Sociedade

À geração mais qualificada faltam “oportunidades” e “qualidade” de emprego (quatro respostas sobre o desemprego e inatividade jovens)

Historicamente, o desemprego é sempre superior entre os menores de 25 anos do que nas restantes faixas etárias e do que no total nacional

witthaya prasongsin

Portugal conseguiu “avanços notáveis” nos níveis de escolaridade dos jovens, mas a nova geração enfrenta “sérias dificuldades” na entrada do mercado de trabalho e uma particular vulnerabilidade a momentos de crise. Na segunda parte desta série de artigos, olhamos para os números do desemprego e inatividade entre os jovens. Sabia que mais de 70% dos empregos perdidos entre 2019 e 2020 eram ocupados por jovens?

20 dezembro 2022 21:08

Cátia Barros

Jornalista infográfica

Com a diminuição do abandono escolar e a massificação do ensino secundário e superior, Portugal produziu nas últimas décadas a geração mais qualificada de sempre.

Alguns deram já entrada no mercado de trabalho, outros estão ainda a terminar os seus estudos. Mas há algo que contrasta com os promissores avanços alcançados na educação.

“Os jovens enfrentam dificuldades na transição para o mercado de trabalho, quer em termos de oportunidades de emprego, quer de qualidade do emprego”, vaticina o recém-publicado ‘Livro Branco “Mais e Melhores Empregos para os Jovens”’.

“A coexistência da sobre-qualificação, do desemprego e de défice de mão-de-obra é, de facto, o paradoxo da economia portuguesa, que importa reduzir”, defendem o Observatório do Emprego Jovem, Fundação José Neves e o escritório de Lisboa da Organização Internacional do Trabalho (autores deste documento). “É preciso evitar a todo o custo a possibilidade de uma geração perdida.”

Isto quando os dados existentes indicam que esta faixa etária não só é particularmente vulnerável às crises em geral, como foi desproporcionalmente afetada pelo impacto económico da pandemia.

Mas vamos aos números.

1

Somos mais afetados pelo desemprego do que a população em geral?

Sim. Os dados compilados pelo Pordata mostram que, historicamente, o desemprego é sempre superior entre os menores de 25 anos face às restantes faixas etárias e ao total nacional.

Começamos pelos dados mais positivos: depois de valores recorde registados durante a crise económica do início da década de 2010 (mais de 38% em 2012 e 2013), o país entrou num contexto económico mais favorável. Isto traduziu-se também na queda acentuada da taxa de desemprego entre 2015 e 2019, tendência que se verificou tanto no geral como entre os jovens.

Mas o ano de 2020 veio inverter isto: a crise pandémica fez o desemprego disparar, de 6,9% no primeiro trimestre do ano para 8,1% no terceiro trimestre.

Entre os jovens, a situação degradou-se mais rapidamente. No mesmo período, a taxa de desemprego jovem passou de 19,7% para 26,4% (no grupo etário 15-24 anos) e de 9,5% para 13,1% (entre os 25 e 34 anos).

Simultaneamente, Portugal tem ficado sempre acima da média Europeia do desemprego jovem (15-24). No quarto trimestre de 2021, a taxa portuguesa para esta faixa etária era 3,6 vezes superior ao total (nove pontos percentuais de diferença). “Não se verificou a mesma evolução na média da União Europeia, onde o mesmo rácio se manteve estável (subiu de 2,2 vezes para 2,4 vezes)”.

Na faixa etária 25-29 anos há mais variações, com Portugal a registar vários trimestres com a taxa inferior à UE entre 2017 e 2019. Contudo, no final do ano passado, Portugal tinha claramente um desemprego acima da média também nestas idades (10,8% face a 9,1% na UE).

Isto quando o desemprego total nacional não varia mais do que um ponto percentual face à UE desde 2017 e 2021 terminou com o desemprego português a igualar o médio europeu (6,5%).

2

Como é que a pandemia mudou as coisas?

“Há duas razões principais que explicam esta evolução negativa”, explica o Livro Branco.

A primeira prende-se com a qualidade do emprego jovem nacional, nomeadamente na incidência de precariedade nestas idades e em setores particularmente afetados pelas restrições de combate à pandemia, como a restauração e hotelaria. (Este tema estará em foco no próximo texto desta série.)

