Internacional

“O problema de Veneza é que o nível do mar não vai parar de subir até 2100”

18 novembro 2019 23:57

filippo monteforte/getty images

85% de Veneza está inundada. Situação dramática obrigou a autarquia a decretar o “estado de emergência”. O presidente da câmara, Luigi Brugnaro, diz que o cenário é “resultado das alterações climáticas”, mas existem mais fatores que explicam as piores inundações desde 1966 na cidade italiana. Há mais regiões do mundo em risco

18 novembro 2019 23:57

Desde quinta-feira, Veneza está em estado de emergência. No centro histórico, composto por 117 ilhas ligadas por pontes, a marca da água atingiu 1,87 metros dois dias antes – o nível mais alto registado em mais de meio século –, e 85% da cidade foi inundada. Um cenário que é “resultado das alterações climáticas”, segundo o presidente da Câmara de Veneza, Luigi Brugnaro. Mas, afinal, o que explica esta situação?

“O aquecimento global não é a única causa. Veneza está situada numa laguna. A ilha onde a cidade italiana se encontra está a afundar-se devido a uma subsidência, ou seja, a deslocação da superfície abaixo do nível médio do mar. Desde o início do século passado até agora, a ilha afundou-se 23 centímetros”, explica ao Expresso Filipe Duarte Santos, professor catedrático jubilado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (CNADS).

Além disso, sublinha o especialista, assinalaram-se mais 20 centímetros provocados pela subida do nível da água do mar devido às alterações climáticas. Ou seja, desde 1900 Veneza tem o nível médio do mar cerca de 40 centímetros acima do que tinha.

Quando há maré alta, marés vivas e sobretudo precipitação intensa e ventos do sul – do Adriático para o Golfo – isso faz com que o nível da água do mar suba. “Neste último caso, a água subiu 1,80 metros e como a maior parte de Veneza está a mais de um metro do mar, basta mais um metro por cima e fica inundada”, observa Filipe Duarte Santos.

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Fenómenos cada vez mais frequentes

Tal como as Nações Unidas (ONU) têm alertado, fenómenos como estes ocorrem cada vez com mais frequência e podem ter consequências mais graves. Tanto é que, por vezes, as inundações em Veneza atingem só a praça de São Marcos, mas desta vez abrangeram a quase a totalidade da cidade.

Lembrando que está em curso o plano MOSE (Módulo Experimental Eletromecânico), que consiste na construção de 78 comportas metálicas para evitar que as marés inundem Veneza, Filipe Duarte Santos lamenta contudo que não haja previsões quanto à conclusão daquele plano. Pelo meio houve derrapagens da obra e casos de corrupção que têm vindo a atrasar o processo. Mas há também a estimativa dos custos de manutenção na ordem dos 100 milhões de euros/ano que preocupa as autoridades.

“Ora, admitindo que a solução é tecnicamente viável no que toca à parte de engenharia, nada garante que a mesma é economicamente interessante. De facto, é difícil justificar um investimento desta natureza”, alerta por sua vez Luís Coelho, docente da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve (FEUALG).

A precipitação intensa registada nos últimos dias tem ameaçado outras cidades italianas como Florença e Pisa, que registam também cheias com frequência. “O rio Arno galga por vezes as margens, mas o maior problema de longe em Itália é Veneza. A cidade está condenada se não avançar com as obras de engenharia”, insiste o presidente do CNADS.

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€20 milhões para intervenções urgentes

No ano passado, assinalaram-se também grandes inundações em Veneza, que obrigaram a autarquia a canalizar cerca de 2,2 milhões de euros para obras, nomeadamente para a recuperação de uma catedral. Desta vez, a autarquia antecipa danos mais avultados, tendo anunciado já um fundo de emergência no valor de 20 milhões de euros: cada habitante e lojista da cidade que foi afetado pelas inundações deverá receber 5 mil e 20 mil euros, respetivamente.

Mas os prejuízos não deverão ficar por aqui. Na imprensa e nas redes sociais multiplicaram-se as imagens de habitantes e turistas de galochas, a serem levados ao colo ou transportados de barco na cidade que recebe cerca de 36 milhões de turistas por ano. As agências de viagens estão a anunciar também vários cancelamentos de viagens programadas para o final do ano em Veneza.

“Para a maioria das pessoas, visitar Veneza com água pelo joelho não é muito interessante. Neste sentido, poder-se-á admitir que a cristalização do fenómeno afetará negativamente a procura turística no mais longo-prazo”, adverte o professor universitário.

Do ponto de vista da oferta turística a realidade parece clara, segundo Luís Coelho, que realça que o aumento do nível da água resultará provavelmente num aumento do custo de manutenção das estruturas que apoiam diretamente o turismo (restaurantes, hotéis, barcos, etc) e de toda a infraestrutura pública que serve a cidade. “Neste contexto, será lógico que os preços (e taxas) tenham de aumentar para fazer face a esta situação”, sustenta o professor da FEUALG.

Filipe Duarte Santos defende que é preciso entender que se a cidade ficar submersa será uma “perda cultural enorme” para Itália e para a Europa, do ponto de vista histórico e artístico. “O principal problema é que o nível do mar não vai parar de subir até 2100. Prevê-se que até ao fim do século, o nível médio do mar naquela zona do Mediterrâneo suba mais de um metro. E para isso falta pouco, são apenas 80 anos. Trata-se de uma situação muito difícil”, vaticina o especialista.

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Várias regiões sob ameaça

Independentemente de todos os países cumprirem o Acordo de Paris, “o nível da água do mar subirá” e há várias regiões do mundo que estão sob ameaça, mas se os objetivos forem cumpridos será - pelo menos possível - minimizar esse efeito.

“Eu diria, por exemplo, que os deltas de alguns grandes rios vão galgar as margens e ameaçar as populações, como o delta do Nilo, no Egito, o delta do Ganges no Bangladesh e o delta no Mekong, na Indochina, no Vietname e na Tailândia. Mas também estão sob ameaça cidades como Xangai ou Miami e outras cidades na Florida”, frisa o especialista.

De acordo com Filipe Duarte Santos, a costa da China é também muito vulnerável ao nível da subida do nível do mar. Por sua vez, Nova Iorque está já a fazer obras para proteger a cidade para a eventualidade de um ciclone atingir a região, sendo a capacidade de adaptação dos EUA muito maior. “Na Florida podem construir barreiras, pois há dinheiro nos Estados Unidos. Já no Bangladesh não há dinheiro, por isso é que as pessoas migram.”

Se não se cumprir o Acordo de Paris, evitando que a subida da temperatura ultrapasse os dois graus Celsius, haverá cada vez mais riscos para várias regiões. Filipe Duarte Santos não tem dúvidas: “É preciso ser mais ambicioso para diminuir as emissões poluentes. O mundo depende muito dos combustíveis fósseis, por isso é vital fomentar a transição energética.”