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Os adolescentes portugueses vivem numa bolha de felicidade. Que pode rebentar

Completa este ano duas décadas e é o estudo mais aprofundado sobre os comportamentos dos adolescentes portugueses. O Health Behaviour in School-aged Children mostra um quadro positivo, mas ainda com muito para resolver. Na idade que apavora os pais, os riscos escondidos no armário nem sempre são os mais visíveis

RUSS ROHDE

É o mais completo retrato feito sobre os adolescentes portugueses, sob a chancela da Organização Mundial da Saúde. Chama-se Health Behaviour in School-aged Children (HBSC) e nele participam 44 países. Em Portugal é realizado desde 1998, e a ritmo quadrienal, pela equipa Aventura Social, da Faculdade de Motricidade Humana. E os resultados de 2018, divulgados esta quarta-feira, refletem as impressões de 6997 jovens do 6.º, 8.º e 10.º anos, provenientes de 42 agrupamentos de escolas, sobre assuntos tão diversos como a família, a escola, a sexualidade, a saúde, o consumo de substâncias, a participação social, os tempos livres, as amizades e as plataformas digitais.

“Ao longo destas seis séries, houve anos em que me alarmei e anos em que fui respirando fundo. Anos em que me entristeci, como 2014, com as consequências da recessão a nível do mal-estar e da desesperança. Houve também anos em que nos congratulámos com a evolução em geral, como 2010, anos em que nos alarmámos com as autolesões, como 2010 e 2014, este último também o ano em que nos deparamos com o aumento da fome”, resume Margarida Gaspar de Matos, a coordenadora do estudo. E 2018?

Houve pontos positivos, como “a abertura dos adolescentes à diversidade e aos outros”, uma orientação diferente da que se sente noutros pontos da Europa e do mundo. Há um esboço “demasiado ligeiro”, diz a psicóloga, “de interesse por um estilo de vida ativo”. Há um esforço para uma alimentação saudável que está equilibrado a nível das famílias e desequilibrado no que toca às refeições nas escolas. Há jovens a consumir menos tabaco e drogas.

E há - do outro lado do espelho – um desinteresse generalizado dos jovens face à participação social e à cidadania ativa, uma escassa perceção do seu papel enquanto agentes de mudança, “queixas de mal-estar físico e exaustão”, problemas de sono, poucas noções de profilaxia sexual, manutenção dos comportamentos autolesivos, descontentamento com a escola. Existem igualmente “percentagens baixas mas alarmantes, como a que diz respeito ao aumento de jovens que referem ir para a cama ou para a escola com fome.”

Um olhar global aponta para um alto índice de felicidade e uma perceção de boa saúde. Porém, “é também verdade que, por cada 80% de jovens que têm poucos ou nenhuns problemas, encontramos cerca de 20% que precisam de atenção especializada, o que representa um em cada cinco”, sublinha Margarida Gaspar de Matos. “Estes 20% incluem 5% com problemas mesmo sérios, o que do ponto de vista das políticas aponta para uma enorme necessidade de medidas preventivas e promocionais que apoiem os jovens na prevenção de comportamentos lesivos da sua saúde.”

Isto num quadro em que o Serviço Nacional de Saúde “não está preparado” para atender os problemas dos adolescentes e num contexto em que “os esforços da educação para a saúde nas escolas diminuíram - em especial durante o ministério liderado por Nuno Crato -, sendo substituídos pelo foco nas competências científicas e matemáticas”. Nesta edição do HBSC, o retrato não se mostra de imediato e é necessário ultrapassar as primeiras impressões. Congratular-se com a maioria de jovens que se afirmam felizes e, de seguida, contrapor-lhes uma lupa. O que se revela então é um quadro menos regular, “que piora com a idade”. E uma passividade cívica “alarmante” a revelar a desconfiança e o desinvestimento dos jovens nas instituições.

Mas nem tudo está perdido. Como refere Margarida Gaspar de Matos, “esta é uma aposta numa geração de jovens genericamente responsáveis, ativos, autónomos, saudáveis, diversos, flexíveis e felizes, pelo que me parece uma boa base de trabalho e um bom desafio civilizacional”.

Uma bolha de felicidade, onde cabem 81,7% dos jovens inquiridos em Portugal. É assim, em tons de satisfação, que abre o primeiro ponto do primeiro capítulo do Health Behaviour in School-aged Children. Mas é preciso ir para lá da película da bolha para perceber que esta não é uma sensação de felicidade plena: afinal, há jovens que se queixam de depressão, aqueles a quem as preocupações surgem várias vezes ao dia (14,2%) e 16,2% disseram mesmo que quase nunca são capazes de controlar situações importantes da vida. E se há 10,4% que dizem que não se preocupam com nada, há 21,8% que têm uma preocupação intensa que não os larga. Uma bolha flutuante, portanto, que vai sendo apertada lentamente.

