Sociedade

COP27. Cientistas rebelam-se contra “a escandalosa poluição emitida pelos utilizadores ricos de jactos privados”

10 novembro 2022 19:23

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

teresa santos

Um voo de um jacto privado entre Lisboa e Nova Iorque emite mais CO2 do que um ano de consumo energético para aquecimento numa casa europeia, alertam os ativistas da Scientist Rebellion e da Extinction Rebellion. Centenas de cientistas e cidadãos realizaram esta quinta-feira ações não violentas de resistência civil contra a aviação privada em aeroportos de 13 países, incluindo o de Tires, em Portugal

10 novembro 2022 19:23

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Meia dúzia de cientistas ativistas da Scientist Rebellion e da Extinction Rebellion juntaram a sua ação não violenta de resistência civil contra a aviação privada à de outros movimentos idênticos que ocuparam o acesso a aeroportos em 13 países europeus. Juntaram-se no aeroporto de Tires, em Cascais, esta quinta-feira à tarde e ali ergueram uma faixa a pedir o que os jatos privados sejam banidos. O mesmo aconteceu em aeroportos no Reino Unido, Itália, França e Alemanha, entre outros países.

A ação de protesto integra uma campanha que, além de banir jatos privados, pretende taxar passageiros frequentes de aviões e fazer com que os poluidores aéreos paguem pelas emissões que produzem. O objetivo é chamar a atenção para a enorme pegada ambiental deixada por estes meios de transporte.

Os dados recolhidos indicam que uma viagem em jato privado é 10 vezes mais intensiva em termos energéticos que num avião comercial e 50 vezes mais intensiva que num comboio. “Um voo de quatro horas num jato privado produz tantas emissões de Gases com Efeito de Estufa (GEE) como as produzidas por uma pessoa em média a nível mundial num ano inteiro”, dizem com base em dados científicos.

O número de jatos privados que aterrou na última semana em Sharm el-Sheikh indignou muitos ativistas que apontaram o dedo à “hipocrisia” de alguns dos que se deslocaram para a conferência do Clima (COP27) por este meio, ao mesmo tempo que dizem estar a lutar contra a crise climática. Só entre 4 e 6 de novembro (dia em que começou a COP27) o FlightRadar24 (um sistema que disponibiliza a visualização cartográfica de aviões do mundo todo, em tempo real), identificou pelo menos 36 aviões privados a aterrarem na estância turística egípcia onde decorre a conferência.

“Os estilos de vida dos multimilionários e bilionários utilizadores de jatos privados estão a causar o caos climático e a condenar outros cidadãos à pobreza através de um custo de vida insustentável”, frisam os ativistas da Scientist Rebellion e da Extinction Rebellion. Em comunicado conjunto salientam que a utilização destes aviões não é tributada na proporção que devia. Por isso, querem que “aqueles que realizam voos de longo curso, e com maior frequência do que a maioria da população, passem a pagar um imposto crescente aplicado à frequência com que usam aviões”.

Um grupo de Países em Desenvolvimento avançou, em setembro passado, com uma proposta junto da ONU para que fosse criada uma taxa de carbono global de “justiça climática” – aplicada à aviação, aos navios ou à extração de combustíveis – para ajudar a financiar as perdas e danos, e a adaptação nos países mais pobres afetados pelas alterações climáticas.

“É obsceno que Jeff Bezos ou Bill Gates possam voar nos seus jatos privados sem impostos, enquanto as comunidades globais morrem à fome”, critica Gianluca Grimalda, investigador de ciências sociais. O ativista da Scientist Rebellion defende ser “justo que os poluidores ricos paguem mais para os fundos de perdas e danos climáticos para ajudar os países mais vulneráveis a adaptarem-se”.

Só os EUA e a Europa (com 17% da população) são responsáveis por metade dos GEE mundiais, enquanto que os países africanos subsarianos, com aproximadamente o mesmo número de habitantes destes dois continentes produziram apenas 4% do total de emissões, frisam os ativistas.