Cinema

Cinema: Koreeda, o homem que nos deu “Shoplifters” apresenta agora “Broker”

“Broker”, com Song Kang-ho, Dong-won Gang, Bae Doona

“Broker: Intermediários”, em estreia nos cinemas nacionais, puxa um bocadinho a mais pelo melodrama - mas não deixa de ser um retrato sincero e bem humorado de deserdados da sociedade

5 janeiro 2023 10:42

Koreeda é um cineasta que tem desde sempre na família o seu foco de trabalho privilegiado. “Shoplifters” realçou este aspeto em virtude da Palma de Ouro conquistada em Cannes 2018. Acontece que as famílias do nipónico não têm nada de convencional. Tal como na Palma citada, este novo “Broker — Intermediários” é composto por personagens que partilham uma solidariedade em tudo familiar mesmo sem laços de sangue a uni-los. Formam, digamos, uma família em que os indivíduos se escolheram.

“Broker” é um retrato sincero e bem-humorado de mais um grupo de deserdados da sociedade onde o Koreeda gosta de escolher os seus heróis

E são, uma vez mais, pequenos larápios, embora a história assente num contexto social, político e sanitário especial e muito controverso. No Japão, e sobretudo na Coreia do Sul em que o filme decorre (em Busan), certos hospitais estão equipados com uma baby box, um compartimento devidamente climatizado, higienizado e televigiado em que mulheres com graves dificuldades financeiras podem deixar à guarda do Estado, para futura adoção, os seus bebés recém-nascidos. Nenhuma lei as condena moral e criminalmente naquele contexto, estão pois a salvo do “bom adestramento” do aparelho judiciário que Michel Foucault apontava em “Vigiar e Punir”.

É em torno de uma destas mães, jovem prostituta, e de dois delinquentes, rufias de bom coração que intercetam os bebés depositados para os venderem em seguida a casais estéreis por preços avultados, que Koreeda põe “Broker” em marcha, juntando-lhes duas indignadas agentes da polícia que aguardam o melhor momento para apanharem os patifes em flagrante.

“Broker” puxa um bocadinho a mais pelo melodrama, sublinha o que Koreeda já fez antes, mas não deixa de ser um retrato sincero, bem-humorado, de mais um grupo de deserdados da sociedade onde o nipónico gosta de escolher os seus heróis. E para o humor muito ajuda ter no elenco um ator tão brilhante como Song Kang-ho, capaz de cultivar essa faceta mesmo quando tudo à sua volta se afigura grave e sem saída — é mais uma excelente prestação do patriarca que todos nós vimos noutro filme de família, “Parasitas”.