Sociedade

“Devia ser proibido fumar nas praias”

4 maio 2019 14:00

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Catarina Gonçalves Coordenadora nacional do programa Bandeira Azul

foto antónio pedro ferreira

Catarina Gonçalves, Coordenadora nacional do programa Bandeira Azul, diz que as beatas são um problema grave do lixo marinho, não só pela quantidade mas também pela dificuldade de serem recolhidas e pelo impacto na fauna e plâncton marinho

4 maio 2019 14:00

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

As praias com Bandeira Azul continuam a aumentar em Portugal. Contam-se este ano 352, mais 20 do que no ano anterior e quase o quíntuplo das atribuídas em 1987 (ver lista em expresso.pt - Bandeira Azul 2019: veja se a sua praia é uma das 352 premiadas). Desde então muito se investiu no tratamento de águas residuais, na requalificação de praias e na educação ambiental, permitindo assim que mais de metade das praias designadas como aptas para banhos possam erguer o símbolo de excelência balnear. O Expresso falou com Catarina Gonçalves, coordenadora do programa Bandeira Azul, sobre esta evolução, sobre o flagelo das beatas de cigarro nas praias e sobre quando se prevê que seja possível ir a banhos em Lisboa.

Passaram-se 32 anos desde que se ergueram as primeiras Bandeiras Azuis e o número de praias galardoadas cresce todos os anos. Que balanço faz?

Têm sido 32 anos sempre a crescer e isso deve-se, sobretudo, à melhoria da qualidade da água dos nossos rios e ribeiros e ao investimento feito nas estações de tratamento de águas residuais e na requalificação de praias ao longo da nossa costa. Os municípios têm também uma maior perceção da importância das questões económica, social e ambiental da nossa costa, tendo em conta a exposição de Portugal à erosão costeira.

Ao erguerem a BA, os municípios querem mostrar o investimento feito nas praias e no tratamento de esgotos?

É uma forma de mostrar e ver reconhecido esse esforço.

Há critérios novos em 2019 ou apenas um maior controlo dos já existentes?

Não há novos critérios, há é mais exigência, já que alguns deixaram de servir apenas de guia e passaram a ser obrigatórios, nomeadamente os relacionados com a preocupação de reduzir o lixo marinho, sobretudo o que vai parar ao mar vindo de outras fontes que não a praia.

Os concessionários estão a demonstrar maior empenho em acabar com os plásticos descartáveis, como copos ou palhinhas?

Os concessionários e os nadadores-salvadores são os que estão mais presentes e, obviamente, têm de zelar pela limpeza da praia e pela sensibilização e educação das pessoas naquele espaço. Vão ser distribuídos mil kits com informação sobre condutas sustentáveis. Alguns concessionários já reduziram a disponibilização de plásticos descartáveis, por exemplo só dando palhinhas se forem pedidas. Mas o maior problema nas praias são as beatas dos cigarros. Não só as que são deixadas nas praias, mas também as que lá chegam pelas águas pluviais.

A Câmara de Lisboa quer multar quem deitar beatas para o chão. A UE equaciona uma diretiva que visa proibir que se fume nas praias. Já há praias em Espanha e Itália onde é proibido fumar. Devia ser proibido fumar nas praias?

Acho que devia ser proibido fumar nas praias. Mas praias sem fumo podem chamar a atenção para o problema, mas não o resolvem de raiz. As beatas são um problema grave do lixo marinho, não só pela quantidade mas também pela dificuldade de serem recolhidas e pelo impacto na fauna e plâncton marinho. Esta é uma questão comportamental e de educação dos fumadores não só na praia, mas fundamentalmente nos centros urbanos. É exatamente aqui que reside o grave problema, pois a deposição de milhares de beatas no chão leva-as para as sarjetas... que é onde começa o mar!

Concelhos como Cascais e Sintra deixaram de concorrer à Bandeira Azul. Porquê?

Esses concelhos, assim como o da Marinha Grande, deixaram de apresentar candidaturas. Creio que optam por não candidatar nenhuma praia, quando não podem candidatar a totalidade, devido a questões de política interna.

No caso de Cascais houve um litígio quanto aos critérios, porque tiveram praias que perderam o galardão porque nelas desaguam ribeiras que, quando chove, podem arrastar detritos ou águas residuais não tratadas por não estarem ligadas à rede…

Não lhe chamo litígio. Em Cascais ainda não conseguiram controlar todas as descargas clandestinas e quando chove as águas balneares são afetadas. Na Marinha Grande há o eterno problema da Ribeira dos Milagres. No caso de Sintra, que já não se candidata há 10 anos, a razão inicial prendeu-se com atrasos na obra nas arribas do Magoito, que colocavam em risco a segurança da praia.

A BA aproxima-se de Lisboa. A praia de Santo Amaro de Oeiras é a mais próxima. É um bom sinal?

É muito bom sinal ter grandes centros urbanos a erguer a BA. Significa que o tratamento das águas residuais está a funcionar.

Quando se poderá ir a banhos no Cais das Colunas ou em Belém?

É complicado transformar o Cais das Colunas numa zona balnear devido a questões de segurança, com os barcos a passar por ali. Não é preciso areia para ter uma zona de banhos, mas apontaria mais essa possibilidade para os lados de Belém... Mas os requisitos para que isso seja possível estão longe de ser reunidos. Mais facilmente se chegará a eles em zonas do Seixal ou do Barreiro.