Internacional

A Polónia diz que ele morreu na Bielorrússia e a Bielorrússia diz que ele morreu na Polónia: um iraquiano é o 10º morto nesta fronteira

2 novembro 2021 20:41

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

Nos mais de 400 quilómetros de florestas, rios e terras ou áridas ou geladas que separam a Bielorrússia da Polónia escondem-se cada vez mais migrantes com medo de serem devolvidos. Não pedem ajuda. Já morreram 10 pessoas

2 novembro 2021 20:41

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

O impasse na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia, que no total tem mais de 400 quilómetros, continua a provocar vítimas. Esta terça-feira, um homem iraquiano foi encontrado morto perto da linha que demarca a fronteira, mas os dois países negam que tenha morrido dentro dos seus respetivos territórios. Não se conhece ainda nem a idade nem a razão da morte.

Segundo um comunicado da força policial fronteiriça da Bielorrússia, difundido pela agência de notícias France Presse, o homem terá morrido do lado polaco da fronteira, durante mais uma tentativa de entrar na Europa. O mesmo organismo acusa ainda os guardas polacos de obrigarem outros migrantes a arrastar o corpo do iraquiano para o lado bielorrusso, num diferendo que está a atingir níveis preocupantes, com a Polónia a ter já acusado os guardas bielorrussos de dispararem na sua direção.

Neste momento, as localidades polacas mais próximas da fronteira estão em estado de emergência e junto à zona onde há quase três meses se encontram pelo menos 32 pessoas a segurança é ainda mais forte. Os jornalistas têm de filmar ao longe, os advogados usam megafones para explicar às pessoas como preencher papéis para a proteção internacional e é impossível chegar perto das pessoas.

Já o serviço de proteção de fronteiras da Polónia garante que não encontrou o corpo em território polaco. “Se alguma coisa desse género tivesse acontecido do nosso lado, os serviços fronteiriços teriam sido informados”, disse um membro desta força ao jornal “Gazeta Wyborcza”. A maioria dos corpos recuperados desde o verão foram de facto encontrados do lado polaco: sete dos dez mortos conhecidos até hoje, segundo informações coligidas pela France Presse.

Os perigos para quem tenta entrar na Polónia, e, por lá, no Espaço Schengen, através das florestas que separam o país da Bielorrússia, são variados e conhecidos mas quando chega o inverno o frio é o principal inimigo. Apesar de não existir muita informação pública sobre as causas oficiais da morte das 10 pessoas que até agora foram encontradas, exaustão e hipotermia são as causas principais avançadas pelos poucos médicos que operam perto desta área e que podem falar com a imprensa.

Ativistas no terreno, que filmaram alguns dos seus encontros com migrantes para o “Guardian”, mostram que muitas pessoas com problemas urgentes, como os que se relacionam com a saúde, sua e dos seus filhos, temem pedir ajuda porque podem ser assistidos por polícias polacos que os reenviem para a Bielorrússia, como já aconteceu, segundo uma investigação da Amnistia Internacional. No último trabalho do “Guardian” a partir da fronteira vê-se uma família que pede ajuda para um filho com dificuldades respiratórias mas é um ativista que liga a um médico - e o grupo não quer envolver-se com nenhuma autoridade, nem sequer chamar uma ambulância.

A Polónia (e toda a UE) acusa o Presidente da Bielorrússia de utilizar estas pessoas para, ao permitir que elas cheguem em grandes números às fronteiras europeias, pressionar os países europeus a aliviar as sanções que lhe impuseram. Aleksander Lukashenko já admitiu isso mesmo, que a UE tem de lidar com o seu tráfico de droga e com os seus fluxos migratórios, já que ele e o seu Governo não continuarão a “prestar esse serviço”.

Em outubro, o parlamento polaco aprovou um novo projeto de lei que permite aos guardas de fronteira expulsar imediatamente os migrantes que entram no país sem documentos, o que quer dizer que os pedidos de asilo podem ser recusados sem serem analisados. O Governo alega que quem quiser pedir proteção tem de procurar entrar por uma zona autorizada de entrada.