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“A Ucrânia está em ruínas e assim estará por muitos anos”, diz Oksana Lyniv, vencedora do Prémio Helena Vaz da Silva

Formou-se em Lviv, trabalhou em Odessa e Dresden. Em 2021, foi a primeira mulher a dirigir no Festival de Bayreuth e a tornar-se diretora musical de uma casa de ópera italiana. A ucraniana venceu este ano o Prémio Helena Vaz da Silva, promovido pelo Centro Nacional de Cultura e entregue esta quinta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa

24 novembro 2022 10:18

Luciana Leiderfarb

Luciana Leiderfarb

entrevista

Jornalista

Quando ganhou o Prémio Helena Vaz da Silva, falou do papel dos artistas numa guerra. Qual é?

No início da guerra, fez-se logo a pergunta sobre se a arte é ou não política, se pode estar fora da política. Isto é muito complexo, porque a resposta é, ao mesmo tempo, ‘sim’ e ‘não’. Quando olhamos para a história da cultura, e estudamos as obras e o contexto em que foram criadas, vemos que os grandes artistas — Michelangelo, Mozart ou Beethoven — agiram dentro de uma sociedade, por vezes uns passos à frente dela. E é impressionante como foram capazes de pressentir o futuro ou os grandes cataclismos (veja-se o exemplo da Escola de Viena, de Gustav Mahler). Penso que as grandes obras nasceram para ser mensagens ou alertas fortes à sociedade. Não surgiram apenas para entreter: são canais para comunicar algo de importante. Hoje, a arte e os artistas continuam a ter esse papel, embora exista o problema de poderem ser usados para fins de propaganda.

Existem colegas seus nessa posição?

O maestro russo Valery Gergiev tornou-se uma bandeira do regime ditatorial de Putin. Como ele, há artistas de grande talento, nos quais o Estado russo investiu dinheiro, como estratégia de longo prazo para os converter em lacaios da sua ideologia imperialista. Para mim, os artistas têm de importar-se com serem livres mental e politicamente. Porque só quem é livre pode pensar na direção do humanismo e da verdade.

Testemunhou o fim da União Soviética e viu a Ucrânia tornar-se independente. Que memória guarda dessa transição?

No tempo soviético, lembro-me de viver duas vidas diferentes: uma em casa e outra no espaço público. Como criança, sabia que havia coisas de que não podia falar na escola. Por exemplo, na URSS estava proibido celebrar a Páscoa ou o Natal. E a minha avó era uma pessoa muito religiosa. Como era também professora, obrigavam-na a ficar em frente à igreja e a elaborar uma lista das famílias que iam à missa. Ela tinha que os denunciar. Na minha família, o batismo foi privado, assim como as celebrações religiosas. O meu avô era maestro no coro da igreja numa pequena vila da região da Carpátia, pouco vigiada pelo regime. Mas nunca me deixaram vê-lo a dirigir. Em 1991, no final do verão, recordo-me perfeitamente de estar no jardim a brincar e de ver a minha avó chorar e a dizer: “A Ucrânia é independente.” A partir desse dia nunca mais tive uma vida dupla.

O que sente perante a invasão russa?

É arrasador. Durante 30 anos, esforçamo-nos por descobrir o passado ucraniano — cujo conhecimento nos fora vedado, assim como a herança cultural — e por mostrar ao mundo o que estava escondido por baixo da era soviética. Estou desde 2005 no ocidente, mas nunca quebrei os laços com a Ucrânia, e sempre tentei ser uma força ativa nessa divulgação cultural. Tenho dois grandes projetos: o Festival Mozart de Lviv e a Orquestra de Jovens da Ucrânia, que se dedica a esbater a divisão este-oeste que existe dentro do próprio país. É um projeto maravilhoso, mas de repente, a 24 de fevereiro, com a invasão russa, a vida destes jovens ficou rasgada ao meio. Foi um desastre. É difícil acreditar em tanta agressividade, porque esta guerra não começou por causa de uma região ou de uma fronteira.

Começou porquê?

Pelo ódio, para matar e para destruir uma nação. Desde o início Putin disse que não existe uma nação ucraniana, uma lingua, uma cultura.

