Cultura

"Anónimo Não é Nome de Mulher": as mulheres despejadas em hospícios durante o fascismo eram como outras quaisquer

18 janeiro 2023 14:25

Rui Oliveira

Fotojornalista

"Anónimo Não é Nome de Mulher", na Casa das Artes de Famalicão

rui oliveira

Como foi ser mulher ao longo dos tempos? "Anónimo Não é Nome de Mulher" contará uma parte importante dessa História. Com estreia marcada para esta quinta-feira (dia 19), na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, a peça ficará em cena até sábado (21 de janeiro)

18 janeiro 2023 14:25

Rui Oliveira

Fotojornalista

As eufóricas, as instáveis, as que tornam cadernos em "sonhatórios", as que não se deixam amestrar, as que não agradam aos seus maridos, as que permanecem de útero vazio, as cheias de ideias, as que lêem na via pública, as não devotas, as insubmissas, as histéricas, as escritoras, as incorrigíveis: são as que ouvem "a senhora está doente, vai ter de ficar internada", são as que jamais verão o portão enferrujado da saída. E as "tarefeiras da própria vida", que não se esquivaram a uma vida sem curvas, que se desmereceram para caber onde as colocavam, estão ali também, se aos senhores convinha. Os arquivos médicos do Hospício de Santa Teresa contam os deslizes irreparáveis que centenas de mulheres ousaram cometer. Uma: cuidadora do lar, cuidadora do homem, respeitadora do regime, falhou em não dar filhos. "Estava estragada", lamentou-se, à chegada. É um dia definitivo aquele em que são despejadas como cadáveres, algumas sem roupa, nuas, divorciadas da sua identidade, naquele "hospício, casa assombrada, vazadouro" (que os nomes só importam se funcionarem como manual de instruções). Mariana Correia Pinto, mulher que escreve no século XXI, sabe que não há caminho de volta para a morte, mas que há quem consiga regressar do esquecimento: porque há quem grave para não deixar apagar. "O cérebro protege o ser humano de experiências traumáticas"; chama-se amnésia dissociativa. Mas quem protege o ser humano do abismo musculoso e indigno do esquecimento?

Em cima do palco, as interrogações, umas visíveis a olho nu, outras mascaradas, são a teia a que é impossível escapar, até estarmos cercados. E há frases de alta voltagem, que queimam e devolvem o cérebro de volta, como trapo esfarrapado: "Para as mulheres, a vida não tem atalhos."

rui oliveira

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"Anónimo Não é Nome de Mulher", uma peça de teatro que é também um "manifesto", averigua o que a História, debativelmente, resolveu nublar. Na Itália fascista, milhares de mulheres foram condenadas a uma vida encarcerada por não se enquadrarem na norma concebida pelo regime. A jornalista e grande repórter Mariana Correia Pinto, a convite da investigadora do Centro de Estudos Arnaldo Araújo, catapultou os registos recolhidos pela historiadora Annacarla Valeriano, dando-lhes cores, dimensões, tangibilidade, visibilidade. Na sua estreia como autora de texto para encenação, a jornalista do "Público" inspira-se nos atos cometidos no asilo de Sant'Antonio Abate de Teramo, em Itália, e no Colónio, no Brasil, durante regimes ditatoriais, sobretudo do século XX. Sem se prender a geografias, mas compreendendo que a realidade pode assemelhar-se a um manicómio ou a um asilo em que a coragem e a bondade se aposentaram, Mariana Correia Pinto, mulher, autora e jornalista, faz quem ouve questionar-se: "Em quem cabia a loucura? Nela ou nas outras mulheres? Nela ou em mim?" No exercício de simetrias, cabem, finalmente, não à luz do dia, mas debaixo de um comando ("luzes, câmara ação"), "mulheres que eram encarceradas, consideradas loucas, embora, na maior parte dos casos, nada houvesse de doença mental".

rui oliveira

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Cabia, no lugar bafiento, com cheiro a mofo, tudo o que, por não ser protocolar, "não interessava ao regime", e que era tanto: "Eram mulheres que fugiam à imagem àquilo que era a imagem de uma mulher ideal do regime - a mãe, a esposa e a filha - e que, por isso, eram consideradas inadequadas na sociedade. Os hospícios eram os locais para onde eram enviadas. Os crimes delas iam desde não conseguirem engravidar - e os maridos consideravam que tinham defeito -, passarem a ser incómodas aos olhos dos maridos, que tinham amantes, serem filhas mais rebeldes, estarem a ler na via pública, e passavam também por serem prostitutas ou estarem em situação de sem-abrigo."

O encenador António Durães traduziu a história para o que é visto em palco: duas atrizes (Luísa Pinto e Maria Quintelas) encarnam sete personagens, assumindo a totalidade da experiência, devorando a totalidade do sentimento. Com Cristina Bacelar, o texto torna-se ainda mais fulminante. Oferecendo uma obra musical própria, a artista concretiza o ápice das emoções (e inquietações) em palco. Se a reivindicação é heresia e a palavra é arma, a encenação de António Durães cola à garganta o vulcanismo das paixões reprimidas, dos abraços por dar, do nó que é abandono. Porque os símbolos "têm que ver com o passado mas marcam o passo para a frente".

rui oliveira

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Para a autora do texto, "Anónimo Não é Nome de Mulher" é sobre a importância da democracia e da liberdade e a urgência da igualdade, não podendo esquecer que "os dias de hoje tinham resquícios, tinham ecos desse passado de opressão". Mariana Correia Pinto atirou-se ao trabalho que denuncia a violência mas também faz olhar para o caminho. O Hospício de Santa Teresa é, porque pode ser, agora. A obra nasce quando, na Europa, "os regimes populistas e de extrema-direita estão a crescer de uma forma assustadora", esclarece a jornalista, destacando os radicalismos de Giorgia Meloni em Itália e de Bolsonaro no Brasil. Não é tempo de perder tempo, é tempo de alertas, porque o fascismo é uma narrativa a dois tempos. Como autora, Mariana Correia Pinto não deixou nada ao acaso: em "Anónimo Não é Nome de Mulher", o pé de cima esmaga quem está em baixo, e a cadeia de que se alimenta o poder esmaga invariavelmente o mais fraco. Todos clamam por sobrevivência. "Poder escolher as personagens foi novidade absoluta", reflete a jornalista. "Eu trabalho com a realidade e o poder de ficcionar foi o que de mais diferente fiz." E é um texto bem-vindo, depois de “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”, mostrando que os lugares que o fascismo foi surripiar à mulher são-lhe, por força da arte e das palavras, devolvidos.

António Durães e Mariana Correia Pinto

António Durães e Mariana Correia Pinto

rui oliveira

Depois de se estrear, na quinta-feira, na Casa das Artes em Famalicão, e de ali permanecer até sábado, a peça segue em périplo para São Paulo, na SP Escola de Teatro, para Bragança e Estremoz (nos primeiros dias de março).