Cinema

A Lituânia de 1948, libertada do jugo nazi, cedo se viu recolonizada pela URSS. “Na Penumbra” leva-nos para esse tempo

Sharunas Bartas realiza o drama “Na Penumbra”, com Arvydas Dapsys, Marius Povilas Elijas Martynenko e Alina Zaliukaite-Ramanauskiene nos principais papéis. O crítico Vasco Baptista Marques dá-lhe três estrelas

14 julho 2022 10:39

Na senda do último filme de Bartas (“Geada”), “Na Penumbra” volta a tentar cruzar a fronteira do íntimo e do político. Desta vez, o projeto é de recorte histórico: trata-se de regressar à Lituânia de 1948, para tecer o retrato elegíaco de um país que, à época, se libertou do jugo nazi para cedo se ver recolonizado pela URSS.

Quem, nesse processo, nos serve de guia é Unte: um rapaz de 19 anos que vive numa decrépita quinta com o seu pai adotivo, com a austera mulher do último e com uma empregada que é igualmente a amante do proprietário. Quase sempre pintado em tons de terra, o espaço da quinta serve, também, como lugar de refúgio para um pequeno grupo de resistentes lituanos que, todas as noites, abandona as florestas das redondezas para partir em busca de uma refeição quente. As conversas que então se estabelecem entre a família de Unte e o grupo (um séquito de rostos carcomidos pela fome e o desespero, ao qual a câmara empresta uma elevação quase religiosa), essas, só conhecem um tema: a iminente chegada à região do exército soviético e as implicações que ela terá na vida daquela depauperada comunidade. Com estas poucas linhas se cose a narrativa de um filme que procura comentar o drama das personagens por via do modo como as vai visualmente enquadrando. De facto, cada novo plano de “Na Penumbra” constitui um pretexto para que Bartas instale os corpos no interior de quadros minuciosamente trabalhados (por vezes, em evidente flirt com a pintura de Rembrandt), onde é a gravitas dos rostos e dos décors que nos dá acesso à psicologia de uma galeria de personagens que parece saber-se votada ao malogro. O problema é que há composição a mais e narrativa a menos: sente-se que os corpos estão demasiado à deriva no drama político que atravessam e, no caso de Unte, num drama familiar a tal ponto inespecífico que parece ter sido elaborado por meio da junção de fragmentos avulsos das peças de Tchekhov. O impecável trabalho formal de Bartas merecia mais.