Livros

O classicismo e as pás dos arqueólogos

4 janeiro 2023 9:13

d.r.

Tatiana Faia analisa poeticamente o universo greco-latino num livro que investiga como “desejar alguém devia ser todo um sistema ético”

4 janeiro 2023 9:13

Maria Helena da Rocha Pereira certamente acrescentaria um capítulo sobre este “Adriano” ao seu “Temas Clássicos na Poesia Portugueses”, não apenas porque Tatiana Faia é uma classicista, mas porque investiga o universo greco-latino de uma forma que não se parece com o “Antinous” de Pessoa, nem com as odes de Ricardo Reis, nem com a poe­sia de Sophia de Mello Breyner, para citar três exemplos.

Diga-se que um dos aspetos mais curiosos de “Adria­no” é o tom sarcástico face a “uma certa ideia de cultura” clássica, a ideia luminosa, hierática, intemporal (lembrando as críticas de Jorge de Sena a Sophia); e no entanto, perante tantos testemunhos vivos da história dos mortos (ruínas, bustos, moedas ou a Rua de Adriano, em Atenas), surge naturalmente uma gravitas, uma pergunta sobre a nossa relação com a memória dos mortos, até uma meditação sobre o que é uma vida bem vivida. Um dos poemas do livro, ‘Escavar Antínoo’ (o rapaz grego que o imperador romano amava e a quem dedicou um culto póstumo), lembra que as pás dos arqueólogos, no seu trabalho delicado, fatalmente “seguem apagando o tempo à medida que avançam”. Mas com a história de Adriano e Antínoo o mundo clássico ensina-nos que “desejar alguém/devia ser todo um sistema ético” e que uma consciência da felicidade inclui a tristeza. As vozes do livro de Tatiana Faia, seja o “eu”, o casal, os académicos, os amigos, os expatria­dos, os gregos antigos e modernos ou os escritores de assuntos clássicos, dos românticos ingleses a Kafavis e Seferis, do italiano Vittorio Sereni às “Memórias de Adriano”, de Yourcenar, todas essas vozes vivem, em igualdade de circunstâncias, a questão da plenitude e da melancolia, do desenraizamento e da liberdade, da ironia e da aprendizagem: “Espero enfim com alegria/tudo o que de certeza me desapontará//acho que este reconhecimento não tem arte/mas deve ser maturidade de estilo/para poetas.” / Pedro Mexia