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Centenário de Saramago: “Contrariamente ao que se dizia, o meu pai era extremamente reservado.” Violante, a filha, numa grande entrevista

Centenário de Saramago: “Contrariamente ao que se dizia, o meu pai era extremamente reservado.” Violante, a filha, numa grande entrevista
NUNO BOTELHO

Durante toda a vida preferiu a invisibilidade e o anonimato. Aos 74 anos, Violante, a única filha de José Saramago, permitiu-se falar pela primeira vez do pai e da mãe, a artista plástica Ilda Reis. professora, bióloga, analista, política, escritora e pintora fê-lo na Azinhaga, a vila onde nasceu o Nobel da Literatura e à qual a família Saramago voltou no último Natal, para lançar novas raízes. No dia em que se comemoram 100 anos do nascimento do escritor, o Expresso republica a entrevista a Violante Saramago Martins

Durante uma grande parte da sua vida, Violante Saramago Matos preferiu o apelido do marido, Danilo Matos, ao do pai, o escritor José Saramago. Antes de ser “a filha”, quis ser bióloga, analista, professora, escritora, política, pintora, mãe de dois filhos, avó... A única descendente do Nobel da Literatura e da artista plástica Ilda Reis, a primeira mulher de José Saramago, nunca quis falar publicamente dos pais e da família. A conversa que aqui transcrevemos é, por isso, uma estreia; e, às vezes, também o reflexo de uma luta interior. Violante hesita. Mede as palavras. Procura um certo equilíbrio, alheio à lamechice ou à frase fácil, mas não deixa de querer partilhar o carinho dos pais que vai reencontrando a cada memória resgatada, a cada livro, a cada quadro. Embora a entrevista tenha decorrido em dois momentos diferentes, começa pela conversa que tivemos logo depois do último Natal, na Azinhaga, a vila de Saramago, onde a neta do escritor, Ana Matos, e o marido, Cláudio Garrudo, lançaram novas raízes ao criarem uma associação cultural, PIPA — Programa da Imagem e da Palavra da Azinhaga. Nas últimas semanas, Violante também inaugurou uma exposição individual na Casa-Museu Teixeira Lopes/Galerias Diogo de Macedo, em Vila Nova de Gaia (em exibição até 30 de abril), e lançou o livro “De Memó­rias Nos Fazemos” (Edições Esgotadas).

Há quantos anos não passava o Natal na Azinhaga?

Não sei exatamente, mas creio que há 55 ou 60 anos. É uma sensação muito diferente, muito melancólica. São muitas memórias. Foi muito bom estar em casa da Ana [filha], com a família, mas foi a casa da minha bisavó que esteve sempre presente. Nestes últimos dias recuei no tempo, em vários momentos, e voltei à casa da bisavó Josefa. Acho que o Natal continua a fazer-se lá, ainda que a casa da Ana e da minha bisavó não sejam próximas. O Natal na casa dela era com os meus pais, a minha tia Elvira e o meu tio Dinis, e às vezes com os avós maternos. Recordo a quinta, as oliveiras, o cheiro da lenha queimada, a casa com chão de terra batida; e foi essa casa que, de repente, voltou a existir. O [último] Natal foi lá. A certa altura comecei a pensar no que se comia na noite de 24. Tive muita dificuldade em lembrar-me o que era, até que acabei por recordar-me que eram os meus pais que traziam o bacalhau. A minha bisavó não tinha dinheiro para comprá-lo.

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