“Há nove meses que duas famílias de Kharkiv estão a viver no meu apartamento. A guerra continua, é importante que o ocidente não se canse deste assunto”

Tem família na Ucrânia?

Toda a minha família está lá, menos o meu marido, que é violinista na Orquestra Sinfónica de Düsseldorf. Visitaram-me em Bolonha para a minha primeira produção, durante dez dias, o que foi muito bonito. Mas voltaram para a Ucrânia, porque desde o início da guerra acolheram várias famílias de refugiados — neste momento têm cinco famílias com crianças pequenas em casa. Há nove meses que duas famílias de Kharkiv estão a viver no meu apartamento. A guerra continua, as pessoas continuam deslocadas, há crianças mutiladas, gente que perdeu tudo. É importante que o ocidente não se canse deste assunto. A Ucrânia está em ruínas e assim estará por muitos anos.

Vem de uma família de músicos e estudou piano, flauta, violino e canto, certo?

Quando era criança, interessava-me muito o design de moda. Mas venho de uma família em que o canto, sobretudo, fazia parte da nossa tradição. O meu pai é maestro de coro e a minha mãe professora de piano e pianista em vários conjuntos de câmara. Via-os sempre a ensaiar. Passei a infância mergulhada nesse ambiente.

“Não fazia ideia de que as mulheres podiam ser maestrinas. Quando ouvi pela primeira vez que isso era permitido, fiquei muito admirada. Também me surpreendeu que, sendo possível, poucas mulheres o quisessem”

E quando lhe ocorreu que podia ser maestrina?

Como profissão, aos 18 anos, embora já tivesse dirigido a orquestra de estudantes da minha academia, em Lviv. Mas não fazia ideia de que as mulheres podiam ser maestrinas. Quando ouvi pela primeira vez que isso era permitido, fiquei muito admirada. Também me surpreendeu que, sendo possível, poucas mulheres o quisessem. Quando obtive o diploma da Academia de Música de Lviv, concorri ao Concurso Gustav Mahler em 2004 e ganhei o terceiro prémio. Depois disto, prossegui a minha formação em Dresden, na Alemanha. O primeiro convite para um cargo fixo veio da Ópera Nacional de Odessa, como maestrina assistente, onde trabalhei durante cinco anos muito produtivos.

Esteve na Ópera do Estado da Bavária, como assistente de Kirill Petrenko. Como foi essa experiência?

Foi fantástica, e uma grande oportunidade para vir para a Europa ocidental, especialmente para Munique — que é a cidade de Wagner, de Richard Strauss. Por outro lado, pude estrear-me como regente de ópera a um nível internacional.

Foi das primeiras maestrinas a incluir compositores ucranianos nos concertos alemães.

Sim, tento fazê-lo constantemente. Primeiro na Alemanha e agora em Itália, onde trabalho há um ano. Tornou-se um pouco a minha imagem de marca, e de alguma forma quem me convida sabe que essa é uma proposta que irei fazer. E neste momento já há compositores ucranianos que escrevem peças para mim. No final de novembro, por exemplo, haverá um concerto em Paris cujo tema será Odessa, e para o qual a Orquestra de Jovens da Ucrânia foi convidada. Vamos levar dois violinistas de Odessa — que tem uma das maiores escolas de violino do mundo — que vão tocar uma peça especialmente composta por um compositor da cidade.

Como referiu, é diretora musical do Teatro Comunale di Bologna, a primeira mulher à frente de uma casa de ópera italiana. O que isso significa?

Também fui a primeira mulher a dirigir o Festival de Bayreuth, que é um paraíso para os músicos em geral. Em primeiro lugar, isso significa uma grande responsabilidade. Ser-se a primeira mulher tem sobretudo a ver com a qualidade do trabalho — porque dirigir bem não tem nada a ver com o género, mas com a criatividade, o talento musical e o profissionalismo. Hoje, sinto-me feliz por ter uma boa relação com a orquestra e por poder convidar outras jovens maestrinas para assistentes, trazer as novas gerações para o pódio.

Começou uma nova era para as mulheres na regência de orquestras?

Sim, sem dúvida. Penso que daqui a cinco anos ninguém vai perguntar sobre este tema. O problema irá desaparecer, porque já temos jovens maestrinas que são fantásticas.