Sociedade

Caso Rendeiro. PJ faz buscas a presidente da Antral e ao filho

3 novembro 2021 10:14

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Micael Pereira

Micael Pereira

Grande repórter

O fundador do BPP, João Rendeiro, foi afastado em 2008, quando o Banco de Portugal interveio. Está desde aí a contas com a justiça. Prepara-se agora para enfrentar a prisão

tiago miranda

A Polícia Judiciária está a realizar buscas a casa de Florêncio de Almeida e ao seu filho, que foi motorista de João Rendeiro

3 novembro 2021 10:14

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Micael Pereira

Micael Pereira

Grande repórter

A Polícia Judiciária e o Departamento Central de Investigação e Ação Penal estão a realizar buscas a casa de Florêncio de Almeida, presidente da ANTRAL, a mais importante associação de taxistas, e do seu filho, com o mesmo nome, que foi motorista do ex-presidente do BPP, João Rendeiro, durante alguns anos.

A notícia avançada pela RTP foi confirmada pelo Expresso. Já a SIC, avança que estão a ser realizadas 17 buscas domiciliárias.

As autoridades suspeitam que esteja em causa o crime de branqueamento de capitais.

O fundador e ex-presidente do BPP encontra-se em fuga e contra o qual foram emitidos vários mandados de captura internacional.

O Expresso tentou falar com o presidente da ANTRAL mas uma secretária disse que este não prestava declarações.

De acordo com a TVI, em causa está o facto das autoridades suspeitarem que o ex-motorista de Rendeiro comprou um apartamento na Quinta Patino, em Cascais, junto à mansão do patrão, por 1,1 milhões de euros, a pronto pagamento, cedendo depois o usufruto do mesmo à mulher de Rendeiro, Maria de Jesus. Esta compra terá sido feita com o dinheiro de João Rendeiro.

Já a RTP há duas semanas revelou que o apartamento adquirido pelo motorista de João Rendeiro na Quinta Patino e cedido à mulher do banqueiro foi comprado apenas sete dias depois de o mesmo motorista ter vendido uma outra casa em Lisboa, que também era de João Rendeiro.

Dois prédios em Lisboa

A 14 de janeiro de 2015, João Rendeiro foi a um cartório na Avenida Almirante Reis, em Lisboa, com Florêncio Almeida. Tratou da habilitação de herdeiros, enquanto filho único de João Augusto e Joana Rendeiro, e logo de seguida entregou a herança a Florêncio. Dois prédios em Lisboa e dois terrenos rústicos em Aido Bexigas e em Formiga do Norte, no concelho de Murtosa, perto de Aveiro. Rendeiro vendeu tudo no próprio dia ao amigo por €503.500.

Numa consulta aos registos prediais e às escrituras das quatro propriedades feita pelo Expresso, e na sequência de uma reportagem no programa da RTP “Sexta às 9”, sobre um dos imóveis em causa, o mais caro deles, foi possível encontrar a habilitação de herdeiros de Rendeiro. A venda por atacado da herança do banqueiro foi feita dois anos e meio após o pai ter morrido, em agosto de 2012. João Augusto Rendeiro tinha, ele próprio, ficado viúvo havia apenas oito meses, depois de a mulher ter falecido nas vésperas do Natal de 2011.

As duas propriedades em Lisboa ficam uma ao lado da outra, na Rua Silva Carvalho, no coração de Campo de Ourique, no mesmo quarteirão da Casa Fernando Pessoa. O imóvel maior, cuja venda já fora referida pelo “Sexta às 9”, é um prédio de rés do chão, primeiro andar e águas-furtadas com 198 m2 de área coberta (o que significa quase 600 m2 de área distribuí­da pelos três pisos) e um logradouro de 130 m2 nas traseiras. A propriedade foi herdada pelo pai em 1960, quando o avô Manuel faleceu e o banqueiro tinha apenas 8 anos.

Segundo as escrituras, este imóvel foi adquirido pelo preço de €350 mil por Florêncio Almeida. Dois anos e meio depois, foi doado pelo presidente da ANTRAL ao filho, Florêncio Correia de Almeida, que trabalhou como motorista de João Rendeiro. E um mês após a doação, a 14 de novembro de 2018, Florêncio filho vendeu-o por €1,470 milhões a uma empresa detida por dois franceses, a Turtle Quotidian. Finalmente, em julho deste ano, um casal português comprou-o por €1,575 milhões a essa empresa. No intervalo de menos de quatro anos, a família dos Florêncios fez uma mais-valia de €1,12 milhões com o imóvel, o que contrasta com a mais-valia de €105 mil obtida pelos franceses nos três anos seguintes.

Já o prédio vizinho, também de três pisos mas de dimensões muito menores, com uma área coberta de 58 m2 e um logradouro de 31 m2, foi comprado pelo presidente da ANTRAL por €150 mil e vendido 10 meses depois a um casal por €172 mil. Foi nesta casa que os pais de Rendeiro viveram, de acordo com uma vizinha do bairro que chegou a ser inquilina da família, antes de terem passado os últimos anos num lar quase em frente, na mesma rua.

A escritura dessa venda feita por Florêncio Almeida revela que foram negociadas condições não muito habituais. O casal comprometeu-se em pagar aquele valor em 86 prestações mensais de €2000, fazendo uma hipoteca voluntária da moradia por €172 mil a favor do vendedor como garantia do pagamento.

Quanto aos dois terrenos rústicos em Formiga do Norte e Aido Bexigas, um de 500 m2 e outro de apenas 90 m2, Rendeiro cedeu-os ao presidente da ANTRAL por €3500. E até hoje continuam a ser dele.

[em atualização]