Sociedade

Covid ‘saturou-se’ entre os portugueses. “Já passámos o pior”

13 fevereiro 2022 15:53

FOTO Getty Images

Variante ómicron propagou-se “de forma explosiva” e agora está encurralada pela “escassez de suscetíveis” para infetar. Epidemiologistas acreditam que nada voltará a ser como foi

13 fevereiro 2022 15:53

O vírus pandémico saturou-se entre a população portuguesa da mesma forma como os portugueses estão saturados da pandemia. Os dados das últimas semanas mostram que o aumento do número de novas infeções foi feito com estrondo, explodiu e agora cai a pique. Os epidemiologistas afirmam ao Expresso que a queda pode não ser para sempre, mas mesmo que não o seja, não voltaremos aos picos passados.  

“Era totalmente insustentável continuarmos a assistir ao aumento de casos como nos últimos meses, sobretudo depois de as crianças também terem sido expostas ao vírus. Temos 30% da população portuguesa com casos confirmados, um número indeterminado de infeções não detetadas e a maioria dos portugueses vacinados, portanto, temos, de facto, um conjunto de suscetíveis muito reduzido”, explica Óscar Felgueiras, matemático da equipa que tem aconselhado o Governo na estratégia contra a pandemia. 

Índice de transmissibilidade (Rt) abaixo de 0,9 

Na prática: “Não há condições para que o vírus se consiga propagar nas mesmas condições como até aqui. Depois de uma subida muito rápida com a variante ómicron, só amparada pelas medidas de contenção após o Natal, atingimos o máximo com a abertura das escolas, segue-se uma descida bastante acelerada. Era inevitável.” A prova está à vista, “o Rt está abaixo de 0,9 e a queda no número de novos casos supera os 50%”, sublinha o investigador da Faculdade de Ciências do Porto. 

O epidemiologista Manuel Carmo Gomes recorre ao termo técnico para descrever a situação em Portugal: “Temos uma depleção de suscetíveis para uma infeção com uma capacidade tão elevada de transmissão. Acontece quando a transmissão é tão rápida que a certa altura deixa de fazer-se.” O professor da Faculdade de Ciências de Lisboa explica que “com uma subida explosiva a partir de um determinado momento, o que passa a controlar o número de novos casos deixa de ser o vírus e passa a ser o ritmo da exposição”. E, acrescenta: “Há ainda muitas pessoas que podem ser infetadas, mas essas são as pessoas que se vão expondo gradualmente. Um exemplo inverso: em janeiro o número de crianças infetadas foi superior ao total de 2020 e 2021.” 

O que vai ser normal?  

O futuro continua incerto, embora menos do que no passado recente. “O número de casos não vai desaparecer e haverá um ressurgimento no outono e inverno mas sem uma subida tão elevada como em janeiro. Estamos já com uma tendência para a estabilização e previsibilidade, embora ainda sem se conseguir dizer o que vai ser normal – a média de infeções por ano, a época com mais casos -, isto é, identificar o padrão.” Para o investigador, “ainda é cedo para responder a essas perguntas”, no entanto, há já uma certeza, “não nos vamos ver livres do vírus nos próximos anos mas também não vamos voltar a ter o que tivemos, já passámos o pior”.  

Reinfeções a cada dois ou cinco anos  

Óscar Felgueiras e Carmo Gomes partilham a convicção de que “todos vamos ter algum grau de imunidade”, seja pela infeção, seja pela vacina. “Os quatro coronavírus sazonais são responsáveis por 20 a 30% das constipações e mutam gradualmente, reinfetando repetidamente a cada dois ou cinco anos e o SARS-CoV-2 está a mudar nessa direção”, explica Carmo Gomes. “A boa notícia é que vamos passar a ter uma situação que será para o interesse dos técnicos e não um problema da sociedade.”