"Surpreendida não estou... nem especialmente satisfeita, mas também não especialmente preocupada. Vamos estar atentos e transformar estes resultados em ações preventivas que possam tornar a vida dos jovens melhor e mais visível", promete a coordenadora do estudo.

Sentindo-se apoiados pelas famílias, 85,5% dos jovens portugueses preferem conversar com as mães e 25% consideram difícil exporem as suas dúvidas e problemas aos pais. Padrastos e madrastas são figuras praticamente ausentes. E que pais são esses que os apoiam e ouvem? A maioria não tem mais do que o secundário (56,3% dos pais e 59,3% das mães), com 32,8% deles e 29,1% delas a não ultrapassarem nem mesmo o nono ano. A maciça maioria está empregada (88,5% dos pais e 85,5% das mães) e as famílias vivem juntas na mesma casa (71,7%), embora 36,3% digam que vivem com as mães e que "raramente ou nunca" veem os pais.

Quando 70,4% dos adolescentes dizem que gostam da escola, 80,3% sentem-se lá sempre seguros e dizem que o pior problema que conseguem encontrar é a comida no refeitório (58,3%), há que voltar à metáfora da bolha: 31,4% assumem sentir "alguma pressão com os trabalhos" académicos. Nada que impeça os adolescentes de manterem os olhos postos num futuro que, dizem eles, passa pela continuação dos estudos e o ingresso no ensino superior (54,8%). "Há um esforço a ser incentivado a nível da ligação dos jovens à escola no que diz respeito às matérias escolares e ao stress associado às aulas, à escola, às avaliações", alerta Gaspar de Matos.

Quem os ouvir, construirá a imagem de portugueses muito sociáveis e abertos. Afinal, 73,6% dizem que é fácil ou muito fácil fazer amigos e 65,9% dizem que todos os amigos são reais, daqueles que dá para estender a mão e agarrar, se for necessário. Mas, sobretudo, são amigos para partilhar emoções e quotidianos, com 68,2% a afirmarem que passam juntos pelo menos dois dias por semana, depois das aulas. A fazer o quê? Várias horas por dia a usar o telemóvel (56,6%) ou a ouvir música (46,9%). Há aqueles que todos ou quase todos os dias estão ao computador (29,8%) ou pura e simplesmente a não fazer nada (19,8%). O pior é que mais de metade dos jovens inquiridos não lê. Mas têm uma vida social intensa e ativa, limitada apenas pelo bem mais raro da atualidade: o tempo (50,7%).

Saudáveis (87,4% dizem gozar de excelente ou de boa saúde), os adolescente portugueses assumem que o seu pior problema são as desagradáveis alergias (42,2%). Mas é também preocupante pensar que 15% sofre de doenças prolongadas e que, destes, 60,3% afirmam ter necessidade de tomar medicação. Dizem que dormem bem (94,6%) e gostam tanto da caminha que lhes custa acordar de manhã (86,3%). Deitam-se cedo (a média é às 21h21) e não se levantam tão cedo quanto isso (7h26). Mas, afinal, alguns sofrem de dores nas costas (43,5%), do pescoço e dos ombros (39,7%) ou de cabeça (40%). E mesmo não tendo medo (64,5%), muitos andam tristes (49,9%), irritados ou de mal humor (60,2%), ou nervosos (62,8%). "Do ponto de vista das políticas públicas, o estudo aponta para uma enorme necessidade de medidas preventivas e promocionais que abranjam de modo genérico toda a população jovem", conclui a coordenadora do estudo.

O assunto é sério, mas as perspetivas são positivas. Houve uma diminuição muito grande dos números registados da prática de bullying, em que 90% dos jovens dizem nunca terem provocado esta agressão sobre os colegas - contra 69,1% em 2014. Por sua vez, 81,2% afirmam nunca terem sido vítimas - em 2014 esta percentagem situava-se nos 61,3%. E se o ciberbullying também ainda não representa um problema significativo, há no entanto que ter em atenção o incremento das lutas entre os adolescentes, com 27,4% a admitir terem-se envolvido em disputas físicas mais do que uma vez no último ano. Mas o que realmente continua a preocupar Gaspar de Matos são os comportamentos autolesivos, já que 19,6% dos jovens assumem ter-se magoado a si próprios pelo menos uma vez.

Entre 2014 e 2018, os adolescentes portugueses recuaram na idade da iniciação sexual – de 14,2 anos para uma média de 14,5. E se as razões para tal “poderiam prender-se com uma educação para a saúde dissuasora”, Margarida Gaspar de Matos não está disso convencida. Para a coordenadora, trata-se de uma tendência ligada à “forte componente virtual” da atual cultura juvenil, que pode ter “abrandado o interesse pela sexualidade”.

75% dos jovens não mantinham um relacionamento amoroso durante o inquérito e 88,5% afirmaram não ter tido relações sexuais. Entre os que já as tiveram, 63% iniciaram-se sexualmente com 14 ou mais anos. A contrapartida é alarmante: 36,8% tiveram a primeira relação sexual em idades inferiores aos 13 anos.

