou os ficheiros com a BBC. Nenhum dos documentos ‘hackeados’ tem data posterior a 2018. Contêm manuais internos da polícia, discursos confidenciais e os detalhes de internamento de mais de vinte mil uigures.

Um comunicado do ministério dos Negócios Estrangeiros da China, de fevereiro, aponta que o ministro Wang Yi recusa a existência de campos de trabalho forçado ou de reeducação em Xinjiang, classificando essas acusações de “desinformação”. A nota frisa que Xinjiang está localizada perto de uma área que tem forças terroristas e extremistas e que o governo da região respondeu à “ameaça iminente de forças terroristas violentas” com práticas internacionais para a “desradicalização através da educação”. Noutras instâncias, a China defendeu que as instituições em Xinjiang são o equivalente a escolas em regime de internato e que as liberdades dos “estudantes” são salvaguardadas. Mas os documentos divulgados desafiam essa versão.

Uma mulher aparece na base de dados por ser familiar de um dos detidos, sob suspeita pelos seus laços familiares. Em causa está o filho ser acusado de “fortes tendências religiosas” por não beber álcool nem fumar – o que lhe valeu uma pena de prisão de dez anos por acusações de terrorismo. Tursun Kadir aparece na lista por ter estudado escrituras muçulmanas nos anos 80, e mais recentemente pela ofensa de “deixar crescer a barba sob a influência de extremismo religioso”. Por este motivo, o homem de 58 anos foi preso por mais de 16.

A BBC descreve que há inúmeros exemplos de pessoas a ser punidas retroativamente, com um homem a remetido a uma década na prisão em 2017 por sete anos antes ter estudado escritura islâmica durante alguns dias. Há quem seja alvo por ter usado o telemóvel por ter aplicações encriptadas, mas também casos em que a falta de crédito no telemóvel é listada como um sinal de que o utilizador tenta evitar vigilância digital.

A BBC aponta que trabalhou com um consórcio de 14 organizações de meios de comunicação e que foi capaz de verificar a autenticidade de elementos significativos daqueles que são apelidados como os ‘Ficheiros da Polícia de Xinjiang’.

Questionado sobre a reportagem, o porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros, Wang Wenbin, disse esta terça-feira em conferência de imprensa que se trata “do exemplo mais recente da difamação de Xinjiang por parte das forças anti-China”. “É o mesmo truque que costumavam usar. As mentiras e rumores que espalham não conseguem enganar o mundo, nem esconder o facto de que Xinjiang tem paz e estabilidade, a economia é próspera e as pessoas vivem em paz e com contentamento”, disse.

12% de adultos em campos ou prisões

Num discurso confidencial de Chen Quanguo, que até recentemente foi secretário do Partido Comunista Chinês (PCC) na região de Xinjiang, este indica que “para alguns, mesmo cinco anos de reeducação podem não ser suficientes”. “Quando saírem os problemas vão reaparecer, essa é a realidade em Xinjiang”, disse, citado pela BBC.

No campo de Shufu, havia polícias em frente do portão de entrada e de cada um dos edifícios principais, estando 25 agentes armados. As torres de vigia eram guardadas por agentes equipados com armas de precisão e metralhadoras. No interior dos edifícios, polícias com escudos, cassetetes e algemas marcavam presença nas aulas.

Um dos documentos divulgados contém instruções sobre como os agentes deviam reagir em caso de uma tentativa de fuga. “Se os alunos não reagirem a tiros de avisos e continuarem a tentar fugir, a polícia armada dispara para matar”, pode ler-se. Quem tentar fugir e for capturado deve ser levado para interrogação. Quanto à transferência de “alunos” para outras instituições, os documentos apontam que devem ser vendados, algemados, e ter os pés acorrentados.

A análise revelou que no município de Konasheher (em uigur) ou Shufu (em chinês), o equivalente a 12% da população adulta estava num campo de reeducação ou numa prisão.

Num estudo de Zenz que tem por base os ficheiros, revisto e publicado no “Journal of the European Association for Chinese Studies”, o autor argumenta que “a escala da campanha de reeducação de Xinjiang, o enquadramento de grupos étnicos como ameaças e preocupações extremas com a segurança na execução da iniciativa refletem que se tornaram paranóia”. Apesar de reconhecer que a paranóia resulta em parte de realidade – como os atos de resistência violentos de alguns uigures – Zenz escreve que se tornou “muito exagerada”.