Sociedade

Célula portuguesa de Leyton. Há um nome novo investigado pelo Ministério Público

17 dezembro 2019 15:52

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Um dos oito jiadistas portugueses acusados de terrorismo

d.r.

Autoridades portuguesas acusaram oito jiadistas que operavam entre Londres e a linha de Sintra por crimes de terrorismo. Cinco estão dados como mortos ou desaparecidos na Síria, um foi preso pelos curdos, outro encontra-se em preventiva em Monsanto e há um em liberdade

17 dezembro 2019 15:52

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

O nome de Cassimo Turé é a novidade entre o grupo de portugueses investigados pelas autoridades portuguesas e inglesas de contra-terrorismo. O suspeito vive em Londres e é irmão de Sadjo Turé, um dos elementos já conhecidos da chamada célula de Leyton, que recrutou jovens muçulmanos para combater pelo autodenominado Estado Islâmico (Daesh). De acordo com o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), Cassimo Turé foi interrogado em Portugal já este ano e não se encontra em prisão preventiva.

Esta terça-feira, a revista "Sábado" noticiou que o Ministério Público português acusou oito portugueses de crimes de adesão e apoio a organização terrorista, recrutamento para organização terrorista e financiamento do terrorismo. Uma informação já confirmada pelo Expresso por fonte judicial. Trata-se de Nero Saraiva, Fábio Poças, Edgar, Celso e Rómulo Rodrigues da Costa, Sandro Monteiro, Sadjo e Cassimo Ture.

O DCIAP revela que se investigou a atividade de um grupo de cidadãos de nacionalidade portuguesa, convertidos ao Islão e que se radicalizaram, vindo a integrar a organização terrorista islâmica autodenominada Estado Islâmico. "O processo foi instaurado em 2013, na sequência de informação das Autoridades Britânicas, na qual se dava conta do envolvimento de cidadãos portugueses no rapto de dois jornalistas, um britânico, John Cantlie, e outro holandês, Jeroen Oerlemens, ocorrido na Síria em julho de 2012."

O DCIAP acrescenta ainda que através da investigação sistemática ao longo de seis anos, foi possível descrever e reconstruir, do ponto de vista criminal, mas também histórico e sociológico, a radicalização organizada desse grupo de indivíduos de nacionalidade portuguesa e a sua deslocalização para a Síria, com as suas mulheres e filhos, a fim de integrarem as fileiras do Estado Islâmico e cumprirem a Jihad.

Este grupo foi responsável pelo recrutamento de cerca de uma dezena de jovens ingleses que passaram por Lisboa antes de rumarem à Síria para se alistarem naquele exército terrorista, entre 2011 e 2012.

Há seis meses, Rómulo Rodrigues da Costa, irmão mais velho de Celso e Edgar, foi detido em Sintra por crimes relacionados com propaganda terrorista numa operação conjunta com a Unidade Nacional de Contra-Terrorismo da Polícia Judiciária. O imigrante português, um produtor musical de hip hop na zona leste de Londres, está a cumprir prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Monsanto.

Na capital inglesa, Rómulo teria duas identidades distintas: a de produtor de música e também de recrutador para a organização terrorista.

Em abril de 2014, o Expresso falou com ele na escadaria da estação ferroviária de Stratford, na zona Leste da capital inglesa. Naquela altura, Rómulo incentivava nas redes sociais a presença dos dois irmãos, bem como de outros elementos da chamada "célula de Leyton", no teatro de guerra na Síria.

Durante a conversa, recusou-se a revelar onde se encontravam Edgar e Celso e negou que pertencessem ao Daesh, apesar de ser evidente pelas fotografias e vídeos partilhados pelos irmãos no Facebook. Acabou por defender em abstrato os apoiantes de um "Islão diferente", sem avançar pormenores. Mas dizia sentir-se bem a trabalhar e a viver em Londres, não equacionando juntar-se a nenhum movimento radical.

Nos meses seguintes, chegou a ameaçar o Expresso devido à publicação de várias reportagens sobre a presença portuguesa no califado. Garantia que Celso e Edgar se encontravam a trabalhar no Dubai mas que estavam incontactáveis.

O Expresso sabe que nessa altura foi interrogado pelas autoridades britânicas que combatem o terrorismo. Mas nunca terá sido detido ou constituído arguido.

O apartamento da família em Massamá é vigiado pela PJ e SIS há vários anos. Suspeita-se que tenha acolhido alguns dos dez jiadistas britânicos que passaram por Lisboa antes de rumarem à Turquia e depois para a Síria, tal como o Expresso noticiou em primeira mão. O papel dos três irmãos nessas rotas ilegais para a Jihad terá sido preponderante.

Massamá, Monte Abraão e Mem Martins. Estas três localidades eram as zonas onde ficam os apartamentos que receberam nessa altura jovens britânicos antes de seguirem para combate na Síria. Iam sozinhos, com apenas uma mala de roupa na mão.

Rómulo e Cassimo Ture foram os únicos dos oito que não viajaram para o autodenominado califado. Além deles, deste grupo de jiadistas só estará vivo Nero Saraiva, detido por tropas curdas na Síria. Os outros estão dados como mortos ou desaparecidos no médio oriente.