Sociedade

Incêndios rurais extremos tendem a multiplicar-se no mundo, alerta relatório da ONU. Portugal é “um muito bom exemplo” na prevenção

23 fevereiro 2022 10:12

Foto: Diana Cleto

A probabilidade de fogos extremos, como os que assolaram Portugal em 2017 ou a Califórnia nos últimos anos, vai aumentar 50% até 2030, alerta um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente

23 fevereiro 2022 10:12

Em todo o planeta, os incêndios rurais têm aumentado de intensidade e de extensão e projeta-se que venham a ser cada vez piores e a devastar partes do mundo onde até agora não tinham chegado, com consequências para a vida humana, o ambiente e a vida selvagem. No 2050 os fogos extremos deverão aumentar 30% e no fim do século mais 50%.

Estas são algumas das constatações do relatório dedicado à “Ameaça crescente de incêndios extraordinários em paisagens” – “Spreading like Wildfire: The Rising Threat of Extraordinary Landscape Fires” – divulgado esta quarta-feira pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (conhecido pela sigla em inglês UNEP), em vésperas da 5.ª sessão da ONU para o Ambiente, que vai realizar-se em Nairobi entre 28 de fevereiro e 2 de março.

“Vontade política para reduzir o risco”. O exemplo português

Entre os incêndios extraordinários já ocorridos e analisados por cerca de meia centena de investigadores de todos os continentes constam os que devastaram cerca de 540 mil hectares no Centro e no Norte de Portugal em 2017, e que tiraram a vida a 117 pessoas, e aos quais o relatório dedica um capítulo. 

Além de se destacarem pela dimensão e pela tragédia humana, estes incêndios são identificados por Peter Moore, especialista da Organização da ONU para a Alimentação e Agricultura (FAO), como uma das ‘ignições’ que conduziu a um conjunto de planos e decisões políticas, que classifica como “um dos melhores exemplos de abordagem e esforço de um país para apostar em melhor governança e reduzir riscos”. 

Em declarações ao Expresso, Peter Moore sublinha que “após a tragédia, o Governo português empreendeu um processo ambicioso para desenvolver um Plano Nacional integrado de gestão de incêndios rurais, com o objetivo de proteger o país de severos incêndios florestais, com a missão de proteger pessoas e propriedades rurais, garantindo a gestão de ecossistemas e paisagens”. 

O especialista destaca o papel da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) e os objetivos definidos no plano aprovado, tais como “a valorização de áreas rurais como promotoras de riqueza e sustentabilidade; a gestão ativa destas áreas com recurso a fogo controlado; a mudança de comportamentos para segurança das pessoas e preservação dos territórios e a gestão eficiente do risco para reduzir perdas com prioridades claras e uso de recursos públicos”.

Para Peter Moore, que tem colaborado com a AGIF, a história dos grandes incêndios em Portugal desde 2003 levou a que fossem “compreendidas as causas e os diferentes fatores em jogo e que houvesse vontade política para adotar medidas para reduzir o risco, envolvendo diferentes atores, dos governamentais, aos proprietários privados e outras organizações, de modo a reestruturar políticas e a legislação, para prevenir incêndios como os de 2017”. 

No entanto, Moore admite que “tudo isto precisa de tempo para ser aplicado no terreno”, já que há ainda muito por sair do papel e ser aplicado. E frisa que neste caminho longo “são necessárias mudanças sociais, económicas ambientais e políticas” e que “variáveis como a seca, os combustíveis no terreno, as condições meteorológicas e as ignições continuam a possibilitar que surjam grandes incêndios”. Contudo, não tem dúvidas de que “é um muito bom exemplo para ser observado, apreendido e adaptado também por outras nações”.

Arde o que antes não ardia e com consequências em ‘loop’

Durante o briefing organizado pela UNEP, Andrew Sullivan, co-editor do relatório da UNEP e investigador da Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation (CSIRO), de Canberra (Austrália), frisou que “a probabilidade de incêndios catastróficos que aconteciam a cada 100 anos ocorrerem cada vez mais frequentemente, serem mais intensos e durarem mais tempo em cenário de alterações climáticas é cada vez maior”. Isto mesmo em áreas que antes não eram afetadas por incêndios, como no Norte da Síria ou da Sibéria, em zonas antes húmidas e onde o aquecimento global tem levado ao degelo do solo permanentemente gelado (permafrost).

Já os incêndios no Pantanal, no Brasil, em 2021, destruíram perto de um terço dos principais habitats mundiais para a biodiversidade. No documento, a diretora da divisão de ecossistemas da UNEP, Susan Gardner, sublinha que “os incêndios reduzem biodiversidade e contribuem para um ricochete nas alterações climáticas, já que emitem grandes quantidades de gases de efeito de estufa para a atmosfera, estimulando mais aquecimento, mais secas e mais incêndios”.

Entre 2002 e 2016 arderam por ano em média cerca de 423 milhões de hectares de superfície terrestre, entre matos, floresta e outros habitats, o que equivale a uma área total do tamanho de toda a União Europeia. Cerca de dois terços da área ardida foi registada no continente africano.

As alterações no uso do solo, a desflorestação para criar áreas de pasto para gado ou corte de madeira comercial e a expansão de áreas urbanas são algumas das razões para o aumento de risco de incêndio em muitas partes do mundo.

O relatório lembra também que os incêndios têm consequências a longo prazo para a saúde humana e para espécies selvagens, poluindo recursos hídricos, contribuindo para o degelo de glaciares e provocando deslizamentos de terras e multiplicação de algas nos oceanos. 

Apostar na prevenção e aprender com os outros

Entre as recomendações enunciadas, a UNEP aponta para a necessidade de se auditarem os custos reais dos incêndios e se investir em planeamento, prevenção e recuperação de áreas ardidas, atribuindo a estas vertentes dois terços dos investimentos e deixando apenas um terço para o combate, quando atualmente apenas 1% em média vai para prevenção globalmente. 

Os investigadores sugerem também que “se aprenda com os outros”, ou seja que se sigam os bons exemplos e se tenham em conta as práticas e o conhecimento de povos indígenas na gestão do risco; e que se aposte num”resposta multilateral forte”, tal como o são grandes catástrofes naturais como inundações ou terramotos”.

Estas são também algumas das recomendações sublinhadas pelo especialista português Paulo Fernandes. Este investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e membro do laboratório colaborativo ForestWISE é co-autor do relatório da UNEP e foi a ele que coube redigir o capítulo sobre os fogos de Pedrógão de 2017 em Portugal. Contudo, apesar de se sentir satisfeito com o reconhecimento dado pelos pares científicos ao plano nacional de gestão integrada do fogo em Portugal no relatório, lembra  que “há ainda muito por aplicar e executar”.