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101 canções que marcaram Portugal #96: ‘Borrow’, pelos Silence 4 (1998)

22 janeiro 2023 13:06

Jorge Cerejeira

Silence 4 em 1998, na sala do Orfeão de Leira: Tozé Pedrosa, Sofia Lisboa, Rui Costa e David Fonseca

facebook silence 4

Os Silence 4 trilharam uma carreira com método e convicção, e inverteram as probabilidades: as suas canções semi-acústicas, quase todas cantadas em inglês, fizeram “Silence Becomes It” vender 240 mil cópias. O single ‘Borrow’ é uma canção simples, com um arranjo simples, mas intensa, carismática e orelhuda. É a 96ª de 101 que marcaram Portugal

22 janeiro 2023 13:06

Jorge Cerejeira

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

‘Borrow’, Silence 4 (1998)

A 18 de novembro de 1993, os Nirvana entraram nos estúdios da Sony Music, em Nova Iorque, para gravarem o seu MTV Unplugged. Kurt Cobain exigiu, como cenário, uma desmesurada quantidade de lírios e velas. O produtor desabafou que o cenário, assim, mais pareceria um funeral. Kurt Cobain concordou que era esse precisamente o ambiente que pretendia – naquele que viria a ser um dos seus últimos concertos, cinco meses antes de se suicidar. O sorumbático Kurt Cobain era já o modelo de uma geração – pelas canções vigorosas, pelo lirismo das letras, pela pose, pela sua obscura ambiência interior. O seu outfit (calças de ganga, t-shirt, camisa de flanela aos quadrados – todas três números acima – e os ténis Converse) foi adotado por jovens que se identificavam com aquela figura magnética.

David Fonseca não era exceção. Tinha 20 anos quando Kurt Cobain morreu e passara a sua adolescência imbuído da mesma estética musical que influenciara os Nirvana, nomeadamente os Pixies, de Black Francis. Os concertos unplugged da MTV acicataram o interesse por uma estética musical acústica e por desnudar originais eletrónicos ou elétricos – açucarando-os. David Fonseca vestia-se como Kurt Cobain, tinha magnetismo de sobra e uma sensibilidade (e obstinação) para perceber o caminho que queria trilhar. Todavia, era improvável que os ‘seus’ Silence 4 viessem a obter o sucesso épico que alcançaram: eram de um meio longe da capital (Leiria), cantavam em inglês e o género não era aquele que abundava nas rádios. Todavia, a glória faz-se também (e muito, na maioria dos casos) de acasos.

Começaram por ser uma banda de culto na sua cidade. Fizeram circular duzentas cassetes amarelas com as suas maquetes gravadas numa das salas do Paço Real, no Castelo de Leiria. Nessa cassete, estavam já incluídas três canções mais tarde incluídas no seu álbum de estreia: ‘Borrow’, ‘Goodbye Tomorrow’ e ‘Breeders’. Tinham já uma legião de seguidores – que teriam preferido que os Silence 4 se tivessem mantido na sua esfera íntima; todavia, os Silence 4 – para além da perseverança, do destino e da fortuna – tinham outros planos. E esses planos começaram a ser palmilhados com uma canção de 1988, dos Erasure. Participaram na edição de 1996 do Festival Termómetro, iniciado dois anos antes – promovido por Fernando Alvim –, inspirado nos concertos Unplugged da MTV (de volta às coincidências com os Nirvana). Os participantes tinham de interpretar quatro temas – três originais e uma versão – todos eles acústicos. A vitória dos Silence 4 nessa edição ficou a dever-se em grande parte à sua variação alternativa de ‘A Little Respect’, criada para esse festival.

Foi essa a canção que infletiu o seu rumo. Tinham de aproveitar a corrente e fizeram-no. No ano seguinte, atuaram na Gala dos Prémios BLITZ: cantaram ‘One of Us’, dos ABBA, o original ‘Borrow’ e a inevitável ‘A Little Respect’. A história parecia estar escrita, ainda que de facto não estivesse. ‘A Little Respect’ era só o prefácio para o estrondo comercial que aí vinha. Antes disso, a sua versão dos Erasure foi single da coletânea “Sons de Todas as Cores”, que António Sérgio passava insistentemente na sua ‘A Hora do Lobo’, na Comercial. Os Silence 4 passaram a povoar as rádios, os nossos ouvidos, a nossa empatia. Certo dia, David Fonseca, às duas da manhã, conduzindo pelas ruas de Leiria, ouviu pela primeira vez a sua voz na rádio, que tocava ‘A Little Respect’. Parou o carro, abriu as portas, subiu o volume e desfrutou do seu primeiro momento de reconhecimento popular. Tinha aguardado por aquele instante muito tempo.

Portugal acordara para o fenómeno Silence 4, que já não só o fenómeno ‘A Little Respect’ versão Silence 4. Acordara para o seu álbum em nome próprio “Silence Becomes It”. Acordara para a voz potente e aveludada de David Fonseca, na qual até o ‘Malhão’ soaria a sofisticação. Tinha boa pinta, para ajudar; era uma estampa, enfim. Magnético. O sucesso explica-se por uma sucessão de acasos, mas também de fatores objetivos; um desses fatores objetivos é a elegante produção de Mário Barreiros – que imprimiu ao primeiro álbum da banda de Leiria uma ambiência semi-acústica, com tanto de introspetivo como de extravagante. Os Silence 4 eram bem mais do que a canção orgânica que lhes dera destaque; eram uma construção, uma maturação – bem mais do que um acaso.

O single ‘Borrow’ é uma canção simples, com um arranjo simples – mas intensa, carismática e orelhuda. Fez o álbum “Silence Becomes It” vender assombrosas 240 mil cópias. 240 mil! Seis discos de platina. Um dos álbuns mais vendidos de sempre em Portugal. A provar que eram a exceção a uma regra que afinal era possível inverter. Tinham ouvido muitas recusas pela língua estrangeira com que insistiam em cantar – mas a sua convicção era irredutível e (desta vez) funcionou. Numa época marcada por Delfins, Paulo Gonzo, Netinho ou Daniela Mercury, o seu sucesso foi ‘viral’, ainda que o termo não fosse ainda associado ao êxito. Numa época pré-internet. Porventura muito improvável de acontecer no presente, nesta era de redes sociais e plataformas de streaming.

Depois do sucesso épico de “Silence Becomes It”, depois de centenas de concertos, de veneração e de aclamação, o caminho seria inevitavelmente descendente em Portugal. E excluindo casos excecionais de bandas ou cantores portugueses que conseguiram penetrar fora de Portugal (todos cantando em português e impondo-se sobretudo por essa portugalidade), os Silence 4 sabiam que seria difícil inverter essa evidência. “Only Pain Is Real” seguiu-se a “Silence Becomes It” e conseguiu ainda vender (umas surpreendentes) 100 mil cópias. Os Silence 4 retiraram-se no ano seguinte. Ficaram na história da música portuguesa pela pujança da sua música, pela simplicidade das suas letras, pelo carisma de David Fonseca, pela voz doce de Sofia Lisboa e pela elegância dos acordes de Rui Costa e Tozé Pedrosa. Os Silence 4 representam o final dos anos 90. Pela improbabilidade do seu êxito e pela intemporalidade das suas canções, são o símbolo de um tempo em que era possível haver sucessos assim: tão marcantes quanto transversais.

Put me in your supermarket list
I'm here, I'm real, it's true, I do exist
Today you may feel a little sleepy
Maybe the morning is too soon

Ouvir também: ‘Sextos Sentidos’ (1998). Uma das duas únicas canções deste álbum cantada em português. Com Sérgio Godinho a açucará-la.