Por outro lado, a percentagem de jovens que utilizam o preservativo diminuiu entre 2014 e 2018, de 70,4% para 66,7% - enquanto o uso da pílula registou uma adesão levemente superior, dos 31% para os 34%. “Isto é preocupante, sobretudo se o associarmos à elevada prevalência de infeções em Portugal nestes escalões etários e o facto de eles serem muito pouco conhecedores de medidas de rastreio e prevenção”, confessa Gaspar de Matos. Apenas 49,4% dos adolescentes inquiridos fez alguma vez um teste de VIH, e 26% respondeu não saber sequer o que isso é.

Os jovens portugueses são bons desportistas: mais de metade dos inquiridos diz praticar desporto entre um a três dias por semana. Preferem o futebol e o futsal, seguidos da natação, basquetebol, ginástica e voleibol. E enquanto 80,5% tomam banho a seguir ao treino, 19,5% nem sempre o faz. Porém, em geral, mostram cuidados com a higiene: 86,4% afirmam tomarem banho pelo menos uma vez por dia. A perceção do corpo é, para 54,7%, “ideal”, embora uns 30% se queixem de excesso de peso. Mais de 70% tomam o pequeno-almoço e 45,3% comem fruta diariamente, enquanto 50% só comem vegetais uma vez por semana. No meio de um quadro positivo, existe uma percentagem reveladora que nem tudo anda bem: 11% dos jovens – em especial do 8.º ano - revelaram ir para a escola e para a cama com fome.

A juventude portuguesa raramente fuma – 93,7% responderam “eu não fumo”, mais um ponto percentual do que em 2014 – e consome pouco álcool - com acima de 90% a dizerem que não bebem vinho nem cerveja. Também os níveis de uso de drogas são baixos, com 96% a afirmarem não ter consumido drogas ilegais no último mês. Entre os que experimentaram algum tipo de droga ou substância, a canábis revelou-se a mais popular.

Mas não se pense que os adolescentes vivem sem dependências. O tempo passado nas redes sociais é um dos temas que mais provocam discussões com a família, os amigos e o namorado/a. "Não fazer nada ou preguiçar" é o seguinte (61,8%) e "surfar na internet" não lhe fica atrás (56,7%).

O mundo digital é, sem dúvida, o mundo que maioritariamente preenche o tempo dos adolescentes portugueses. 60,8% conversam online várias vezes por dia com os amigos chegados e 35,7% admitem ter amigos que apenas conhecem por meio da internet. As redes sociais servem regularmente para “fugir de sentimentos negativos” (28,6%). E 26% tentara passar menos tempo online sem o conseguir. Tanto durante a semana como aos fins-de-semana, a presença online mantém-se estável: os adolescentes não dispensam a partilha e a consulta no Instagram, o visionamento de vídeos no YouTube e a troca de mensagens por WhatsApp.

Esta foi uma das grandes surpresas do estudo: o perfil de “apatia, descrença, descrédito, desilusão ou desinteresse”, nas palavras de Margarida Gaspar de Matos, que se desenha entre os adolescentes portugueses no que diz respeito a questões de cidadania ativa, participação social e associativismo. Quando questionados sobre a probabilidade de virem a envolver-se em “assuntos relacionados com a saúde ou a segurança que afetem a comunidade”, 54,6% responderam ser “pouco provável”. Da mesma forma, 52,5% dizem não considerarem a hipótese de vir a trabalhar num grupo em prol da comunidade onde vivem, e 47,2% não tencionam fazer trabalho voluntário. Na vida diária, 52% rejeitam a ideia de ler um jornal para ficar informado e 46,6% não se mostram interessados em falar com os pais sobre assuntos políticos ou sociais. Por outro lado, há 40% dos jovens que referem ter dificuldade em abordar pessoas desconhecidas. O estudo apresenta também uma janela de esperança: 52% atribuem aos outros um significado importante, 49,6% afirmam ser bom pertencer a uma comunidade e 46,8% dizem que fazer parte de um grupo social é contribuir “sem esperar nada em troca”.

“Este é um dos nossos pontos fortes, de que nos devemos orgulhar”, afirma Margarida Gaspar de Matos. Porque a perceção dos jovens portugueses relativamente à diversidade cultural não podia ser mais positiva: 80,8% dizem ter amigos de outras nacionalidades, 68,5% revelam curiosidade em relação a outras culturas e 92% são a favor da igualdade de oportunidades para todos os que residem em solo nacional. De realçar que 86,7% dos adolescentes inquiridos consideram que os imigrantes residentes em Portugal devem poder manter os seus costumes e estilos de vida, e 86% defendem a diversidade linguística.

Num contexto europeu de endurecimento face às migrações, a discriminação em Portugal é residual. Mesmo assim, 8,5% afirmaram terem-na sentido por parte de outros alunos da escola e 8,2% por parte dos professores. Há 10% de adolescentes que reconhecem terem discriminado ou terem sido alvo de discriminação, em especial pelo país de origem deles ou dos pais.