Sociedade

"As cidades têm de ser como as esponjas e o que aconteceu no Porto mostra bem isso", diz geógrafo Rio Fernandes

Um rio, um possível muro de betão e o novo conceito da “cidade esponja” que está a tornar-se popular e pode mesmo ser uma resposta para os fenómenos climáticos extremos

8 janeiro 2023 17:11

Já ouviu falar do novo conceito de “cidade esponja”? Lá fora, na Europa, mas também nos EUA e no Canadá, está a ganhar adeptos, e o geógrafo Rio Fernandes acredita que o que aconteceu no sábado, no Porto, ajuda a perceber porquê.

Na prática, “as cidades têm de ser como esponjas”, diz o especialista e professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, consciente de que o caudal de água que varreu a baixa do Porto depois de chuva intensa e concentrada no tempo, mostra a importância de ter solos permeáveis, capazes de absorver esta água.

E para ser esponja, uma cidade tem de ser mais verde, precisa de parques e jardins, quando na verdade, o que aconteceu na envolvente da Avenida dos Aliados, Estação de São Bento, Ruas de Mouzinho da Silveira e Flores, foi um reforço do betão, concretiza.

O trunfo verde

Nas situações extremas, cada vez mais frequentes devido às alterações climáticas, é preciso conseguir escoar cada vez mais água da chuva e, simultaneamente, enfrentar temperaturas mais quentes. “As manchas verdes são um trunfo nos dois casos porque ajudam a amenizar a temperatura e, também ajudam a absorver a água”, nota sem esquecer que a baixa do Porto caminhou em sentido inverso, com o reforço do betão em zonas que eram verdes no passado recente.

E, no século XIX, até à construção da Rua Mouzinho da Silveira, o rio de Vila corria por ali a céu aberto, tal como corria no século anterior pela Rua de São João, mesmo antes de desaguar no Douro.

Entubado, coberto pela nova artéria que começou a ser construída em 1872, o rio que na verdade também se foi tornando um esgoto, viveu no mundo subterrâneo sem sobressaltos até sábado.

O que mudou?

O que terá mudado? Rio Fernandes acredita que a torrente de água que varreu a baixa portuense e, de forma especial, a zona envolvente da estação de São Bento e aquela artéria resulta da combinação de vários fatores.

Por um lado, houve um “momento anormal de precipitação intensa e muito concentrada no tempo”. Por outro lado, é preciso considera o problema estrutural da impermeabilização crescente dos solos, substituindo o verde pelo betão, como aconteceu “nas alterações recentes nos Aliados e nas Cardosas, ao fundo dos Clérigos e da Praça da Liberdade, no que é a bacia hidrográfica do rio de Vila”.

Mas outro fator que terá pesado no que aconteceu foram as obras do Metro, sustenta. “Temos um estaleiro enorme que se multiplica por vários sítios, pedra e gravilha fáceis de arrastar pela água, e possivelmente trabalhos que não consideraram a hipótese deste tipo de fenómenos extremos”, assume.

“Certo é que algo falhou, até porque o que aconteceu no sábado, na baixa do Porto, foi algo de completamente inédito”, afirma antes de recordar que "no âmbito das obras do Metro está a ser feita uma mudança no caudal do rio, para o lado da rua das Flores, de forma a permitir a construção da estação da nova linha que liga a Casa da Música a São Bento, na Praça da Liberdade, como o arquiteto Siza Vieira idealizou”.

A lei da gravidade

Certezas sobre as causas da ocorrência e a forma de evitar novos problemas no futuro exigem, agora, análise, estudos, contactos entre todas as partes envolvidas, mas Rio Fernandes diz estar convencido de que as obras do Metro, em especial o desvio do curso do rio, “poderão ter criado obstrução ao normal fluxo da água que desce das zonas mais altas até ao rio, seguindo a lei da gravidade”.

Aliás, Rio Fernandes diz ter conhecimento de que nos contactos entre a Câmara e a Metro do Porto “terá sido referida a existência de obstáculos, designadamente a colocação de um muro de betão no âmbito dos trabalhos para alterar o curso do rio”. O Expresso contacto a Metro do Porto sobre esta questão e a possível destruição deste muro, mas não obteve resposta até ao momento.

A única informação oficial do lado da empresa é a de que será divulgado um comunicado ainda este domingo, a explicar o que a administração pensa que se passou e a reiterar disponibilidade para estudar e colaborar com todos para ver se algo terá corrido mal na obra e o que pode ser feito para melhorar o quadro atual.