Cinema

Cinema: “Robusto” é um grande papel de Depardieu, um ator de costas ainda mais largas

Constance Meyer realiza um drama com Gérard Depardieu, Déborah Lukumuena e Lucas Mortier nos principais papéis. O crítico Francisco Ferreira dá-lhe três estrelas

19 janeiro 2023 9:18

Não há que estar com rodeios quando o mais importante a dizer é isto: “Robusto” é um grande papel desse ator de costas ainda mais largas chamado Gérard Depardieu, ele que, pouco a pouco, se foi tornando numa espécie de ogre do cinema francês, em tudo excessivo. O guião de Constance Meyer tira exemplarmente partido dessa imagem.

O “Robusto” do título é Georges, uma estrela de cinema angustiada, com taquicardia, a envelhecer, em curva descendente, tipo caprichoso, casmurro, controverso. Entre personagem e intérprete estabelece-se uma vigorosa alquimia, como se cada um puxasse pelo outro e se cada um fosse indissociável do outro. Também por aqui se depreende que Depardieu, ao invés de fugir de papéis que o deixam vulnerável, parece, pelo contrário, abraçá-los, a ver até que ponto as coisas vão. Em “Robusto”, Georges é o tal ator famoso em plena rodagem de um filme que está longe de o convencer (“que guião de merda...”).

Ora, um ogre destes, precisa de forte antagonismo para não devorar tudo à sua volta. E esse ‘muro de resistência’ vai chamar-se Aïssa (Déborah Lukumuena), a jovem negra (e igualmente robusta) agente de segurança que fica às tantas encarregue de cuidar dele. Os papéis começam então a inverter-se. Com a entrada em cena de Aïssa, a mulher que pratica luta greco-romana e que não tem medo de esbarrar com Georges (conseguido, aliás, sair de pé desse embate), aquilo que Constance Meyer começa a filmar de Depardieu é a sua fragilidade, a sua solidão, a relação com a morte.

De facto, um dos trunfos do filme é o modo como “Robusto” equilibra as duas personagens e as mantém sempre à mesma estatura, como se dois animais selvagens se descobrissem presos na mesma jaula e tivessem que aprender a respeitar-se um ao outro. Vale muito a pena espreitar “Robusto” e conhecer os espaços que Georges e Aïssa vão partilhar. Confortam-se um ao outro, sem qualquer pieguice.