Passeio Público

Eddie Redmayne em entrevista: “Quero continuar a pôr-me em risco”

mike marsland/wireimage

O ator londrino contracena com Jessica Chastain em “O Enfermeiro da Noite” e tem uma interpretação notável que o pode conduzir novamente à temporada de prémios de Hollywood. Estreia-se esta quarta-feira, dia 26, na Netflix

21 outubro 2022 10:00

Conversámos com o ator britânico no último Festival de Zurique sobre o novo filme de Tobias Lindholm, inspirado no serial killer Charlie Cullen, tímido enfermeiro de New Jersey que confessou ter conduzido à morte mais de 40 pacientes ao longo de 16 anos de carreira hospitalar. Estima-se que tenha matado mais de 400 pessoas. Os 29 casos confirmados levaram-no à prisão perpétua. É um papel de uma exigência tremenda para Redmayne, o intérprete que em 2015 venceu um Óscar por “A Teoria de Tudo”.

Sabia alguma coisa da figura que interpreta em “O Enfermeiro da Noite”?

Não sabia nada. Cruzei-me pela primeira vez com a história dele ao ler o argumento de Krysty Wilson-Cairns. Ou seja, Cullen revelou-se para mim à medida que eu folheava as páginas. Quis que assim fosse, foi o que aconteceu. E fiquei em choque.

Pelo trabalho que a personagem exigia?

Nem só. O que achei intrigante foi o facto de o guião não se encaixar em nenhum género particular. Por um lado temos a história desta heroína da realidade [a enfermeira Amy LoughrenJessica Chastain] que, contra todas as probabilidades, conseguiu desmascarar o assassino e um problema gravíssimo que o sistema hospitalar não conseguia detetar. E do outro lado está Charlie, o mistério da sua existência e de tudo o que está atrás dele. Só do guião parti para o espantoso livro de Charles Graeber em que o filme se baseia [“The Good Nurse: A True Story of Medicine, Madness, and Murder”]. Foi uma revelação, uma luz na escuridão para qualquer ator. O livro detalha com extremo cuidado todo o contexto, todos os relatórios psicológicos. Amparou-me e encorajou-me a combater a ansiedade e o medo que senti antes da rodagem. Sobretudo nos últimos capítulos, em que a Amy se torna uma espécie de detetive. Esta é a parte da história que nenhum de nós ouviu sobre o caso.

Encontrou Charles Cullen, falou com ele?

Não falei com ele.

Gostaria de o ter encontrado?

Não. Para já, não seria nada fácil ter acesso [Cullen está encarcerado na Prisão Estatal de New Jersey, em Trenton, cumpre pena equivalente a 18 condenações a prisão perpétua]. Mas Charles Graeber falou com ele quando escreveu o livro. Deu-me indicações, tal como a Amy, que me serviu de guia. Foi a opção mais apropriada.

Falou de medo. Qual era o seu?

A loucura provoca o medo. É uma reação instintiva. Sobretudo quando o louco está à nossa frente. Eu tive a sorte de ser ajudado por um amigo que trabalha numa Unidade de Cuidados Intensivos americana. Por ele me apercebi da vulnerabilidade dos pacientes e da dependência extrema que têm dos enfermeiros. São eles os tradutores do que os médicos dizem num contexto mais humano. As relações emocionais de um paciente estabelecem-se quase sempre com os enfermeiros, não com os médicos. É um aspeto muito específico da vida hospitalar.

Os enfermeiros também têm de ser atores à sua maneira...

Exatamente, tocou no ponto que importa. No fim do dia voltam para casa e têm de deixar toda a tragédia de lado. E na manhã seguinte voltam ao seu trabalho, isto é: voltam a ser atores, à performance, com empatia e humanidade.

Algo que a sua personagem não deixa de ter...

É terrível pensar na figura deste homem. Nós estamos habituados a ler perfis e a ver filmes de serial killers. Mas nunca vimos um que se insurgisse contra todo o sistema. Ele nem foi necessariamente um serial killer brilhante como o Hannibal Lecter da ficção. Não há nada de fascinante nele em particular. Tudo é, pelo contrário, aterrador porque um enfermeiro é a pessoa a quem confiamos os nossos filhos ou as nossas mães quando estão a sofrer. E foi neste quadro que os assassínios ocorreram.

Stephen Hawking [“A Teoria de Tudo”], Lili Elbe [“A Rapariga Dinamarquesa”] e Charles Cullen não têm seguramente nada em comum exceto numa coisa: são pessoas. Essa existência atrai-o como ator?

