Sociedade

“Senti nojo do assalto de André Ventura à manifestação”, diz o ex-dirigente sindical da PSP que denunciou racismo nas polícias

26 novembro 2019 15:13

Manuel Morais, agente da PSP e ex vice-presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia

Manuel Morais, ex-vice-presidente do maior sindicato da PSP, esteve na manifestação dos polícias, mas a trabalhar. Afasta-se do Movimento Zero, cujo anonimato serve apenas para “os responsáveis se desresponsabilizarem”, e está preocupado com o que aí vem

26 novembro 2019 15:13

Terem passado cinco dias desde a manifestação de polícias não significa que ela tenha acabado. Depois de as autoridades terem revelado preocupações com a infiltração do Chega! no Movimento 0 (M0), que ficou com o papel principal do protesto organizado pelos sindicatos da PSP e da GNR, agora é Manuel Morais a sublinhar o alarme. Durante 30 anos vice-presidente da ASPP (Associação Sindical dos Profissionais da Polícia), o maior sindicato da classe, demitiu-se no ano passado após ter alertado, numa tese de mestrado, para a existência de racismo nas polícias. Desta vez, Manuel Morais esteve na manifestação, mas a trabalhar, o que lhe permitiu ver o protesto de fora. “Senti nojo. Houve um assalto de Ventura à manifestação, o que não é admiração para ninguém atento”, frisa ao Expresso. “Se este é o caminho, preocupa-me muito.”

Instado a comentar a notícia do Expresso sobre as ideias do Chega! estarem a ser bem recebidas entre muitos elementos da PSP e da GNR, muitos deles parte do M0, Manuel Morais não mostra surpresa. “Claro que estão. Os polícias sentem-se empolgados com estas ideias, que vão passando.” São elas “castigar mais quem comete um crime, culpar imigrantes, são as ideias que já todos conhecem”, elenca. E André Ventura “aproveita isto muito bem”. Manuel Morais vai pontuando a conversa com a frase: “falo apenas na condição de cidadão atento e preocupado”.

Os responsáveis pelo M0, que falam sempre de forma anónima, recusam a ideia de que são extremistas, assim como Ventura recusa colar-se a eles — diz que não sabe quem são. Porém, lembra Manuel Morais, “quando na manifestação apareceu o Telmo Correia [deputado do CDS], ninguém ligou. Quando apareceu o André Ventura, que nunca fez nada na vida, parecia que tinha chegado Deus.” O deputado único do Chega! esforçou-se por dizer que tudo foi “espontâneo”, mas há quem não acredite. “Ele tinha avisado que ia lá estar, era mais do que óbvio. Como é que os sindicatos não perceberam que ia acontecer?”, pergunta o ex-sindicalista. Alguns dos responsáveis até reagiram, como César Nogueira, presidente da Associação dos Profissionais da Guarda, que considerou “um erro” Ventura ter tomado a dianteira “numa manifestação apartidária”. Para Morais, “reagir depois de acontecer é tarde demais”.

Alguns agentes “nem sabem no que se estão a meter”

No sábado, o Expresso noticiou que a relação entre o M0 e o Chega! é tida pelas forças de segurança como “muito próxima”. Alguns dos líderes informais do M0 estão ligados ao partido de André Ventura — pelo menos um deles fez parte das listas do Chega! nas últimas legislativas — ou são membros da chamada direita nacionalista.

A colagem das forças policiais às ideias ultranacionalistas e de extrema-direita não é uma evidência para Manuel Morais, que estudou a atuação policial em zonas urbanas sensíveis, no âmbito da tese de mestrado acima citada. Também antropólogo, o agente acredita que muitos colegas “nem sabem no que se estão a meter” ao juntar-se ao M0 e ao aceitar a ligação ao Chega!. Estão longe de movimentos radicais ou de ideias extremistas. Sentem-se, simplesmente, “atraídos pela promessa de mais poder”. Outros não só estão próximos dessas ideias como parecem estar a ‘profissionalizar-se’. “São mais discretos”, explica Manuel Morais. “Antes ia-se ao perfil de Facebook deles e viam-se logo símbolos, frases nacionalistas. Agora têm cuidado. Há muitos apelos [dos responsáveis do M0] à discrição. Mas a ideologia continua lá.” Para o agente da PSP, o Movimento Zero não é nada além de uma forma de “desresponsabilização”, porque permite “dizer tudo e depois despir o fato”, sempre sob a capa do anonimato.

Manuel Morais faz questão de lembrar que não é o único a pensar dessa forma. “Estamos em minoria”, crê, mas não vê nas polícias nada diferente do que vê na sociedade. “As pessoas esqueceram-se do mal que certos movimentos nos fizeram. A falta de solidariedade, de preocupação com os problemas do outro, é transversal e é ensinada em casa.” Para Manuel Morais, “aquela ideia de que os impostos servem para pagar a pessoas que não fazem nada e passam o dia no café é como um credo.”

Atualmente desligado de qualquer atividade sindical, o agente avança que não participará em mais nenhuma manifestação, a não ser em trabalho. “Já fiz todas as manifestações que tinha a fazer.” Continuará a assistir-lhes, mas “muito preocupado” com “a nova dinâmica social”. A dar corpo a essas preocupações está o facto de um grupo sem rosto, “um grupo qualquer de indivíduos, sem formação de coisa nenhuma, conseguir direitos que os sindicatos, em 30 anos, não conseguiram”. Dá como exemplo o pagamento do trabalho policial em jogos de futebol, uma causa antiga da ASSP, em que “o corpo de intervenção era o único que não recebia”, ao contrário dos stewards e de outros elementos externos ao jogo. “Este grupo conseguiu reunir com o diretor nacional [da PSP, Luís Farinha], que prometeu que o problema seria resolvido.” E já está: “Agora, nos dias de reforço, em que nos chamam das folgas, já vamos receber”, avança o agente. É assim que, talvez inesperadamente, Manuel Morais e André Ventura coincidem numa ideia. Explica o agente da PSP: “Isto é a morte do sindicalismo.”