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Covid-19. Algarve registou um “crescimento abrupto do número de mortes”. Explicação: “90% dos internados em UCI não estão vacinados”

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Num mês houve 72 vítimas mortais por doença na região mais a sul de Portugal, “mais de 15% de letalidade comparando com igual período do ano anterior face ao número total de casos na comunidade”. As autoridades de Saúde pedem às pessoas que se vacinem

24 dezembro 2021 8:34

A 24 de novembro, o Algarve registava um total de 500 vítimas mortais de covid-19; passado um mês, nesta quinta-feira, 23 de dezembro, o número passou para 572 e durante período houve apenas três dias (26 de novembro e 12 e 16 de dezembro) em que não se registaram mortes devido à doença na região mais a sul de Portugal.

As autoridades de saúde atribuem a ‘culpa’ a esta subida a quem ainda não se vacinou. “Quase 90% dos internados em UCI [Unidade de Cuidados Intensivos] não está vacinada por esta altura e daí a causa do óbito”, refere ao Expresso Paulo Neves, da administração do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA), que gere os hospitais de Faro e Portimão.

Para este responsável, a falta de vacinação “juntou-se à idade avançada e às outras comorbilidades” como causa para a morte de quem contrai a doença. “Houve um período em que assistimos a um crescimento abrupto do número de mortes, essencialmente entre 24 de novembro e 10 de dezembro”, adianta Paulo Neves. Nesse espaço de tempo registou-se “mais
de 15% de letalidade comparando com igual período do ano anterior face ao número total de casos na comunidade”, acrescenta.

No entanto, mesmo com a percentagem de mortes face ao número de doentes a baixar (devido ao aumento de casos), morreram 18 pessoas no Algarve desde o passado sábado, vítimas da doença. Domingo (19 de dezembro) foi aliás o dia com mais mortes no último mês, com o total de 6 óbitos.

Menos mas a subir

Desde o início da pandemia, o Algarve tem sido a região de Portugal (à exceção dos Açores e Madeira) onde menos mortes foram registadas devido à Covid-19. O total de 572 vítimas mortais que se registava esta quinta-feira é quase metade das 1084 que já houve no Alentejo (a segunda região de Portugal continental onde houve menos mortes).

Mas o aumento de óbitos está a preocupar as autoridades de saúde, que apelam à responsabilidade da população. “Para além da proteção da nossa própria vida e evitar o internamento devido à covid, não contribuindo para o aumento de pressão sob as estruturas de resposta hospitalar, está sempre, e ainda mais agora, com esta nova subvariante mais contagiosa, não relaxar o cumprimento das regras já conhecidas e não faltar ao programa de vacinação”, frisa Paulo Neves.

Atualmente a UCI do CHUA, que pode receber até 38 doentes, está abaixo dos 50% da capacidade, o que permite continuar a responder aos casos mais graves de covid. No entanto, no total de internamentos gerais, o centro hospitalar algarvio já ultrapassou a capacidade máxima. “A ocupação média ótima de referência deveria ser em torno de 85% e passou para 95%. Mas, efetivamente, contando com toda a elasticidade de recursos, estamos quase 10% acima da capacidade”.

Por outras palavras, o CHUA dispõe de cerca de 1100 camas, que estão praticamente todas ocupadas e está já a recorrer a outras 60, em unidades hospitalares privadas, bem como a mais 35 camas, de contigência, no edifício onde funciona a Psiquiatria (à entrada de Faro), e no Centro de Medicina e Reabilitação do Sul, em São Brás de Alportel.

O centro hospitalar algarvio está, atualmente, na fase 2 (de 4) do Plano de Contigência. Há uma elevada pressão na procura das Urgências, com quase 1000 atendimentos por dia entre adultos e
pediatria”, explica Paulo Neves. “Claro que parte dessa procura, essencialmente por afeções respiratórias e traumatologia origina a necessidade de internamentos ou observações demoradas para exames”, continua.

Houve ainda o aumento da atividade hospitalar (não covid) que se verificou a partir de março (mais 15,2%, em relação a 2020) e que originou mais internamentos, que agora coincidem
com “o recrudescimento desta onda [de covid-19] que, no Algarve, se fez notar desde finais de agosto”, diz o responsável do CHUA, para explicar a elevada taxa de internamentos.