Cada caso é um caso. Mas tem de haver sempre algo de tangível e de real, mesmo quando estou a interpretar o Newton Scamander de “Monstros Fantásticos”, que é uma criatura fantástica. É preciso pôr as personagens com os pés no chão para revelar o que elas têm de extremo e de interior. É um bom ponto de partida. Tal como é sempre um bom ponto de partida ter a noção de que não estamos a fazer um documentário, ou seja, aquilo que fazemos não é e nunca será real. O realizador deste filme, Tobias Lindholm, gostava de jogar um jogo durante a rodagem: se isto fosse um documentário, o que faríamos, como reagiriam os seres humanos e o que dariam eles à câmara? Algures entre a ficção total e esta ideia de documentário emergem coisas que se tornam muito vivas.

Voltando a Cullen: como é que se lida com a encarnação de uma pessoa que nunca disse a ninguém o que o levou a fazer o que fez? O filme dá-nos por vezes algumas nuances, aquilo que ele conta sobre a mãe mas...

...nunca nos esclarece os porquês. E isso é interessante. Aliás, seria uma irresponsabilidade nossa querer responder a essa pergunta. A Amy viu a mãe dele duas vezes. Contou-nos que o Cullen era uma pessoa diferente com ela. Ele é um ser humano com transtornos dissociativos. Quando o juiz lhe leu a sentença em tribunal, começou a gritar uma espécie de mantra, não conseguia parar, teve de ser amordaçado e amarrado. Nada mostrou do enfermeiro atencioso e gentil que aparentava ser no hospital.

Os traumas dele ficaram no livro?

E são alarmantes. O pai morreu no primeiro ano da sua vida, era o filho mais novo de uma família pobre. Tentou com apenas sete anos matar o parceiro de um dos irmãos que quis abusar dele. Tentou suicidar-se com a mesma idade. Aos 15, vivia debaixo das saias da mãe. E ela morreu num desastre de automóvel. Quando chegou ao hospital, o cadáver dela estava coberto... Mas ele consegue em seguida passar todos os testes psicológicos para entrar na Marinha. E à saída do serviço militar, começa a estudar enfermagem. Quer saber aonde? No mesmo hospital em que a mãe morrera. O facto de ele ter chegado àquela profissão sem que os seus dados biográficos tenham alguma vez sido apurados é absolutamente chocante para mim.

Uma pessoa pergunta-se o que há aqui de doença e de maldade. É uma fronteira confusa?

Não há dúvidas de que o que ele fez é monstruoso. E inexplicável. Mas isso não me ajuda quando estou a interpretar a personagem. É preciso encontrar o balanço entre a humanidade e o trauma.

E o equilíbrio de contracenar com Jessica Chastain, foi fácil de encontrar?

É uma atriz incrível. E uma amiga. Este filme foi extraordinariamente difícil para ela, por causa da arritmia da personagem que ela fez questão de representar e da carga emocional intensa a que a Amy se sujeita. Fez o filme todo com um ritmo cardíaco acima do normal. Corria à volta do set antes de entrar nas cenas.

Acabou há pouco de fazer “Cabaret” em Londres, regressou ao teatro e aos palcos do West End onde começou. É um passo para continuar?

Este tem sido um ano de rejuvenescimento para mim. Há muitos anos que eu queria fazer “Cabaret” e encontrei um encenador que me atirou por completo para fora da minha zona de conforto. A intimidade de ambos os projetos, o filme e a peça em seguida, afastaram-me da ‘sinfonia’ dos filmes de larga escala por um bocado e eu estava a precisar disso, de contracenar com atores em cenas exigentes, de um contacto direto, orgânico, com a audiência em Londres. Sobretudo depois da pandemia.

Ironia ou não, e após as estreias do filme em grande ecrã em Toronto e Zurique [e posteriormente em Londres], “O Enfermeiro da Noite” vai chegar às pessoas pelo streaming, o que pensa disso?

Eu vi o filme no grande ecrã. Tive esse privilégio. E não tenho parado de ir ao cinema desde que a pandemia abrandou. Mas ao mesmo tempo acho que os streamers ajudam um filme como este. Não traz o mais fácil dos temas. E toda a gente sabe como é que a história acaba.

Fez 40 anos em 2022, o que vai procurar na próxima década?

Boa pergunta. Quero aprender mais. Quero continuar a pôr-me em risco. Tenho medo da complacência. Medo de perder o fogo que eu tinha há 15 anos quando, pela primeira vez, vim aqui a Zurique graças a um filme em que entrei enquanto ainda trabalhava num pub em Londres.