Sociedade

ONU: “O mundo está claramente a falhar” no financiamento da adaptação climática e “as pessoas mais vulneráveis estão a pagar o preço”

3 novembro 2022 17:47

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

anadolu agency/getty images

Relatório das Nações Unidas sobre o ponto de situação dos planos, da sua aplicação e do financiamento existente para a adaptação climática dá conta de que o financiamento internacional existente equivale a um décimo do que é necessário

3 novembro 2022 17:47

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Perante o agudizar de impactos climáticos associados a eventos extremos – como a intempérie que este verão inundou um terço do Paquistão ou a seca que se prolonga há quatro anos no Corno de África, deixando a morrer à fome milhares de pessoas – o mais recente relatório sobre adaptação climática dá conta de que o financiamento para pôr em prática as ações necessárias está muito aquém do necessário.

Divulgado esta quinta-feira pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA), o Relatório sobre Adaptação climática – “Adaptation Gap Report 2022 – tem este ano o título de “Too Little, Too Slow”. Ou seja, está-se a agir demasiado pouco e demasiado devagar.

Apesar de oito em cada 10 países terem planos para se adaptarem a eventos extremos associados à crise climática, os custos para os pôr em prática são cinco a dez vezes superiores ao financiamento internacional disponibilizado para os países em desenvolvimento.

“O mundo deve reduzir urgentemente as emissões de gases de efeito estufa para limitar os impactos das mudanças climáticas. Mas também deve aumentar urgentemente os esforços para nos adaptarmos aos impactos que já estão aqui e aos que estão por vir”, defendeu a diretora-executiva do PNUA, Inger Andersen, na apresentação do relatório.

O recado é dirigido aos líderes e representantes dos países ou blocos que vão estar presentes na 27.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP27) — que decorre de 6 a 18 de novembro em Sharm-el-Sheik, no Egipto.

Nas contas dos investigadores que elaboraram o relatório, em 2020, os países doadores (mais ricos) fizeram chegar aos países em desenvolvimento cerca de 29 mil milhões de dólares, representando um aumento de 4% em comparação a 2019. Contudo, o mundo prometeu há um ano que iria duplicar este financiamento até 2025 e pôr na mesa anualmente, pelo menos, os 100 mil milhões de dólares prometidos desde 2009, para mitigação e adaptação. E mesmo assim não vai chegar.

“O mundo está claramente a falhar na proteção das pessoas”

“O mundo está claramente a falhar na proteção das pessoas perante os impactos da crise climática que já estão a acontecer”, sublinhou o secretário-geral da ONU, António Guterres, numa mensagem de vídeo, emitida durante a apresentação do relatório.

O PNUA estima que só para a adaptação climática serão necessários entre 160 e 340 mil milhões de dólares até 2030 e entre 315 e 565 mil milhões até 2050. São verbas que permitem ajudar a deslocar populações de zonas que se prevê ficarem submersas pelo mar ou zonas inundáveis, assim como permitir maior resiliência de comunidades vulneráveis a ondas de calor, secas, incêndios ou intempéries extremas.

No Pacto do Clima de Glasgow, assinado no ano passado na COP26, a promessa de cumprir com o financiamento necessário foi adiada para a COP 27. Só que entretanto, o aquecimento global está a acelerar e novas estimativas, feitas com base nos cortes de emissões executados e prometidos, apontam para subidas médias da temperatura mundial entre 2,4 e 2,8 graus. O que tendo em conta os cenários de eventos extremos actuais, com os termómetros 1,1ºC acima da era pré-industrial, não deixa dúvidas do que aí vem.

“As pessoas e comunidades mais vulneráveis é que estão a pagar o preço. Isto é inaceitável”, frisou Guterres, reforçando que a adaptação climática tem de ser levada a sério.