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José Duarte (1938-2023): “Fiz o jazz entrar em casa das pessoas”

José Duarte (1938-2023): “Fiz o jazz entrar em casa das pessoas”
António Pedro Ferreira

Era a música odiada, mal vista. E amada por um grupo restrito de jovens aprendizes que a ergueram como bandeira. Um deles, José Duarte, aceitou dar-lhe existência cinco minutos por dia e “Cinco Minutos de Jazz” tornou-se o programa de rádio mais antigo de sempre. O divulgador do género morreu esta quinta-feira, aos 84 anos, e por isso recuperamos esta grande entrevista, originalmente publicada em fevereiro de 2016

Era uma vez um rapaz de Lisboa, a quem os pais levaram a uma aula de piano e o professor, cujo nome ficou esquecido, lhe elogiou o ouvido em detrimento de umas “mãos sapudas” impróprias para o instrumento. Era uma vez esse mesmo rapaz a acordar para a música mais mal vista da cidade e do país, num tempo em que a guerra reinava e arrancava os jovens ao calor das suas casas. Esse rapaz, nesse tempo, arriscou um pequeno movimento. Um gesto que, fazendo justiça à teoria do caos, desencadeou um cataclismo. Claro que isso não aconteceu logo: tiveram de passar 50 anos. O suficiente para José Duarte deixar de ser um rapaz — será? —, de o país se transformar ao ponto de estar irreconhecível e de esse gesto ter hoje, por assim dizer, a idade de uma pessoa.

Pode um programa de rádio entrar na meia idade? “Cinco Minutos de Jazz” pode, ou não fosse o mais antigo da rádio portuguesa, criado a 21 de fevereiro de 1966, meio século atrás. E se ao longo dos anos mudou algumas vezes de morada — esteve na Rádio Renascença até 1975, depois na Comercial entre 1984 e 1993, e finalmente na Antena 1 até hoje, com breve passagem pela Antena 2 — a sua duração manteve-se inalterável, aqueles cinco minutos que José Duarte acatou e encheu de tudo quanto o jazz lhe dava a ouvir.

Em 50 anos, fazendo sobretudo isso, fez outras coisas. Teve outros programas (lembram-se de “Pão com Manteiga”, no qual participou, ou “A Menina Dança?”, na Comercial?), escreveu na imprensa, trouxe músicos e música (Steve Lacy, Frank Wright), escreveu livros; foi responsável pela primeira cadeira de jazz numa Universidade do país, neste caso a de Aveiro, à qual doou o seu espólio; fez entrar o jazz, esse maldito, na Antena 2, onde teve durante quatro anos uma hora inteirinha intitulada “Jazz com Brancas”; homenageou (pasme-se) Luís Villas-Boas, amigo e rival, and so on.

Hoje, o rapaz tem 77 anos. Oscila entre a euforia e a tristeza. Continua de concerto em concerto, a fazer conferências, a falar sobre jazz, a sua “razão de viver”. Dono de um feitio assumidamente difícil, diz ter menos amigos do que inimigos. E tem duas filhas que já voaram mas estão por toda a casa, capturadas em fotografias que concorrem com a vista deslumbrante para o Tejo, uma paisagem que é “todos os dias diferente” como a música que se dedicou a divulgar. Foi este o cenário de uma conversa que decorreu sem filtros e trouxe à tona velhas querelas, muitas memórias e alguma desilusão.

O que seria a sua vida sem o jazz?
Seria muito triste, porque não conheceria a arte mais bela que nasceu no século XX. Há quem diga que o José Duarte só gosta de jazz, o que antigamente me irritava, mas agora estou de acordo. É uma música inesgotável e mesmo em disco — que capta apenas um momento — nunca se deve fazer só uma audição. Descobrem-se sempre coisas diferentes, inesperadas.

A sua resposta leva-me a repetir: o que seria a sua vida sem o jazz?
O jazz é a minha razão de viver. Dá-me alegrias permanentes e a possibilidade de falar com as outras pessoas em paz. Daqui a horas, no Barreiro, vou fazer uma conferência ao lado do homem [Raul Calado] em cuja casa eu estava quando um radialista conhecido me convidou, em 1966, para fazer os “Cinco Minutos de Jazz” na Renascença. Eu fui aprendendo à medida que passava os discos, veja o descaramento. Não tive mestre nenhum, embora treinasse com os amadores que sabiam mais do que eu. E hoje sou o José Duarte.

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