Cultura

A brutalidade dos homens frágeis

24 fevereiro 2019 1:48

Ele ostentou ao mundo como o número 2 de um presidente pode mandar tanto ou mais que o líder. Dick Cheney pensou a invasão no Iraque. E não está arrependido

24 fevereiro 2019 1:48

Ele está numa cadeira de rodas e com uma bengala na mão.

Tem excesso de peso e as costas dobradas, envelhecidas.

Os cabelos são brancos e a pele enrugada.

O coração falha-lhe várias vezes.

Dick Cheney é o retrato da fragilidade (aparentemente). Nesse dia tiraram-lhe o poder. Mas não é por isso que estava assim, caiu enquanto acartava algumas caixas para a casa nova. A pouca saúde de Cheney é informação mais do que conhecida por todos os que ali estavam presentes nesse dia histórico para os EUA - e também para o mundo: Barack Obama tomava posse e George W. Bush e Cheney saíam da Casa Branca como os menos populares da história da democracia norte-americana.

“É um homem que tinha - e continua ter - grandes problemas cardíacos e que parecia estar sempre meio adoentado. O contraste entre o aspeto físico e sua influência no processo de decisão na Casa Branca é brutal. Quem o visse, à primeira vista, julgaria que se tratava de alguém doente e marginal. Não o foi”, diz Miguel Monjardino, professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. Não foi mesmo. E “Vice” mostra-nos o poder que um número dois pode ter. A Cheney chamam-lhe “o mais poderoso de todos”.

Dick Cheney com Joe Biden e Barack Obama, em 2008, na tomada de posse do novo presidente

Dick Cheney com Joe Biden e Barack Obama, em 2008, na tomada de posse do novo presidente

charles ommanney/ getty images

Nos oitos anos de administração, Bush e Cheney enfrentaram os atentados de 11 de Setembro de 2001. Nunca a soberania de um país tinha sido atacada daquela forma, nunca um grupo terrorista tinha sequestrado três aviões e voado em direção ao World Trade Center e ao Pentágono (um o local de emprego de milhares de norte-americanos e símbolo da cidade de Nova Iorque, o outro a sede do Departamento da Defesa).

“Acho que as pessoas dizem que Cheney foi um vice-presidente único em termos de influência e de poder por causa do 11 de Setembro e da guerra do Iraque. A guerra muda tudo”, defende Monjardino. “Ao longo da história, qualquer grande potência que é atacada como os EUA tende a querer repor a sua credibilidade e, por isso, reage desproporcionalmente. Praticamente toda a elite política da altura olhou para o problema da mesma forma: o Afeganistão era um teatro secundário e, do ponto de vista geopolítico, o Iraque era decisivo para mostrar credibilidade e resolver o problema de Saddam Hussein. No entanto, a decisão foi de Bush e dos seus conselheiros.” Cheney é o grande estratega por trás das grandes decisões que tiveram o aval do presidente. É o arquiteto e a figura-chave no endurecimento da política externa norte-americana.

Todo o mundo ouviu George W. Bush comunicar que os EUA iam entrar na “guerra mundial contra o terrorismo” pouco depois do atentado. A expressão que havia de ficar para a história pelos acontecimentos que desencadeou foi dita por um homem mas a autoria foi atribuída a outro: Dick Cheney.

“Hoje temos a distância para perceber, mas talvez na altura não. Pensou-se que haveria ataques biológicos, químicos ou nucleares contra os EUA. Em parte, isso explica a enorme dureza da resposta norte-americana. Mas também explica, no caso do Iraque, que toda a elite política democrata no congresso apoiou a invasão”, diz ao Expresso Monjardino.

As reações dentro da Casa Branca ao 11 de Setembro são retratadas no filme

As reações dentro da Casa Branca ao 11 de Setembro são retratadas no filme

annapurna pictures

Outra das marcas de Cheney foi a forma como mandou conduzir os interrogatórios a suspeitos de terrorismo, que admitiu todas as formas possíveis de investigação. “Na questão dos direitos, liberdades e garantias, a administração Bush - como todas as administrações em tempo de guerra, e muita vezes esquecemos esta parte - tomou decisões claramente além da Constituição. Isso é inegável e a influência de Cheney é muito, muito forte. A sua posição foi sempre duríssima: tudo deve ser feito para garantir a segurança dos EUA. E tudo era mesmo tudo”, argumenta Monjardino. Também no tema das alterações climáticas, lembra Monjardino, impossibilitou um maior desenvolvimento de políticas para lidar com algo que começava a ser falado e motivo de alertas.

“Cheney sabia, pela sua longa experiência no Congresso e como altíssimo funcionário na Casa Branca, como o sistema político e burocrático funcionava e isso era uma enorme vantagem no processo de decisão. Tirou muito partido disso”, conta Monjardino. Cheney estagiou no Congresso durante a presidência de Richard Nixon, representou o Wyoming na Câmara dos Representantes e foi secretário da Defesa de George H. W. Bush (conhecido como “Bush pai”). Pelo meio, aquando de lideranças democráticas, passou por grandes empresas norte-americanas como CEO.

Na reeleição, tudo muda. Com uma administração mais moderada do que a primeira, “Bush começa a ter consciência clara de que cometeu um erro grave [com a guerra do Iraque] e mudou a sua posição. Cheney, no entanto, opôs-se sempre a essas mudanças e isso parece-me ser um sinal de uma divergência importante”, refere Monjardino. “Cheney é uma excelente personalidade para discutir os meios e os fins numa sociedade livre.”

