Passeio Público

Tiago Guedes: “A dança é um barómetro do que está a acontecer ao corpo no mundo”

12 agosto 2022 8:37

Claudia Galhós (entrevista) e Rui Duarte Silva (fotografia)

Tiago Guedes já está a viver em Lyon, onde a 1 de setembro assume oficialmente a direção de três instituições de dança: a Maison de la Danse, a Biennale de Lyon e os Ateliers de la Danse

12 agosto 2022 8:37

Claudia Galhós (entrevista) e Rui Duarte Silva (fotografia)

É em Minde, vila com grande tradição de associativismo cultural, que Tiago Guedes começa a dar os primeiros passos na dança. Em criança, o Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro era um Conservatório. Ao mesmo tempo que aprendia música no andar de cima, Tiago Guedes aprendia dança no andar de baixo. A dança haveria de ganhar terreno e o intérprete e coreógrafo saído da Escola Superior de Dança rapidamente se internacionalizou (de 2006 a 2008, como artista associado do teatro Le Vivat, em Armentières, França), fez a curadoria de um programa com foco em artistas portugueses). Regressou a ‘casa’ em 2009, para criar o seu primeiro projeto de programação, o Festival Materiais Diversos, antes de assumir a direção artística do Teatro Rivoli, no Porto, em 2014.

Na dança que fazia enquanto coreógrafo, havia construção, o trabalhar com os materiais que ganhavam identidade e se transformavam. Retrospetivamente, parecem sinais de uma relação entre o que lhe interessava na dança e o que lhe interessa na curadoria, uma pluridisciplinaridade?

Fiz um percurso um bocadinho ao contrário. Parti de um interesse pluridisciplinar, muito conectado com as artes visuais, a arquitetura e o design, áreas de que gosto muito. Sempre achei que o meu trabalho se podia situar nessa confluência; um corpo que dá significado às coisas, um corpo que se apresenta em movimento, mas que é coadjuvado por outras coisas, nomeadamente por materiais plásticos. Esses meus primeiros projetos eram muito baseados na questão da economia de recursos. Como é que consegues fazer criações com o que está à tua volta? O “Um Solo” (2002) foi construído com materiais que tinha em casa. O “Materiais Diversos” (2003) também. Sacos do lixo, jornais, tintas, tesouras. Havia esta premissa de não ir buscar nada que não estivesse já ao meu lado, uma espécie de redução, de encontro comigo próprio. Visto a essa luz, são dois autorretratos, porque era este jovem artista de 24/25 anos a falar sobre si e sobre o seu mundo. Isso vinha também do contexto social onde vivia na altura, com muitos amigos ligados às artes visuais, à arquitetura, por onde me movia, entre as artes performativas, e mesmo o meu trabalho no Lux enquanto barman, frequentado por uma comunidade artística muito diversa. Parti do que hoje se chamaria indisciplinar para um trabalho que se foi aproximando da dança, mais ligado ao corpo, ao movimento.