Cultura

Um daqueles “sacanas negros”: a grande ironia

24 fevereiro 2019 1:07

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A história começa com o primeiro polícia negro do Colorado a responder a um anúncio no jornal. Como acaba, não lhe vamos contar. Pelo menos não o final da versão cinematográfica e que está nomeada para seis óscares: “Blackkklansman”, o filme, conta a história de uma grande e séria ironia

24 fevereiro 2019 1:07

- Isso não é verdade. Ele está a mentir.
-Se é mentira, por que razão tem ele um cartão de membro assinado por si?
Nesse momento, o registo da conversa mudou.
-Bem… Não fizemos nada de ilegal. Qual é o problema?

Um jornalista ligou a David Duke, antigo líder do mais notório movimento racista de supremacia norte-americana: o Ku Klux Klan. Confrontava-o com a história que tinha lido num jornal local sobre um polícia que se infiltrou no grupo do Colorado. Duke negou de imediato. Como poderia não negar algo que que lhe parecia tão absurdo: um negro no KKK? Continuou a negar. Só depois percebeu.

“Até 2006, Duke nunca soube que um negro fez dele parvo”, conta Ron Stallworth, que já está reformado. Foi o primeiro polícia negro do Colorado, trabalhou numa série de investigações como agente infiltrado e durante sete meses e meio pertenceu ao KKK. As comunicações eram todas por telefone e nunca lhe viram a cor da pele; quando foi preciso aparecer fisicamente nas reuniões, Ron pediu a um colega branco que estivesse presente - a identidade deste nunca foi revelada, ao contrário do que acontece no cinema, em “Blackkklansman”, assim como a forma como o líder supremacista realmente descobriu passados vários anos que havia sido enganado.

Na investigação, Ron Stallworth identificou que alguns membros das Forças Armadas estavam envolvidos nas atividades do KKK - desculpem os espetadores e amantes de uma boa história romanceada, mas nunca houve não houve bombas ou cruzes incendiadas. Pelos menos quatro militares foram recolocados noutros estados. Ou, como ainda diz Ron, mandados para o Polo Norte ou para a Gronolândia.

“Nunca me identifiquei. Ordenaram-me a não manter contacto com ele [David Duke] após a investigação.” Mas uns dias após a investigação terminar, Ron telefonou-lhe. Estava furioso porque um tal polícia negro tinha andado a investigar. “Eu e o meu sargento rimos o tempo todo”, recordou o antigo polícia numa recente entrevista à “Time” a propósito da estreia do filme. “O sargento ficou com a cara muito vermelha de tanto rir e teve de sair da sala para apanhar ar.”

Um negro ao telefone, um branco pessoalmente

Estávamos em 1979 e Ron Stallworth lia o jornal no trabalho. Viu um anúncio: procurava-se membros para um novo grupo do Ku Klux Klan no Colorado. Respondeu e candidatou-se. Esperou alguns dias e a sua adesão nunca mais era aprovada. Decidiu ligar, pedir explicações pela demora. Estava impaciente.

“Odeio negros.
Odeio judeus.
Odeio mexicanos.
Odeio irlandeses.
Odeio italianos.
Odeio chineses.
Mas mais do que tudo não suporto os sacanas daqueles negros.”

Ron Stallworth odiava todos aqueles que não tinham “o puro sangue ariano”. Ou pelo menos era o que dizia ao homem que o atendeu: David Duke. E, ao telefone, Ron conseguiu apressar a sua entrada no grupo. Terminou a conversa: “Que Deus abençoe a América branca”. Assim começava a investigação provavelmente mais irónica da sua carreira. Porque Ron era - é - um daqueles “sacanas”.

“Foi uma dos trabalhos mais divertidos. Todos diziam que era impossível fazê-lo”, contava pela primeira vez, em 2006, Stallworth ao “Deseret News”. “O mais complicado era fazer a conversa fluir.”

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Ao mesmo tempo que estava infiltrado no KKK, Stallworth investigava um grupo do Partido Progressista, com ideologia comunista e que aparecia nas manifestações de extrema-direita em contraprotesto. Sabia o que cada uma das partes planeava e a polícia do Colorado era informada.de forma a poder intervir por antecipação.

“Prevenimos três queimadas de cruzes. E queimar cruzes é considerado um ato de terrorismo interno. Nunca ninguém acordou aterrorizado e viu uma cruz a arder”, assegura.

Cresceu dentro do grupo e quiseram dar-lhe mais poder. “Pediram-me para liderar porque era um bom e leal klansman”, contou. Os klansman são os homens do KKK. Não respondeu ao convite. Era hora de terminar a investigação. Afastou-se.

Uma outra história verdadeira

Morreu Addie Collins, 14 anos. Morreu Cynthia Wesley, de 14 anos. Morreu Carole Robertson, da mesma idade, e também Carol McNair, a mais nova com 11 anos. As quatro foram vítimas do ataque que ficou conhecido como o bombardeamento da Igreja Batista da rua 16, no Alabama. Foi a 15 de setembro de 1963 e mais 22 pessoas ficaram feridas. Era domingo.

Quatro membros do KKK haviam colocado mais de uma dezena de barras de dinamite na cave, junto às escadas da igreja. Explodiram. Este é o verdadeiro evento que inspira “BlackkKlansman” no momento em que os extremistas tentam plantar bombas em determinados locais. Ron Stallworth nunca se confrontou com essa realidade: “era preciso criar alguma tensão no filme”.

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Figuras como David Duke são, no entanto, bem reais. Fez carreira política e representou o estado do Louisiana na Câmara dos Representantes - até foi candidato presidencial nas eleições primárias dos democratas e dos republicanos em 1988 e 1992, respetivamente. Nega a existência do Holocausto, defende a supremacia branca. Diz coisas como “os pretos são basicamente animais primários” ou “não quero ver este país ficar igual ao México”.

Nunca proibiram Ron Stallworth de falar da investigação ao KKK, mas optou por não o fazer. Só o fez quando se reformou e um jornalista lhe pediu para escrever um perfil da sua carreira. Ron aceitou. A história de como foi temporariamente um “Klansman” foi replicada em dezenas de meios de comunicação social. Em 2014, o antigo polícia publicou um livro com todos os detalhes e episódios da investigação.

“Tenho a sensação de que se tivesse contado mais cedo, se o público soubesse que um negro gozou com David Duke, talvez a sua tentativa de carreira política tivesse caído em desgraça. Ele teria muito por que responder”, diz Stallworth.

O cartão de membro do KKK

O cartão de membro do KKK

courtesy of ron stallworth

Ron Stallworth nasceu em El Paso, no conservador estado do Texas. Foi criado só pela mãe, que o ensinou a defender-se sempre que o insultassem, mesmo que fosse necessário usar a força. “Um negro na América passa por experiências racistas de todo o tipo, mas não posso dizer que exista um momento de mudança. Aprende-se a lidar com as coisas e a viver com elas. Isto é a realidade na vida de um negro na Américo”, defende.

Casou e perdeu a mulher para o cancro - e por isso é voluntário num centro de investigação da doença. Vive no Utah. Treina uma equipa de atletismo, miúdos entre os nove e 14 anos. Quer acabar o curso de Justiça Criminal na Universidade de Colombia.

Até à sua reforma, e apesar de ter mudado de cidade, o certificado de que foi um “Klansman”esteve pendurado nas paredes dos gabinetes de Ron Stallworth, um daqueles “sacanas negros”. E cartão de membro está sempre dentro da carteira.

6 nomeações

Melhor filme
Melhor realizador
Melhor ator secundário
Melhor argumento adaptado
Melhor banda sonora
Melhor montagem