Sociedade

Estátua do Padre António Vieira vandalizada em Lisboa. PSP procura autores

11 junho 2020 20:09

Estátua do Padre António Vieira, no Largo Trindade Coelho, em Lisboa, alvo de vandalismo

nuno fox

A estátua instalada no Largo Trindade Coelho (Bairro Alto), em Lisboa, foi vandalizada esta quinta-feira. PSP está à procura dos autores do ataque e a Câmara Municipal já procedeu à limpeza do monumento. “Todos os atos de vandalismo contra o património coletivo da cidade são inadmissíveis”, reforça a autarquia

11 junho 2020 20:09

Descolonização escrito a letras garrafais na base, corações vermelhos pintados sobre o peito de crianças indígenas, a face do Padre António Vieira coberta com o mesmo vermelho forte. A estátua do Padre António Vieira, instalada no Largo Trindade Coelho (Bairro Alto), em Lisboa, é a mais recente obra figurativa a ser vandalizada, numa altura em que crescem por todo o mundo os protestos em torno de figuras que fomentaram o colonialismo, a escravatura e o racismo. As primeiras imagens começaram a circular esta quinta-feira à tarde na rede social Twitter.

O Padre António Vieira, conhecido pela defesa dos direitos dos povos indígenas e pela luta contra a sua exploração no século XVII, foi já recentemente acusado de fomentar a escravidão seletiva dos povos africanos. Incapaz de se manter indiferente à brutalidade com que os ameríndios e os escravos negros eram tratados no Brasil, o então membro da Companhia de Jesus denunciou a situação junto das cortes portuguesas da época.

Apesar da singularidade da ação em Portugal, esta não é a única figura a enfrentar a fúria dos ativistas, tendo sido notícia também esta quinta-feira a retirada de uma estátua do fundador dos escuteiros Robert Baden-Powell no Reino Unido, com receio de que esta fosse vandalizada. O Expresso analisou as publicações no Twitter sobre o Padre António Vieira nos últimos dias e identificou o incitamento ao vandalismo esta quarta-feira. As contas em causa deixaram entretanto de mostrar publicamente os respetivos tweets.

Cara do Padre António Vieira foi pintada com tinta vermelha

Cara do Padre António Vieira foi pintada com tinta vermelha

nuno fox

Polícia está à procura dos autores do ataque à estátua

Equipas de investigação criminal da Polícia de Segurança Pública (PSP) fizeram esta quinta-feira diligências na zona do Largo Trindade Coelho, em Lisboa, disse à Lusa fonte do COMETLIS. Estão à procura dos autores do ataque.

De acordo com a fonte do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP (COMETLIS), "houve uma projeção de tinta" vermelha sobre as figuras do Padre António Vieira e de três crianças, que compõem o conjunto de esculturas, tendo sido igualmente escrita a palavra "Descoloniza" na base do monumento.

Segundo a mesma fonte, depois do alerta da comunicação social, foram mobilizadas equipas de investigação criminal da PSP, que fizeram diligências no local "para recolher mais e melhores meios de prova" que possam levar à identificação dos autores.

Os danos em monumentos configuram crime público, disse o responsável da PSP de Lisboa, adiantando que o processo será agora reencaminhado ao Ministério Público.

A Câmara Municipal de Lisboa já efetuou a limpeza da estátua de Padre António Vieira, que havia sido alvo de vandalismo esta quinta-feira. Através de uma publicação no Facebook, a autarquia reforça que “todos os atos de vandalismo contra o património coletivo da cidade são inadmissíveis”.

Homenagem a uma extraordinária figura portuguesa

A estátua foi instalada pela Câmara Municipal de Lisboa em parceria com a Santa Casa há três anos. À época da inauguração, o edil Fernando Medina desejou que se tratasse "do primeiro de vários seguimentos públicos de recuperação e elevação dessa extraordinária figura portuguesa." Para Medina, tratava-se então de uma homenagem fundamental a “uma das maiores personalidades do pensamento” português até agora sem "a devida expressão de reconhecimento” na cidade.

“Trata-se da primeira estátua erigida em Lisboa ao conhecido clérigo jesuíta, nascido na capital portuguesa em 1608 e falecido na Baía, Brasil, em 1697”, esclareceu em 2017 a Câmara Municipal sobre o monumento. A Câmara Municipal de Lisboa assumia desta forma, segundo Medina, “a sua obrigação com a História”.