Blitz

Kraftwerk no MEO Kalorama: lendas vivas ou a melhor reforma de sempre?

Com mais de 50 anos de história, os germânicos Kraftwerk andam há uma dúzia de anos a dar o mesmo concerto, uma instalação viva de ‘homens-máquinas’ que percorre uma discografia estagnada desde o início dos anos 80, mas serve para matar saudades de monumentos da eletrónica pueril como ‘Autobahn’, ‘Radioactivity’ e ‘The Model’. Na noite de estreia do festival MEO Kalorama até ‘calaram’ outro palco…

Se há banda que, sem vergonha, poderia ser composta por avatares ou hologramas sem que o despeito se sobrepusesse ao respeito, essa banda chama-se Kraftwerk. Fizeram por isso.

Desde sempre apologistas do binómio homem-máquina, os germânicos firmaram-se como instituição do electro e da synth-pop antes de se cunharem os termos ‘electro' e ‘synth-pop’, desbravando caminho virgem durante a década de 70 e início de 80, encontrando a humanidade que as máquinas conseguem - descobriríamos com eles, precisamente - emular.

Com cada um dos músicos a ocupar o seu ‘cavalete’, nunca se sabe se os Kraftwerk - apenas Ralf Hütter restando da formação clássica - estarão a desenvolver qualquer esforço musical em tempo real ou a jogar Tetris. O playback há de ser praticamente total, reproduzindo um guião que já conhecemos de outros concertos 3D (sim, também aqui houve óculos distribuídos aos presentes), inclusive aqueles que os Kraftwerk deram em solo nacional nos últimos anos.

Não há como não nos fixarmos sobretudo no lado visual. Com ‘Space Lab’ mostram-se imagens espaciais e, algo forçadas, um par de fotos de Lisboa. Com ‘Man Machine’, as cores são naturalmente preto e vermelho, a lembrar as gravatas e camisas do álbum de 1978. O azul do sinal de trânsito da capa de “Autobahn” é predominante em, lá está, ‘Autobahn’. Só com ‘Das Model’, apropriadamente precedida por um ‘ein, zwei, drei’ quase roqueiro, há aplausos dignos de um concerto (por oposição a um recital), prova de que a canção é, ainda hoje, o ‘hit single’ da banda. A mesma sensação trespassa-se para ‘Radioaktivität’, três anos mais velha, ocasião em que os ecrãs evocam o perigo nuclear - aqui na versão ‘Fukushima’, sem políticas do presente.

Com o início da sequência ‘Tour de France’ sentimos, finalmente, os baixos a vibrar nas pernas. Pouco depois ficamos a saber que, a alguns metros dali, os 2manydjs haviam terminado precocemente o seu espetáculo devido a - segundo a promotora do festival - “conflitos de som” entre o palco principal e este onde nos encontramos.

Interpelando o escriba um par de vezes, Yana, falando inglês perfeito mas sem querer revelar de onde vem ("lisboeta", diz-nos na única vez que fala português), comenta que os Kraftwerk têm “a melhor reforma de sempre”, tal a fluidez e aparente facilidade do processo. Pergunta se é possível gostar de um concerto assim. A resposta é “sim”, se o ‘mind set’ for devidamente sintonizado para o modo “temos lendas vivas à nossa frente” (ou pelo menos uma, Ralf Hütter). Desempoeiradamente, resume tudo assim: “Isto é como ir a casa da avó. Temos respeito. Não vamos querer fazer nada de errado. Mas depois vamos fazer alguma coisa mais interessante”. Fair enough.

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: lguerra@blitz.impresa.pt

Comentários

Assine e junte-se ao novo fórum de comentários

Conheça a opinião de outros assinantes do Expresso e as respostas dos nossos jornalistas. Exclusivo para assinantes

Já é Assinante?
Comprou o Expresso?Insira o código presente na Revista E para se juntar ao debate
+ Vistas