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Gustavo Ribeiro, o melhor skater português: “Sou bom, mas estou longe do topo. Quero ainda mais”

hugo silva

Tem 21 anos, vive nos EUA e é o único português no mais importante circuito de skate. Dias 5 e 6 de novembro vai tentar conquistar o título mundial no Rio de Janeiro

27 outubro 2022 10:28

Diogo Pombo

Diogo Pombo

entrevista

Jornalista

É o único português na Street League Skateboarding, a melhor prova do mundo. Porquê?
Depende muito da cabeça de cada um. Acho que a regra fundamental para atingires os teus sonhos tem de partir da tua cabeça, do teu foco, e há nível em Portugal, há pessoas que andam muito bem de skate, têm de sair mais de Portugal e tentar coisas novas, fazer campeonatos fora. Na Europa é bom, mas se queres realmente ser alguém, infeliz ou felizmente tens de estar nos EUA. Desde os 13, 14 anos comecei a vir muito para aqui, a fazer campeonatos amadores e assim devagarinho a construir uma coisa que poucos portugueses — se calhar, só um ou dois — tentaram fazer. Talvez seja essa a razão para ser o único. Os portugueses deviam tentar um bocadinho mais, porque há nível, nós temos nível.

Não é muito barato estar a ir várias vezes por ano aos EUA. Também é uma questão de posses.
Claro que sim, mas nunca fui rico, também tive de fazer muita coisa para conseguir vir. Quando tinha 14 anos fazia muita publicidade para juntar dinheiro e fazer as minhas viagens, na altura não tinha patrocínios. Quando há algo que queres mesmo atingir vais fazer certos esforços de que precisas.

red bull

A principal diferença é a cultura que rodeia o skate?
Não é obrigatório estar nos EUA a full time, podes viver em Portugal ou em qualquer lado do mundo e ser um skater profissional. O que queria dizer é que o núcleo das marcas, os skaters profissionais, as pessoas importantes estão todos nos EUA. Quanto mais tempo passas aqui, mais contactos tens e mais as pessoas te conhecem, mais te abrem os braços e dizem: “OK, vamos ajudar-te, pôr-te a treinar para teres suporte, e vais conseguir.” Aqui acabas por ter mais oportunidades do que na Europa ou em Portugal, é a única razão para nos EUA poderes ser um bocadinho melhor.

Costuma dizer este tipo de coisas ao seu irmão gémeo, que também é skater?
Ele desde sempre que também vem muito aqui comigo! Infelizmente, sofreu uma lesão na perna e teve de ficar um ano parado, mas já está de volta a 100% e a andar melhor do que nunca, futuramente virá para aqui (risos).

Os vossos pais achavam graça, quando vocês eram miúdos, a terem os dois filhos a fazerem o mesmo?
Acho que isso ainda lhes deu mais vontade para nos quererem ajudar e mostrar que, se temos sonhos e queremos realmente alcançá-los, nós conseguimos, que nada é impossível. Eu apoiei muito o meu mano e o meu mano apoiou-me muito a mim. Arrisco a dizer que não estava onde estou hoje se não o tivesse. Apesar de estar muito menos com ele, construímos uma relação tão próxima que é quase impossível estarmos separados, mesmo estando longe um do outro. Falamos a toda a hora, andava de skate com ele a toda a hora, sempre que precisava de algo ele estava lá, sempre que ele precisava de alguma coisa eu também estava lá, é uma relação muito engraçada. Além de irmãos, somos gémeos e, às vezes, sinto coisas que ele também sente.

“A minha rotina é consistente: manter-me saudável, acordar cedo todos os dias, ir à fisioterapia e ao ginásio, estar ativo. Não gosto de fast-food, adoro cozinhar”

A vossa relação serviu para irem puxando um pelo outro e elevando o nível? Picavam-se muito?
Tenho a certeza que sim. Lembro-me, às vezes, de não querer ir andar de skate por estar mais cansado e o meu irmão dizer: “Não, tens de vir comigo.” E eu acabava por ir. Em certos momentos, se ele não estivesse lá eu não o teria feito. Estas pequenas coisas, a longo prazo, acabam sempre por acrescentar uns pontinhos.

Como conseguiu chegar a skater profissional, em 2019?
É um processo lento e que demora algum tempo, não é algo que consigas fazer em dois anos, é impossível. Tens de ter muitos anos de experiência, de ter currículo, fazer campeonatos, lançar video parts, tens de fazer connects... Basicamente, é um processo gigantesco. Tens de treinar, ser bom, ser humilde, ganhar alguns campeonatos, começar a ter patrocínios e ao fim de alguns anos começas a entrar mais no skate, passas da team (de uma marca) para ser amador e, depois, passados uns anos, quando começares a ganhar um bocadinho mais de nome, chegas a profissional quando tens uma tábua em teu nome. A partir do momento em que tens isso, podes considerar-te um skater profissional porque vendes uma tábua com o teu nome lá, os teus fãs e crianças já o podem fazer. Pode ser uma tábua como podem ser uns ténis, umas rodas, uns trucks, mas o normal quando te tornas profissional é ser primeiro uma tábua. Quando tens o teu nome pela primeira vez em alguma coisa, podes considerar-te profissional. Demora tempo, tens de ter paciência, mas, como sempre ouvimos, quem corre por gosto não cansa.

