Cultura

Jorge Silva Melo (1948-2022), um perfil: encenador, ator e tradutor, sempre um artista unido com o teatro

15 março 2022 9:26

“A minha atividade não está a concurso e o Estado não tem o direito de conceder prémios. Deve, antes, concentrar-se em dar condições de trabalho aos artistas e promover o desenvolvimento das artes do espetáculo”, defendeu um dia Jorge Silva Melo

15 março 2022 9:26

O encenador, escritor, realizador, ator e tradutor Jorge Silva Melo foi, por todas as funções que ocupou em mais de meio século de carreira ligada ao teatro, um dos nomes fundamentais do palco em Portugal das últimas décadas.

Cofundador do Teatro da Cornucópia, em 1973, com Luís Miguel Cintra, e fundador dos Artistas Unidos, em 1995, que dirigiu até à sua morte, Jorge Silva Melo ocupava “um lugar só dele na cultura em Portugal”, como escreveu a Cinemateca Portuguesa, em 2020, aquando do ciclo que lhe dedicou.

Jorge Silva Melo nasceu em 7 de agosto de 1948, em Lisboa, cidade onde morreu, na segunda-feira, aos 73 anos, vítima de doença oncológica, como informou a companhia Artistas Unidos, que dirigia. Foi também em Lisboa que se licenciou em Filologia Românica, na Faculdade de Letras da universidade clássica (FLUL), na década de 1960, e onde veio a fazer parte do Grupo de Teatro de Letras, interpretando, entre outras peças, em “Anfitrião”, de António José da Silva, com Luís Miguel Cintra.

Como lembra o Centro de Estudos de Teatro da FLUL: “O grupo deste ano letivo, dirigido por Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo, dá origem ao Teatro da Cornucópia”.

Medalha de mérito cultural em dezembro do ano passado, recebeu um doutoramento ‘honoris causa’ pela Universidade de Lisboa (a par de Cintra), em abril desse mesmo ano. Em 2020, recebeu o Prémio D. Diniz da Casa de Mateus, pelo livro de memórias “A mesa está posta”.

Pouco depois da entrada do século XXI, Silva Melo recusou o Prémio Almada 2003 para área do teatro, galardão atribuído pelo Instituto das Artes, alegando que “não compete ao Estado” distinguir o seu trabalho artístico.

“A minha atividade não está a concurso e o Estado não tem o direito de conceder prémios. Deve, antes, concentrar-se em dar condições de trabalho aos artistas e promover o desenvolvimento das artes do espetáculo”, defendeu.

Anos mais tarde, em plena crise dos anos da ‘troika’, publicou um manifesto em defesa do financiamento público do teatro, nas redes sociais: “Gostamos também que gostem de nós. E gostamos também que não gostem de nós. Gostamos de apostar em espetáculos que não são de consumo rápido. Que fazem refletir. Gostamos de pensar e de fazer pensar na sociedade e no indivíduo. Porque gostamos da sociedade e do indivíduo”.

“Às vezes, temos poucos espectadores. Porque para pensar é preciso tempo e cada vez há menos tempo. Mas estes espetáculos que fazemos são imprescindíveis – até para aqueles que não os veem. Por isso não iremos desistir”, escreveu, então.

Antes da Cornucópia, Silva Melo estudou na Escola de Cinema de Londres (1969-1970) e foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em Berlim, onde trabalhou com Peter Stein, tendo também acompanhado Giorgio Strehler, na cidade italiana de Milão.

Na Cornucópia, segundo a base de dados do Centro de Estudos de Teatro da FLUL, a estreia dá-se com “O Misantropo”, de Molière, traduzido por Luís Miguel Cintra. Silva Melo interpretou Oronte, enquanto Cintra foi Alceste e Filipe La Féria Filinto. A peça foi vista por mais de 6.000 espectadores.

Já em 1974, encenou “A Ilha dos Escravos”, de Marivaux, tendo assumido ainda a encenação de obras como “O Terror e a Miséria no III Reich”, de Brecht (após o 25 de Abril), “Pequenos Burgueses”, de Gorki, “Woyzeck”, de Büchner, entre outras.

Saído da Cornucópia em 1979, e já depois de ter trabalhado com João César Monteiro, Paulo Rocha, António-Pedro Vasconcelos e Alberto Seixas Santos, Jorge Silva Melo estreia-se, em 1980, como realizador, com o filme “Passagem - Ou a Meio Caminho”, sobre a vida de Georg Büchner, a que se seguiram, na ficção, entre outras obras, “Ninguém Duas Vezes”, “Agosto”, “Coitado do Jorge”, “António, Um Rapaz de Lisboa” e a curta-metragem “A Felicidade”, com Fernando Lopes a protagonizar.

Sobre os documentários dedicados a artistas, considerava-os como “uma espécie de balanço dos últimos 50 anos da arte portuguesa, inventiva, interessante" e que o apaixonou.

Silva Melo começara com António Palolo, em 1995, na sequência de um convite da Fundação Calouste Gulbenkian, e, desde então, não mais parou, dirigindo filmes sobre Álvaro Lapa, Nikias Skapinakis, Ângelo de Sousa, José de Guimarães, Joaquim Bravo, António Sena, Fernando Lemos, Bartolomeu Cid dos Santos e ainda "Esta mútua aprendizagem", sobre a Gravura, cooperativa de gravadores, fundada por artistas, em Lisboa, nos anos de 1950.

Com os Artistas Unidos encenou dezenas de peças, apresentadas pelo país, a começar pelo seu “António, Um Rapaz de Lisboa”, em 18 de setembro de 1995, o ano inaugural da companhia, com a qual passou por diferentes palcos-residentes, do espaço A Capital, no Bairro Alto, ao Teatro Taborda, até ao atual Teatro da Politécnica, nos edifícios da antiga Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, a sua 'casa' mais permanente, onde se encontra desde 2011.

Entre as peças em palco e os “Livrinhos de Teatro” editados sob a chancela dos Artistas Unidos - primeiro com os Livros Cotovia, atualmente com a Livraria Snob -, Silva Melo “apostou permanentemente em jovens atores, revelou e pôs em cena autores contemporâneos”, como lembrou hoje o primeiro-ministro, António Costa.

Aquando da edição de “A mesa está posta”, o encenador disse à Lusa que, apesar de o primeiro fascínio do teatro estar no “descobrir pessoas ali no palco, que contam segredos”, eram os atores que o arrastavam para cena, que o faziam ir atrás daquilo que ele lhes propunha, ainda que não verbalmente.

“Vou sempre arrastado por este desejo que é disfarçar os atores para contar a verdade”, este dar a conhecer a 'dança' que foi o teatro para si, uma 'dança' que gostava de “continua a dançar”.

No ano passado, na atribuição do ‘honoris causa’ pela Universidade de Lisboa, Silva Melo realçou que o trabalho teatral “começa onde a palavra desagua”.

Nessa mesma cerimónia, Jorge Silva Melo declarou: “Despachemo-nos, não vá isto transformar-se em autópsia, pois já muita coisa morreu mesmo e não é só por olharmos para trás que a Eurídice volta a viver. Muita coisa fugiu-nos já, não pode ser estudada. Muita coisa ficou apenas na memória dos camarins”.