Cultura

Libo vive: uma carta de amor

24 fevereiro 2019 1:52

Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

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Jornalista

Alfonso Cuáron com Yalitza Aparicio, que interpreta Libo

netflix

Como se mede o amor por uma mãe que não é biologicamente mãe? Que nome se dá essa pessoa que cuida, que ama e que está sempre lá? Alfonso Cuáron não lhe deu um nome mas um filme, “Roma”, nomeado para 10 óscares

24 fevereiro 2019 1:52

Marta Gonçalves

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Jornalista

Libo chegou lá a casa quando o menino tinha nove meses. Vinha com a tarefa de cuidar das crianças e ajudar nas lides domésticas. Não foram muitas as vezes que saíra da sua vila em Oaxaca, agora estava a 400 quilómetros e seis horas de distância. Libo, que era Liboria Rodríguez e que dentro de pouco tempo também seria Libo Mama, tinha 17 anos e acabara de chegar a um dos locais mais privilegiados do México: Roma.

Um bairro para brancos e ricos. Um lugar para pessoas que representavam tudo o que Libo não era. Os que como ela se viam por ali eram os empregados das grandes casas, das famílias mais abastadas. Os Cuarón eram uma delas. Estávamos em 1961 quando Libo chegou à casa onde uns tempos antes nascera Alfredo e Alfonso. Cristina e Carlos viriam uns anos depois, quando em Roma a vida da ama-professora-empregada-cozinheira Libo já se tornara rotina.

“Era branco, classe média, um miúdo mexicano que vivia numa bolha. Não tinha qualquer tipo de consciência”, contava há umas semanas à revista “Variety” o Alfonso que então tinha nove meses e é hoje o realizador Alfonso Cuarón, 57 anos, numa grande entrevista a propósito do seu mais recente trabalho, “Roma”. A história do filme? A de Libo.

De herança indígena (mixteca), Libo nasceu na vila de Tepelmeme, filha de um ancião mesoamericano. E esta sua história foi fonte de histórias na hora de dormir para os meninos que cuidava. Quando os deitava na cama, contava-lhes sobre o seu pai e sobre os médicos lá da vila que tentavam curar pessoas.

Embora a patroa não trabalhasse era sempre Libo que cozinhava e dava o jantar às crianças. O patrão pouco estava em casa por causa do trabalho e um dia haveria de deixar de vez a família (o momento em que Alfonso Cuáron reconstruiu a separação dos pais foi dos mais dolorosos de gravar). Por esta altura, os meninos já chamavam “Libo Mama” a Libo - ainda hoje chamam, embora nenhum deles seja menino.

alfonso cuarón

Era ela quem os ajudava nos trabalhos de casa de espanhol ou estudava com eles os tempos do Império Azteca. Levava-os ao cinema, por vezes viam duas e três sessões seguidas na sala de cinema local. Talvez tenha sido isso que despertou a curiosidade de Alfonso, que ainda em miúdo fez dela uma das suas primeiras protagonistas de fotografias e filmagens. Aliás, anos mais tarde, Libo entrou em dois filmes do realizador mexicano: “Sólo con tu pareja” (1991), em que é uma mulher que está nas escadas a amarrar o cabelo de uma menina, e em “Y Tu Mamá También” (2001), em que representa uma empregada doméstica e até tem umas curtas falas.

O que vemos em “Roma” são momentos de dois anos de vida de Alfonso comprimidos na narrativa em 10 meses e no cinema em pouco mais de duas horas. “Este é um filme autobiográfico, no sentido em que 90% das cenas são das minhas memórias. Filmámos nos locais onde as coisas aconteceram”, contava Cuarón à “Variety”. As mobílias do filme são “70% da minha casa”. O realizador pediu ajuda a toda a família e recolheu tudo o que lhe emprestaram. Os atores são o mais parecidos com os verdadeiros protagonistas que Alfonso Cuáron encontrou.

A mulher que inspira a história com o realizador Alfonso Cuáron e a atriz que vive Cleo no filme, Yalitza Aparicio

A mulher que inspira a história com o realizador Alfonso Cuáron e a atriz que vive Cleo no filme, Yalitza Aparicio

getty images

“Tudo isto para seguir a história da personagem do filme, que se chama Cleo.” E é do seu ponto de vista que o filme nasce. “Esta é a mulher que me criou. E isto é estranho de dizer porque este é um mundo estranho: esta é a minha mãe de aluguer. Por vezes, têm mais presença nas nossas vidas do que a mãe biológica.”

“Roma” é uma carta de amor em que as letras são uma sucessão de imagens a preto e branco - porque as memórias não se pintam a cores, explica-nos Cuáron. Não à mãe que o que fez nascer, mas à que o cuidou.

Hoje, Libo tem 74 anos, vive na cidade do México e não trabalha para os Cuáron. Faz só parte da família deles.

10 nomeações

Melhor Filme
Melhor Realizador
Melhor Atriz
Melhor Atriz Secundária
Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Argumento Original
Melhor Fotografia
Melhor Direção Artística
Melhor Edição de Som
Melhor Mistura de Som