Os atores Christian Bale e Sam Rockwell

Os atores Christian Bale e Sam Rockwell

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Numa visita às tropas no Afeganistão tentaram matar Cheney. 27 de fevereiro de 2007, 10h. Um bombista-suicida fez-se explodir no exterior da base militar de Bagram Airfield, no nordeste do país. Morreram 23 pessoas e 20 ficaram feridas. Nenhuma delas era Cheney - e não há dúvidas de que ele era o alvo. Os EUA garantem que o ataque foi planeado e supervisionado por Osama Bin Laden, líder da Al-Qaeda.

Um republicano a favor do casamento homossexual

Richard Bruce Cheney chegou à Casa Branca a convite de George W. Bush. Eram amigos e estavam alinhados sobre a distribuição de poderes. A relação entre ambos era “quase única”, diferente daquela que têm naturalmente um presidente e um vice. Em Cheney não havia qualquer pretensão de ser o líder dos EUA - o que não é muito comum e é preciso recuar até 1928 para encontrar uma eleição presidencial norte-americana em que nem o presidente nem o vice foram candidatos. E essa não competição favoreceu-os.

“Não quero ser mal interpretado, Donald Trump é deprimente e irritante e, essencialmente, pusemos um orangotango bêbedo na Casa Branca. Mas ele não está minimamente próximo de causar os danos que estes dois provocaram. Estes dois eram muito espertos e sabiam bem o que estavam a fazer”, defendeu Adam McKay, realizador de “Vice”, em declarações ao “Daily Beast”.

Cheney também escolheu os nomes da administração para ocupar alguns dos cargos mais importantes: o secretário do Tesouro, o procurador-geral de Estado, a diretora da agência para o ambiente, secretário da Defesa. Portanto, soube rodear-se de quem queria e precisava, tendo apenas de responder a um homem que era pouco experiente e que confiava em si.

Nesses tempos acordava às 04h30 para ler. Recebia antes de todos os documentos com o ponto de situação das várias missões e casos sob investigação dos serviços secretos. Mesmo antes de Bush. Aliás, era ele que identificava os assuntos que deveriam chegar ao conhecimento do presidente - segundo a versão cinematográfica da história, esta foi uma das condições impostas por Cheney para aceitar o cargo. Depois seguia para a reunião diária com Bush. E, contam vários funcionários da Casa Branca, independentemente do lugar do mundo ou do fuso horário em que se encontrasse, Cheney estava sempre nessas reuniões - muitas vezes por videoconferência. Sabia bem a importância de ter toda a informação em seu poder.

“Acho que se continua a pensar que Bush era um pouco tonto e que Cheney se aproveitou disso, que era o malandrão. Discordo: ele gostava de ser subestimado - às vezes, fazia por ser subestimado -, era uma pessoa de perfil baixo, cometia crimes terríveis contra a língua inglesa. Bush era quem decidia as coisas mais importantes, mas percebo que muita gente chegue a uma conclusão oposta, porque tem uma visão muito negativa de George W. Bush e o filme é uma maneira de tornar o Cheney mais maléfico do que foi”, sublinha Monjardino. “Dito isto, há a imagem de Dick Cheney como uma espécie de Darth Vader político.”

Amy Adams representa Lynn Cheney, a mulher do vice

Amy Adams representa Lynn Cheney, a mulher do vice

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Cheney nasceu no Nebraska (tem descendência britânica, galesa, irlandesa e de protestantes franceses). Curiosidade: partilha um antepassado com os ex-presidentes Harry S. Truman e Barack Obama. São primos muito, muito, muito distantes. Na juventude mudou-se com a família para o estado vizinho do Wyoming. Entrou na prestigiada universidade de Yale, mas a forma como saiu depende de quem conta a história: uns argumentam que teve dificuldades de adaptação e desistiu, outros que foi expulso pelo seu comportamento. Em jovem chegou a ser detido duas vezes por conduzir com excesso de álcool - e é precisamente neste ponto da sua vida que arranca “Vice”.

Acabaria por se endireitar, muito por força da sua mulher Lynn (conheceram-se ainda miúdos, aos 14 anos), e concluir os estudos na universidade de Wyoming, onde ficou apenas por concluir o doutoramento. Escapou-se a todos os recrutamentos militares. Teve duas filhas: Elizabeth (hoje congressista Liz Cheney) e Mary (que é homossexual, o que levou Cheney a apoiar várias vezes em público o casamento entre pessoas do mesmo sexo)

Por 20 anos fumou qualquer coisa como três maços de cigarros por dia. Teve o primeiro ataque cardíaco aos 37. Haveria de ter mais cinco: tinha um problema no ventrículo esquerdo. Fez um transplante de coração quando já estava quase condenado à morte - tinha 71 anos e os médicos avisaram-no do risco de dar um coração novo a alguém que, pela ordem natural da vida, já não teria muito mais tempo. “Essa operação foi quase uma experiência místico-religiosa para ele”, diz Monjardino. “Houve alguém que lhe perguntou se com o novo coração tinha passado a democrata. Ao que respondeu: ‘não cheguei a tanto’.”

Ao contrário de Bush, que praticamente se retirou da cena política, Cheney continua com alguma atividade, ainda que de forma indireta, sugerindo nomes para o congresso, senado e Partido Republicano. Também ao contrário de Bush - que já se autocriticou algumas vezes -, Cheney parece estar tranquilo com o que foi e com o que representa. As ideias de então são ainda as suas convicções. Diz, sem pudor, que não se arrepende da guerra no Iraque:

“Acredito no que fiz. Olho para trás e sei que foi a coisa absolutamente certa a fazer.”

8 Nomeações

Melhor filme
Melhor realizador
Melhor ator
Melhor ator secundário
Melhor atriz secundária
Melhor argumento original
Melhor montagem
Melhor caracterização