Economia

António de Sousa contraria falta de memória de Constâncio: "Foi Vitor Constâncio que me falou da carta" sobre a falta de controlo na CGD

30 abril 2019 12:04

rafael marchante

O ex administrador da Caixa em 2002 Almerindo Marques avisou o governador do Banco de Portugal, Vitor Constancio, de que havia problemas de controlo de risco no banco público. Constâncio garante não se lembrar mas esta terça-feira António de Sousa diz que soube da missiva pelo próprio ex-governador

30 abril 2019 12:04

O ex presidente da Caixa entre 2000 e 2004, António de Sousa que esta manhã responde aos deputados na comissão parlamentar de inquérito, afirma saber da existência da carta enviada por Almerindo Marques ao ministros das finanças e governador do Banco de Portugal à época. "Foi Vitor Constâncio que me falou da carta. Não me entregou a carta, mas falou-me dela" . Refere ainda que o então governador do BdP "sabia o esforço que a Caixa estava a fazer nesta matéria".

No final de março, na audição de Vitor Constâncio, o ex governador do BdP afirmou não se recordar da carta que lhe foi entregue por Almerindo alertando para problemas na concessão de crédito. "Não me lembro. Isso terá sido quando? Há 12 anos? Tanto papel que recebi , tanto relatório que li", entre 2000 e 2010.

Os contactos com o Banco de Portugal, segundo António de Sousa eram constantes, especialmente com os departamentos de supervisão bancária e o então vice governador do banco central, António Marta que já faleceu.

Durante a audição António de Sousa afirmou que em "quase todos os conselhos onde estive as decisões finais acabaram por ser consensuais" entre o que chegava do parecer do risco e da decisão do conselho alargado de crédito. Isto porque em muitas operações se faziam acertos para a aprovação de alguns dos financiamentos.

Volta a afirmar que à época não era exigida qualquer fundamentação nas atas que aprovavam o crédito em causa.

Quanto aos rácios obrigatórios para a concessão de um determinado financiamento refere que para o crédito para compra de ações "era obrigatório um rácio de cobertura de 120%, para as restantes operações era desejável". E explica que que muitas das operações da Caixa derivaram de um ambiente decorrente de algumas privatizações . "A CGD foi o banco português que mais financiou operações de privatização".

A este respeito a posição da CGD no BCP voltou à baila e António de Sousa sublinhou que os 8% que o banco público teve no BCP " teve importância, era possível, mas penalizou o rácio de capital da CGD". Foram, diz, operações que fizeram parte de uma estratégia do governo em utilizar a Caixa para a defesa dos centros de decisão que aconteceram em vários governos. Mas, "temos de ter consciência que isso tem custos pesados".

Veículo Caravela gerou perdas brutais

Durante a audição, António de Sousa reconheceu que uma das operações que teve de imparizar a 100% foi a que herdou do anterior sucessor João Salgueiro, ex-presidente da CGD. Trata se do veículo Caravela. que em 2005/06 gerou uma perda de 340 milhões de euros. "Eu sei. Provisionei a 100%". Mas disse mais: a administração liderada por João Salgueiro "não entendeu bem o que estava a assinar".

No Caravela, que geria obrigações e cuja operação foi feita em conjunto com o Credit Suisse First Boston, a Caixa investiu 447 milhões de euros em 1999. Era um instrumento financeiro que permitia à Caixa "uma taxa de juro substancial" , mas também " riscos" relativos a perdas dos ativos subjacentes ás obrigações que estavam nesse veículo, como acabou por acontecer. "Era uma operação muito complexa , feita antes do meu tempo, e sei como foi ruinosa porque tive de a provisionar".

E embora não diga quem terá sido o ideólogo da operação, porque a mesma nunca lhe foi explicada quando sucedeu a Salgueiro, adianta apenas saber que "foi feita num prazo relativamente curto". E que não sabe se foram analisados os riscos inerentes a esta operação.