Como é que se treina no skate? É só ir para rua e andar?
Para treinar podes ir só andar de skate com os teus amigos para te divertires, mas quando realmente queres treinar para algum campeonato ou uma manobra que queiras fazer, é preciso esforço. A minha rotina é muito consistente: tentar manter-me saudável, acordar cedo todos os dias, ir à fisioterapia e ao ginásio, tentar estar sempre ativo e cozinhar em casa, porque não gosto de comer fast-food. Adoro cozinhar.

“Quando queres chegar a algum lado, tens de passar por coisas que requerem mais esforço e dedicação. E no final do dia vai ser tudo recompensado. É nisso que gosto de acreditar”

Publica muitos vídeos a cozinhar, em casa.
E ainda quero fazer mais, de facto gosto muito, dá-me muito prazer e, realmente, é essencial porque a nossa alimentação é muito importante. Em relação à pergunta anterior, gosto de, à tarde, ter um mínimo de três ou quatro horas para repetir muitas vezes as manobras e me manter consistente. Acho que a consistência é a chave e, às vezes, pode ser um bocadinho chato, não gosto de treinar quando está muita gente no skate park porque isso pode ser repetitivo e parece que não é muito divertido, mas, quando queres chegar a algum lado, tens de passar por coisas que requerem mais esforço e dedicação. E no final do dia vai ser tudo recompensado. É nisso que gosto de acreditar.

Encara o skate como uma profissão e um ganha-pão, ou vê-se como um sortudo que faz aquilo de que mais gosta?
É difícil responder. Ainda ontem estava em casa de um amigo que não via há algum tempo e ele perguntou-me: “Como é que te sentes para os Jogos Olímpicos? Porque tu vais ganhar.” E perguntei-lhe porque é que ele achava isso. Então ele disse-me que era por estar a ganhar tudo este ano. É engraçado porque eu não tenho essa opinião acerca de mim, considero que este está a ser um dos melhores anos de sempre, é um facto, mas tenho de melhorar muito mais. OK, sou bom, mas estou longe, longe do topo. Isto faz com que eu queira ainda mais, ou seja, essa pergunta fez-me lembrar disto. Sinto que estou no bom caminho, mas que ainda não cheguei lá. Tenho muito, muito mais para conseguir alcançar.

Não será um pouco a síndrome do impostor a falar?
Não sei, tenho confiança em mim, sinto que estou num caminho ótimo, que está a ser o melhor ano de sempre, de longe. Mas tenho muito mais coisas em que consigo melhorar e evoluir, que tenho muito mais para alcançar.

Há duas semanas ganhou, em Las Vegas, a terceira e última etapa da Street League e no primeiro fim de semana de novembro terá no Rio de Janeiro a Super Crown, que é a final do circuito. Sente mais pressão e responsabilidade?
Sinceramente, acho que estou mesmo supertranquilo, não me estou a querer stressar muito com a Super Crown porque sou uma pessoa um bocadinho ansiosa, mas estou numa ótima posição, diretamente nas finais e no 1º lugar do ranking. Vou tentar fazer o que faço todos os dias, estou bastante confiante, ando a treinar diariamente e tenho um ótimo pressentimento.

"O tempo é a chave, e o skate é muito do género tu tentas, e tentas, e tentas e cais e magoas-te e vais para casa chateado porque não conseguiste acertar a manobra. No dia seguinte, lá estás tu outra vez"

Ainda falta muito tempo, mas é o 3.º na qualificação para os próximos Jogos Olímpicos de 2024, em Paris. O skate só se estreou em Tóquio. Como foi o ambiente por lá?
Antes de mais, foi um bocadinho estranho, como é óbvio, por causa da covid, estávamos a lidar com tudo e havia muitas restrições, não podias sair da Aldeia Olímpica, logo por essa parte foi estranho e, ao mesmo tempo, engraçado viver aquilo tudo. Senti que não estava nos Jogos Olímpicos reais. Não podia ir ali, tinha horários, máscaras e testes covid. Em relação ao skate, acho que foi bem organizado porque o Comité Olímpico chamou pessoas que já trabalhavam com o skate há muitos anos, então essas pessoas ligaram-se com os Jogos e criaram uma comunidade, correu muito bem. Não tenho nada a apontar, tudo o que foi feito dá para melhorar da próxima vez. Não me correu da melhor maneira porque estava a recuperar de uma lesão no ombro, tinha-o deslocado três semanas antes. Ainda assim, consegui ir às finais, onde tive uma queda que me deixou um pouco de pé atrás porque tinha imensas dores no ombro.

Falando em quedas, ser skater implica que, desde cedo, se tenha literalmente que aprender a cair e a levantar. Figurativamente, isto é uma lição para a vida?
O skate é muito tentativa e erro, podes não ter o que queres nesse dia. Podes ter treinado durante três anos, mas se acordas num dia mau, o que fizeste não vai funcionar. Tens de ter paciência, e o skate, como estavas a dizer, dá para aprender muito da vida porque as pessoas querem tudo no momento e nem sempre dá para ser assim. O tempo é a chave, e o skate é muito do género tu tentas, e tentas, e tentas e cais e magoas-te e vais para casa chateado porque não conseguiste acertar a manobra. No dia seguinte, lá estás tu outra vez a cair, a cair, a cair e a ficares chateado até que, no final, vai acabar por chegar um dia em que conseguirás acertar. E, nesse dia, tudo vai fazer sentido. Acho que é um bocadinho como na vida, nem sempre é um mundo cor-de-rosa.