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Já não há freaks como ele. Gary Numan no EDP Vilar de Mouros: quando os androides (ainda) sonham com rock elétrico

26 agosto 2022 12:46

Paulo André Cecílio (texto), Rui Duarte Silva (fotos)

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Gary Numan no EDP Vilar de Mouros
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Gary Numan no EDP Vilar de Mouros

rui duarte silva

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Gary Numan no EDP Vilar de Mouros

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Foi o primeiro concerto de Gary Numan em Portugal desde 2010, e as expetativas eram altas, mas o som não ajudou. Ainda assim, ficou na retina a imagem de um homem que de ídolo pop passou a pioneiro do rock industrial, o mesmo género que procurou que se fizesse ouvir em Vilar de Mouros.

26 agosto 2022 12:46

Paulo André Cecílio (texto), Rui Duarte Silva (fotos)

No princípio era: Bowie. O Bowie alemão, o Bowie de "Low", que descobriu os sintetizadores e os ritmos maquinais dos Kraftwerk e se dispôs a fazer uma música tão fria quanto a pele de um androide, ser que não sangra. Gary Numan era tão Bowie que houve quem nele visse, no final dos anos 70 e inícios dos anos 80, um mero pastiche, uma cópia mal amanhada do camaleónico alienígena. O seu estatuto como ídolo de centenas de rapariguinhas adolescentes, à altura (culpa, claro, de um certo rockismo por parte da imprensa) não o ajudou.

Apesar disso, o seu segundo disco com os Tubeway Army (o excelente "Replicas", 1979) e o seu primeiro disco em nome próprio ("The Pleasure Principle", mesmo ano) agem hoje como um potente testemunho daquilo que o período pós-punk foi, e poderia ter continuado a ser, se houvesse no mundo mais transumanos que imitadores dos Joy Division: pop eletrónica, sim, mas a dose certa de rock sombrio, por vezes até com tiques de metal, no sentido estreito, metafórico, e musical da coisa.

Nesta sua vinda a Vilar de Mouros, para o seu primeiro concerto em Portugal desde 2010, Gary Numan trouxe 'Metal', composição estrondosa que arrepiou caminho para nomes como os Nine Inch Nails, uma cara pintada como a de um indígena e uma indumentária meio aggrotech, tudo aliado ao peso industrial. Simon Reynolds descreveu-o bem, em "Rip It Up And Start Again", quando apontou que as canções de Numan, apesar de todos os seus atributos eletrónicos, continuavam a rockar: havia, e há, ali algo de futurista mas, da mesma forma, uma raiva e uma propensão para a distopia que só os humanos conseguem ter.

Percorrendo o palco, microfone e tripé na mão, Gary Numan foi conquistando os presentes conforme o som o deixou. As guitarras ainda se iam escutando a espaços, mas a sua voz soou sempre demasiado escondida, sem que o público - que mesmo assim não deixou de dançar, mesmo já não havendo teenyboppers - tivesse acesso à energia total que a sua música prometia. Ficaram as poses de Cristo, o choque de 'Cars', o lamento gótico de 'My Name Is Ruin' e, no final, 'Are "Friends" Electric?', tema que não só foi gigante em 1979 como em 2002, quando as Sugababes lhe roubaram o instrumental para 'Freak Like Me'. Foi bom, mas as colunas podiam ter ajudado mais.