Sociedade

Alterações Climáticas: “O mundo que conhecemos não será o mesmo daqui a 10 ou 20 anos”(e este relatório é um “alerta terrível” sobre o que nos irá acontecer)

28 fevereiro 2022 17:05

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Muitos dos impactos das alterações climáticas revelam-se “irreversíveis”, mas ainda há tempo, “apesar de curto”, para inverter os cenários mais catastróficos, alertam os cientistas do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), com base num novo relatório, divulgado esta segunda-feira. Cerca de 40% das pessoas que habitam a Terra encontram-se numa situação “muito vulnerável” e até 14% das outras espécies podem extinguir-se. É urgente investir na adaptação em articulação com a preservação da natureza. É preciso agir antes que a janela de oportunidade se feche, avisam.

28 fevereiro 2022 17:05

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

O planeta Terra enfrenta desafios nunca vistos e não restam dúvidas de que as alterações climáticas são “inequívocas” e muitos dos seus impactos começam a ser “irreversíveis”, alerta o mais recente relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (conhecido pela sigla em inglês IPCC), dedicado aos “Impactos, Adaptação e Vulnerabilidades”.

“Este relatório indica que lugares onde as pessoas vivem e trabalham podem deixar de existir e que ecossistemas e espécies com os quais crescemos podem desaparecer”, alertou Debra Roberts, co-presidente do IPCC, durante uma conferência de imprensa, esta segunda-feira, difundida online a partir de Genebra. E frisou: “O mundo que conhecemos não será o mesmo daqui a 10 ou 20 anos”. E os sinais começam a ser dados com a projeção de aumento das ondas de calor, secas e inundações, com efeitos em cascata, ultrapassando os limites de tolerância para pessoas, plantas e animais.

40% da população em situação vulnerável

Cerca de 40% da população (entre 3,3 e 3,6 mil milhões de pessoas) encontra-se numa situação “muito vulnerável” devido à exposição a calor extremo, inundações, secas, incêndios ou outros eventos extremos. E, mesmo com uma subida de 1,5ºC da temperatura média global, entre 3% e 14% das espécies de animais e plantas podem extinguir-se, alerta o IPCC.

As alterações climáticas induzidas pela atividade humana já estão a ter impacto nas pessoas e na biodiversidade. Os cientistas apontam para que cerca de metade das espécies estudadas procurem zonas de maior altitude ou mais próximas dos polos para sobreviver.

Para travar cenários mais catastróficos e dar a volta às projeções é preciso agir até ao final desta década, sublinham os cientistas, reiterando o que têm dito nos últimos dois anos. “Precisamos de mobilizar ação e esforços perante uma janela de oportunidade que se está a fechar”, sublinhou Hans-O. Pörtner, outro dos co-presidentes do IPCC, na conferência de imprensa.

O relatório sobre “Impactos, Adaptação e Vulnerabilidades” é o segundo contributo do Grupo de Trabalho II para o quinto e sexto relatórios (AR5 e AR6) do IPCC, e baseia-se em mais de 34 mil artigos científicos publicados, envolvendo 270 investigadores de 67 países. O documento reconhece a interdependência entre clima, ecossistemas, biodiversidade e sociedades humanas, e integra novas informações científicas sobre estas dimensões e sobre as causas, impactos e soluções para enfrentar a crise climática.

“Temos de financiar a adaptação às alterações climáticas utilizando a natureza em nosso auxílio. Mas para que a natureza ajude a salvar-nos, temos de a salvar primeiro”, sublinhou Inger Andersen, diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA), na apresentação do relatório. A responsável da ONU também frisou que as alterações climáticas já estão em andamento, que as populações mais vulneráveis são as mais afetadas e que nos encontramos “numa emergência e a caminho do desastre, se as temperaturas subirem 3ºC”. Isto porque a temperatura média global deve subir 1,5ºC até meados do século XXI (e não no fim como ambicionado) por comparação à época pré-industrial. Desde o século XIX o mundo já aqueceu 1,1ºC.

Insegurança alimentar e subida do mar

Até 2050, entre oito e 80 milhões de pessoas a mais podem enfrentar a fome ou insegurança alimentar em países da África Subsariana, no sudeste asiático ou na América Central e do Sul. E até final do século, um terço das áreas cultivadas atuais podem deixar de estar aptas para produção alimentar: na região do Mediterrâneo, uma das que revela maior vulnerabilidade a vários níveis, a produção agrícola poderá cair 17% até 2050, mantendo-se o atual nível de emissões de gases com efeito de estufa.

Reagindo ao relatório, o relator especial da ONU para a Pobreza e Direitos Humanos, Olivier De Schutter, frisou que “sem uma redução drástica nas emissões de carbono e na forma como fazemos agricultura, vamos provavelmente assistir a perdas de colheitas maciças e ao colapso do sistema alimentar com as populações mais pobres a serem as mais afetadas”. De Schutter alertou ainda que os Governos têm de apoiar a produção local e encorajar a resiliência através da diversidade [de produção] e não da uniformidade”.

Perto de 900 milhões de pessoas que vivem em zonas costeiras estão já ameaçadas pela subida do nível médio do mar e o número de pessoas suscetíveis de sofrer com inundações costeiras tende a subir cerca de 20%, se o nível médio do mar subir 15 cm por comparação ao de 2020, ou triplicar se subir 1,4 metros, num cenário em que não se inverte o crescendo de emissões, nem se investe em adaptação às alterações climáticas.

Segundo Debra Roberts, o relatório do IPCC agora divulgado “oferece uma oportunidade para que os governos planeiem as medidas de adaptação”, sobretudo ao nível local ou nas cidades onde se vão concentrar dois terços da população mundial, de modo a investir em espaços verdes nos telhados ou nas ruas para atenuar ondas de calor por exemplo. Contudo, a investigadora assumiu, “não estamos a agir suficientemente rápido para garantir um planeta habitável para as gerações futuras”.

Inação terá “consequências terríveis”

O IPCC estima que com os atuais compromissos de cortes de emissões de gases de efeito de estufa estas continuem a subir, prevendo mais 14% até 2030, quando deviam cair 45% e atingir-se a ambicionada neutralidade carbónica em 2050.

Questionado sobre os efeitos da atual guerra na Ucrânia na crise climática, Hans-O Pörtner considerou que “os países começam a pensar na sua independência energética, apostando em alternativas renováveis”. Já quanto às reações dos decisores políticos, com base na informação dos relatórios do IPCC, considerou esperar que sejam “cruciais para o futuro da humanidade”.

“Este relatório é um alerta terrível sobre as consequências da inação”, disse Hoesung Lee, presidente do IPCC, na apresentação do relatório). E sublinhou que perante a ameaça grave e crescente ao nosso bem-estar e a um planeta saudável, “meias medidas não são uma opção”.