Sociedade

Estudo da Nova diz que 10% dos portugueses não vão ao médico quando adoecem (e que 63% destes preferem automedicar-se)

16 junho 2021 9:57

jose fernandes

Relatório da Universidade Nova, em Lisboa, mostra que há portugueses que não recorrem ao sistema de Saúde quando se sentem doentes. Escolhem o caminho mais curto, da automedicação

16 junho 2021 9:57

É um remédio que persiste entre a população nacional apesar dos efeitos adversos associados: são 10% os portugueses que não vão ao médico quando sentem algum mal-estar; destes, 63% optam mesmo por se automedicarem. A conclusão consta do relatório “Acesso a cuidados de saúde - As escolhas dos cidadãos 2020”, publicado esta quarta-feira pelo economista de Saúde da Nova SBE, Pedro Pita Barros.

O documento, com o apoio da Fundação La Caixa e do BPI, deixa claro que a opção pelos autocuidados por uma parte dos portugueses, mesmo que pequena, não se deve a dificuldades no acesso às unidades de saúde. Pela informação recolhida – com 1271 inquéritos realizados no Continente, entre 23 de maio e 30 de junho de 2020 - , foi possível concluir que “o acesso ao sistema de Saúde é similar para toda a população, tendo a decisão de primeiro contacto poucas barreiras”. Aliás, “a perceção dos entrevistados é de que o acesso melhorou, em geral, de 2015 para 2020”, lê-se.

Na verdade, o que leva os portugueses a automedicarem-se “não é terem medicamentos em casa, por exemplo, mas uma grande autoconfiança baseada numa experiência passada; entendem que o problema é similar a outro que tiveram no passado, para o qual já conhecem a solução”, explica o autor.

Para Pita Barros, esta realidade “levanta um paradoxo interessante porque mostra que as campanhas que têm surgido contra a medicação, muito focadas nos antibióticos, não acautelam essa confiança das pessoas no conhecimento que julgam ter sobre as suas doenças”. Ou seja, “faz falta um ponto intermédio no sistema de Saúde para dar uma resposta rápida e sem o formalismo de uma consulta médica, e que podia ser na farmácia ou até através de enfermeiros, como se faz noutros países, mas não é uma solução pacífica para a Ordem dos Médicos”.

Apesar de a porta do Sistema Nacional de Saúde estar aberta para todos, há “desigualdades socioeconómicas”. Por outras palavras, mantém-se a relação direta entre o nível de vida e o prognóstico sobre a doença, com os menos favorecidos a colocarem mais entraves em tratarem-se. “Entre as principais dificuldades financeiras de acesso identificadas pelos inquiridos encontram-se os custos dos medicamentos.”

Mais pobres sem dinheiro para medicamentos,
consultas ou exames

A fatura na farmácia continua a ser uma barreira para muitos portugueses, embora com “melhorias substanciais nos últimos anos”. Segundo a equipa da Universidade de Nova, em Lisboa, “a proporção de pessoas que deixou de comprar os medicamentos de que necessitava, pelo menos uma vez por ano, passou de 10,7% para 5,4% entre 2017 e 2020”. No entanto, sublinham os autores, “há desigualdades socioeconómicas relevantes: essa proporção foi de 2% para a classe mais elevada e passou de 11% para 15% na mais baixa”.

O diagnóstico feito sobre as idas à farmácia tem uma “evolução similar” nas consultas e exames. “Embora com valores mais baixos, na medida de ‘deixar de ir a uma consulta ou exame por falta de dinheiro’ houve um crescimento de 7% em 2017 para 10% em 2019 na classe socioeconómica mais baixa.” Conclui-se no relatório que “a principal despesa de quem vai ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) com um episódio de doença inesperado está na comparticipação dos medicamentos prescritos”.

A explicação para o aumento dos encargos com medicação está, no entanto, por dar. “Percebemos que as pessoas estão a gastar mais, não sabemos porquê. Pode dever-se ao aumento dos preços da medicação crónica, à prescrição de medicamentos mais caros pelos médicos ou porque a utilização ocasional está a ser feita com recurso a fármacos com um preço mais elevado”, diz o economista de Saúde. “Seja qual for a razão, é um paradoxo porque nos últimos anos houve um esforço para baixar os preços.”

Doentes não estão em ‘fuga’ para os privados

Ainda sobre as maleitas súbitas, fica evidente uma redução na procura das Urgências. “A proporção de pessoas que referiu a Urgência hospitalar como primeiro ponto de contacto com o sistema de Saúde caiu de 41,1% em 2019 para 32,2% em 2020 no sector público e de 5% para 2,1% no privado”. A equipa de investigadores sublinha que, nos últimos anos, “não houve uma ‘fuga’ do SNS para o sector privado, mas sim uma reconfiguração dentro de cada sector”. Pita Barros explica que “no SNS as pessoas optaram mais por consultas não programadas nos cuidados primários e nos privados por consultórios e menos pelas Urgências hospitalares”. E quando assim não é, “na decisão de primeiro contacto, o SNS é a escolha maioritária em todos os grupos socioeconómicos”.

Sobre a forma como são atendidas, seja nas redes pública, privada ou social, “três em cada quatro pessoas sentem que foram tratadas com dignidade, compaixão e respeito”. A população menos instruída tende a ficar mais satisfeita (80%) do que os utentes com o ensino superior (72%). Os números são, ainda assim, mais modestos quando comparados com os registados noutros países. Por exemplo, em Inglaterra os valores rondam os 80% no geral e perto de 90% em serviços de saúde específicos.

O relatório inclui ainda dados sobre o acesso durante a pandemia e confirmam o que já se sabia. “Em 2020 há duas novas ‘barreiras de acesso’ identificadas: o receio de ir ao sistema de Saúde por causa da covid-19, referida por 15% das pessoas, e o cancelamento de um agendamento por iniciativa do prestador, referido por 20% dos entrevistados”.