Sociedade

Se todos consumissem recursos como os portugueses, seriam necessários 2,5 planetas para habitarmos

10 setembro 2020 0:01

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

digital vision/getty images

O diagnóstico mantém-se negro para a biodiversidade e para a humanidade a nível global. O Relatório Planeta Vivo 2020, da World Wildlife Found (WWF), revela que nos últimos 50 anos se perderam 68% das populações monitorizadas de mamíferos, aves, anfíbios, répteis e peixes. A Associação Natureza Portugal, parceira da WWF, sublinha que “é inequivocamente necessário um ‘Novo Acordo para a Natureza e para as Pessoas’”. E lembra que a pegada ecológica nacional aumentou substancialmente mais do que a global

10 setembro 2020 0:01

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Para satisfazer as “necessidades” de consumo generalizado dos cerca de sete mil milhões de habitantes da Terra — e não podendo esta regenerar esses recursos com a mesma rapidez com que são explorados — parece ser necessário esticar o planeta para 1,6 Terras. Já no caso de Portugal, a pegada ecológica ainda é maior do que a da média global, exigindo “o equivalente a 2,5 planetas ao ano para dar resposta às necessidades de consumo”. Em 2018, a exigência seria um pouco menor: 2,3 planetas.

Estes números constam do Relatório Planeta Vivo 2020, apresentado esta quarta-feira numa videoconferência organizada pela ANP|WWF, e dizem respeito a dados da evolução registada nos últimos 50 anos. “A pegada ecológica per capita em Portugal aumentou significativamente entre o relatório de 2018 e o de 2020 e posiciona o país no 46.º lugar a nível mundial, com 4,1 hectares de terra necessários por pessoa, enquanto que há dois anos, aparecia em 66º. Esta realidade “está relacionada com o crescimento do consumo e do turismo, associados ao crescimento da economia nacional depois da crise económica” e antes da chegada da pandemia de covid 19, esclarece Catarina Grilo, diretora de conservação da ANP/WWF, .

A liderar o ranking do pior desempenho ambiental está o Qatar. E países como os Estados Unidos, Austrália, Canadá, França, Itália, Reino Unido, Países Baixos, Bélgica, Suíça e Alemanha revelam “pegadas” superiores à portuguesa.


68% das populações de animais selvagens em declínio

O 13º Relatório Planeta Vivo da WWF, agora divulgado, revela também que se regista um declínio médio de 68% nas cerca de 20 mil populações de 4.392 espécies de mamíferos, aves, peixes, répteis e anfíbios, monitorizadas em todo o mundo entre 1970 e 2016. As taxas de declínio variam de região para região do planeta, sendo mais acentuada nos trópicos, com a América do Sul e Central a revelar perdas de 94%, seguida de África (65%) e da região da Ásia- Pacífico (45%). Já a América do Norte apresenta um declínio de 33% e a Europa e a Ásia Central de 24%.

“Melhorámos a nossa qualidade de vida nos últimos 50 anos, mas assistimos a um crescimento das ameaças contra a natureza e consequente perda de espécies e de habitats”, frisa Catarina Grilo. E as principais causas desta perda estão associadas à perda e degradação de habitat, incluindo a desflorestação e a alteração de usos do solo, impulsionada pela forma produzimos e consumimos alimentos, água e emitimos gases de efeito de estufa, com impactos não só na natureza como na vida humana.

“O nosso planeta está a enviar-nos sinais de alerta. O declínio grave da vida selvagem é um indicador de que a natureza está a desaparecer com graves consequência para a saúde humana”, avisa Ângela Morgado. A diretora executiva da ANP|WWF, sublinha “a necessidade de termos um Novo Acordo pela Natureza e as Pessoas, já que dependemos da natureza para o nosso bem estar, como demonstra a pandemia de covid19”. Por isso, espera que “Portugal tenha um papel importante na definição de metas para defender a biodiversidade” enquanto país que vai presidir à União Europeia no primeiro semestre de 2021.

“No meio de uma pandemia global é mais importante que nunca iniciar uma ação global coordenada e sem precedentes para até 2030 haver zero perda de habitats, zero extinção de espécies e populações de vida selvagem em todo o mundo, e reduzir para metade a nossa pegada ecológica. A nossa própria sobrevivência cada vez depende mais disso”, reitera.

A ANP/WWF defende que os compromissos indicados nesta proposta de acordo devem ser seguidos por cidadãos, empresas e governos, Entre estes constam a aposta no consumo de carne produzida em pastagens inseridas em sistemas agro-silvopastoris, como o montado Português, ou de alimentos produzidos de forma sustentável e que valorizem os serviços dos ecossistemas, em terra ou no mar. A escolha de produtos provenientes de florestas com gestão certificada e a recusa de produtos de plástico descartável (como pratos, copos ou talheres de uso único) também estão incluídos no acordo.

“O desafio é para já”, diz ministra da Agricultura

Presente na apresentação do relatório, a ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes, anunciou que, na próxima sexta-feira, vai ser apresentada a Agenda da Agricultura para a próxima década, lembrando que “o desafio lançado pela estratégia europeia “Do Prado ao Prato” é para já e não para daqui a 10 anos”. A aposta, sublinhou, é a de “evitar a perda de solo e o desperdício alimentar”, prevendo que o ministério que tutela “quer reforçar o contributo para proteger a biodiversidade”.

Por sua vez o ministro do Mar, Ricardo Serrão Santos, elogiou “o trabalho válido da WWF” e, numa mensagem vídeo, confiou que “com boa governação e o apoio da sociedade é possível a recuperação da população de mamíferos marinhos. Mas é uma luta sem tréguas”.

Já o ministro do Ambiente e das Alterações Climáticas não compareceu e enviou um técnico da secretaria de Estado da Conservação da Natureza e do Ordenamento do Território. Eduardo Carqueijeiro referiu que estão previstos 1,2 mil milhões de euros de vários fundos portugueses e europeus para se poder recuperar habitats, restaurar ecossistemas e eliminar ameaças à biodiversidade entre 2021 e 2027.

Dentro de uma semana realiza-se a 75ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, onde os líderes mundiais deverão analisar o progresso feito nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, no Acordo de Paris e na Convenção da Diversidade Biológica e definir o quadro de ação pós-2020 para a biodiversidade global.