Cultura

Jorge Silva Melo (1948-2022): “Uma coisa que me interessa é o desejo. O desejo absoluto”

15 março 2022 8:51

Luís M. Faria

Jornalista

O Expresso recupera a última entrevista que publicou, a 11 de janeiro, com Jorge Silva Melo, que faleceu esta segunda-feira. Foi feita a propósito da sua última peça “Obstrução”, onde o encenador, ator e dramaturgo revisitou os mitos gregos clássicos

15 março 2022 8:51

Luís M. Faria

Jornalista

Aos 73 anos, Jorge Silva Melo tem uma longa obra como ator. autor, encenador e cineasta, para além dos seus trabalhos como crítico e tradutor. A sua última encenação para a companhia que fundou, Artistas Unidos, intitula-se “Obstrução” e estreia esta terça-feira às 19H00 no Teatro da Politécnica, junto ao Príncipe Real, em Lisboa. É uma revisitação de mitos gregos clássicos, segundo Silva Melo explica. Na breve conversa como Expresso, ele faz questão de destacar não só os nomes dos atores como os de Rita Lopes Alves, Nuno Gonçalo Rodrigues e Pedro Domingos. São os outros colaboradores que ajudaram a garantir que tudo corria bem apesar da ausência inesperada do encenador por motivos de saúde.

Qual a história desta peça?

O Dimítri Dimitriádis é um autor grego da minha idade, mais ou menos. Temos feito várias peças dele, e ultimamente mandou-me quatro mini-dramas em grego contemporâneo nos quais reinventa novas soluções para os mitos clássicos. Por exemplo, o Narciso, que estava apaixonado por si próprio há não sei quantos mil anos, agora apaixona-se por um outro rapaz. O que o Dimitriádis está aqui a tentar mostrar, ou incentivar, é o mais ardente desejo que irrompe na história, que forma a história, que nos modifica. É muito estranho eu estar a dizer isto, pois estou num hospital. Estou acamado, com uma operação a uma perna, e não assisti aos últimos ensaios do espetáculo que vai agora estrear. Mas tenho confiança total e absoluta nos artistas e nos técnicos. Ontem fizeram um ensaio geral que parece ter corrido bem, mas não posso lá estar. Estou aqui à espera que me venham fazer fisioterapia. É engraçado pensar que o Dimitriádis pensou isto – a incapacidade de o corpo responder às necessidades do desejo. Seria outra peça, o Filoctetes, com a perna partida, o corpo esquecido. Esse ardente desejo de que falam estes quatro mini-dramas, feito por cinco atores atores talentosíssimos: Pedro Caeiro, Pedro Lacerda, André Loubet, Diogo Faria, Simon Frankel.

Os quatro dramas são representados de seguida?

São. Começamos com a morte de Sócrates. Ele despede-se dos seus rapazes, amigos e desejados, e vai morrer para longe. A seguir há uma situação de um outro mito grego. Depois volta o desejo absoluto. E finalmente temos o assassino de Aquiles a chorar o corpo dele. São variações estridentes, digamos, insólitas, sobre vários mitos gregos que conhecemos bastante bem, mas que aqui têm versões bastante novas. E são inéditos. Nada disto foi representado, nem na distante Grécia. São textos que foram agora traduzidos, editados e representados por nós em estreia mundial.

Como é que isso aconteceu?

Ele é muito nosso amigo, já fizemos várias peças dele. Mandou-nos um texto em francês de que eu gostei muito, e perguntei: não tens mais? Mandou-nos outro em grego, fomos juntando os textos. E foi bater mais ou menos numa época da programação em que eu tinha estes cinco atores perfeitos paa fazer isto. Foi uma generosidade dele, mandar a tradução em francês do diálogo entre Narciso e o seu amante, um texto muito bonito e com muitas potencialidades teatrais. A partir daí construí os quatro minidramas.

Em que medida este tipo de textos vem na sequência de trabalhos anteriores seus?

Não muito. É bastante inovador. Mesmo o trabalho com os atores. Por causa do covid, os ensaios foram por vezes interrompidos e suspensos. Inesperadamente, parti uma perna e quis ser operado. Atribulações de um chinês da China…

Já tem tratado temas da mitologia clássica?

Muito pouco. Foi só com o Heiner Muller, que tratei um bocadinho, e com o Dimitríadis. De resto, passei imune aos gregos clássicos. Aqui fixa-se muito numa coisa que me interessa, que é o desejo. O desejo absoluto, o desejo de superar as nossas próprias qualidades, de nos superarmos com outros, o desejo de vencer. Creio que essa temática nunca me abandonará. Nestas quatro peças é isso se quer. Narciso deixa de se apaixonar por si e apaixona-se por outro homem. Que revolução, na Grécia antiga.