A pandemia teve um impacto desproporcional no emprego jovem. Muitos (mais do que a média europeia) transitaram para uma situação de inatividade em vez de para o desemprego

A pandemia teve um impacto desproporcional no emprego jovem. Muitos (mais do que a média europeia) transitaram para uma situação de inatividade em vez de para o desemprego

miguel sotomayor

A segunda com as próprias medidas de política pública utilizadas para contrariar os efeitos negativos da pandemia. Medidas como lay-off simplificado “incentivaram as empresas a não despedir trabalhadores, mas não asseguraram que estas renovavam os contratos temporários”, abundantes nesta faixa etária. Isto fez com que “as empresas que receberam apoios do Estado e quiseram reduzir o número de trabalhadores, o tivessem feito através da não renovação dos vínculos temporários”.

O ingresso no mercado de trabalho foi ainda mais dificultado pela retração da economia e pela disrupção das atividades letivas, muitas vezes suspensas devido aos riscos de infeção.

A “conjugação destes dois fatores” resultou numa “aceleração muito rápida do desemprego jovem”. Acrescenta o Livro Branco: “A crise provocada pela pandemia evidenciou os problemas estruturais que já existiam no mercado de trabalho para os jovens em Portugal, e demonstrou como este grupo se torna vulnerável em tempos de crise. É sobretudo sobre os trabalhadores mais jovens que recaem os custos dos ajustamentos das empresas a choques externos, como quebras abruptas na procura ou disrupções nas cadeias de abastecimento. Como resultado, mais de 70% dos empregos perdidos entre 2019 e 2020 eram ocupados por jovens.”

3

Ter mais estudos facilita a procura de trabalho?

Não necessariamente. Neste caso há “diferenças significativas” entre faixas etárias dos 15-24 anos e dos 25-29.

“Para os primeiros, a taxa de desemprego entre os mais qualificados aumentou muito desde o início de 2019, evidenciando a existência de dificuldades crescentes na transição do ensino superior para o mercado de trabalho. Este problema acentuou-se com o eclodir da crise provocada pela pandemia. No quarto trimestre de 2021, o desemprego entre os mais qualificados era praticamente o mesmo do que o desemprego entre os menos qualificados (27,3% e 28%, respetivamente)”, afirma o Livro Branco.

“Por outro lado, para os jovens entre os 25 e os 29 anos, a taxa de desemprego aumentou muito entre os menos qualificados. Nesse grupo etário, os mais qualificados revelam menos dificuldades em obter um emprego.”

Em paralelo, e apesar das oscilações, o desemprego entre as mulheres é “consistentemente mais elevado” do que entre os homens.

4

Há cada vez mais jovens “nem-nem”?

Nos últimos anos, tem havido “muita preocupação” com o fenómeno dos jovens NEEF (sigla inglesa que se refere àqueles que não estão nem a trabalhar nem a frequentar qualquer tipo de educação ou formação).

A nível nacional, a percentagem destes jovens “nem-nem” tem-se mantido abaixo da média europeia. Facto que o Livro Branco atribui ao “sucesso do país ao nível da redução do abandono escolar precoce”.

Isto não mudou com a pandemia. Em 2021, 9% dos jovens portugueses estavam inativos, comparativamente com 12,5% na UE. Contudo, o número de jovens NEEF em Portugal aumentou com os confinamentos, sobretudo entre os jovens mais qualificados.

“O facto de grande parte destes jovens que perderam o emprego ter transitado para a inatividade constitui um fator de preocupação adicional. Portugal destaca-se no plano europeu como um dos países com maior quebra de emprego entre os jovens e um dos países em que os jovens transitaram em maior proporção para a inatividade do que para o desemprego, o que significa um maior afastamento dos jovens portugueses do mercado de trabalho, dificultando a sua reintegração.”

Estas situações “nem-nem”, alerta o Livro Branco, podem “potencialmente contribuir para níveis elevados de desemprego de longa duração e de uma proporção significativa de inatividade entre os jovens. Níveis elevados deste indicador podem também contribuir para o crescimento da exclusão social.

Este texto faz parte de um conjunto de conteúdos que o Expresso publica para falar diretamente com os leitores mais jovens e sobre aquilo que os afeta mais de perto. Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail.