Sociedade

Três agentes da PSP vão a julgamento no caso das agressões a Cláudia Simões

20 junho 2022 14:50

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Cláudia Simões, 42 anos, acusa um agente da PSP da Amadora de violência policial

ana baião

Os agentes Carlos Canha, João Gouveia e Fernando Rodrigues vão a julgamento no caso dos episódios de agressões a Cláudia Simões

20 junho 2022 14:50

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

A juíza de instrução criminal do Tribunal da Amadora, Paula Antão, vai levar a julgamento os agentes da PSP Carlos Canha, João Gouveia e Fernando Rodrigues por suspeitas de agressões a Cláudia Simões, na noite de 19 de janeiro de 2020.

A magistrada validou a acusação do Ministério Público, que em setembro do ano passado tinha acusado Carlos Canha de três crimes de ofensa à integridade física qualificada, três de sequestro agravado, um de injúria agravada e um de abuso de poder. Já os agentes João Gouveia e Fernando Rodrigues foram acusados de um crime de abuso de poder, por não terem feito nada para impedir as agressões a Cláudia Simões.

"Os autos indiciam suficientemente a prática pelos arguidos dos crimes pelos quais estão acusados, sendo neste momento possível fazer um juízo que considera mais provável uma condenação do que uma absolvição em sede de audiência de julgamento, considerando-se indiciariamente provados os factos que constam da acusação", conclui a magistrada, do despacho de pronúncia, a que o Expresso teve acesso.

Contactada pelo Expresso, Ana Cristina Domingues, advogada de Cláudia Simões, confirmou que foi proferido despacho de não pronúncia relativamente a Cláudia Simões e de pronúncia aos três agentes da PSP, "o que confirma todos os crimes imputados aos arguidos pelo Ministério Público, conforme é da mais elementar justiça".

Tudo começou depois de um motorista da Vimeca alertar o agente da PSP Carlos Canha que a filha de Cláudia Simões viajava no autocarro sem título de transporte. A mulher foi então algemada e imobilizada junto à paragem de autocarros na Rua Elias Garcia, resistindo à detenção, tendo mordendo o agente. “Se não lhe mordesse a mão e o braço, morreria. Ele estava a sufocar-me. Não morri sabe Deus como”, declarou dias depois dos acontecimentos, ao Expresso.

Cláudia Simões alega que foi depois agredida durante a detenção num carro-patrulha da PSP e na esquadra da PSP, em Casal de S. Brás, na Amadora.

"No trajeto de cerca de 3 km entre a R. Elias Garcia e a esquadra do Casal de S. Brás, para onde foi conduzida, o arguido Carlos Canha, aproveitando-se do facto de a ofendida se encontrar algemada e na impossibilidade de resistir, logo que a viatura iniciou a marcha, disse-lhe “agora é que te vou mostrar, sua puta, sua preta do caralho, seu caralho, sua macaca”, isto enquanto lhe desferia vários socos na cara. Enquanto se tentava proteger, baixando a cara para não ser atingida, o arguido Carlos Canha dizia-lhe “estás a baixar a cara, caralho” e “ainda por cima esta puta é rija”, tendo à saída da viatura junto à esquadra o arguido Carlos Canha desferido um pontapé que a atingiu na testa. Os arguidos Fernando Rodrigues e João Gouveia nada fizeram que impedisse a continuação da agressão por parte do seu colega", pode ler-se na acusação.

O relatório médico do Hospital Amadora-Sintra é revelador quanto à extensão dos ferimentos com que Cláudia Simões deu entrada nas urgências: “Traumatismo cranioencefálico frontal e trauma facial com edema exacerbado generalizado, edema dos lábios, com feridas dispersas, trauma da pirâmide nasal (...). Apresenta face deformada por hematomas extensos em toda a face, principalmente na região frontal à esquerda, ferida traumática no lábio inferior e superior com pequena hemorragia ativa”.

Segundo a ficha clínica, a “utente [foi] encaminhada da sala de reanimação, onde recorreu acompanhada pelos bombeiros e pela polícia, após ter sido alegadamente vítima de agressão”. Em declarações ao Expresso, dois peritos forenses que analisaram o relatório dividem-se sobre o que pode ter provocado os ferimentos descritos. Um dos especialistas conclui que os hematomas foram, muito provavelmente, causados por um ato violento, nomeadamente murros nos lábios e nos olhos, sendo dificilmente compatíveis com uma queda, como alegou a PSP quando chamou os bombeiros da Amadora para socorrer a mulher, junto à esquadra do Casal de São Brás. Outro perito, no entanto, considera que o relatório não permite tirar conclusões, não podendo ser afastado nenhum dos cenários.