A Revista do Expresso

Gás, petróleo e ouro: onde estão as maiores reservas do planeta?

ilustração cristiano salgado

Os maiores monopólios de petróleo e de gás natural são controlados por regimes autoritários, mas a distribuição do ouro é bem mais democrática. Portugal tem a 13ª reserva mais reluzente

13 outubro 2022 16:36

Carlos Esteves

Carlos Esteves

Infográfico

“O inverno está a chegar.” Eis o perverso aviso que repetidamente chega da Rússia, num tom de ameaça, como forma de retaliação às sanções impostas para travar a máquina de guerra russa que, em 24 de fevereiro, avançou pela vizinha Ucrânia. E quando o poder bélico se mostra ineficaz no terreno, a chantagem energética torna-se o principal trunfo de Moscovo para enfraquecer o firme apoio do Ocidente ao Governo de Kiev. Os esforços para cortar as fontes de financiamento que alimentam as ambições imperialistas de Putin fez com que o Kremlin fechasse a torneira do gás à Europa.

A situação torna-se ainda mais preocupante quando se percebe que a UE controla apenas 0,2% das reservas mundiais de gás natural e que as maiores reservas estão nas mãos de regimes autoritários. De acordo com dados da 70ª edição do relatório “BP Statistical Review of World Energy”, relativos ao final de 2020, a Rússia é o país que detém a maior reserva de gás natural, com 37,4 triliões de metros cúbicos, o que equivale a 19,9% do total a nível global. O Irão surge na segunda posição, com 32,1 triliões de metros cúbicos (17,1% do todo o gás disponível no planeta). Seguem-se o Catar com uma reserva de 24,7 triliões de metros cúbicos, o Turquemenistão com 13,6, os Estados Unidos com 12,6, a China com 8,4, a Venezuela com 6,3, a Arábia Saudita com 6, os Emirados Árabes Unidos com 5,9 e, por fim, a Nigéria com 5,5.

Estes são os dez países com as maiores reservas de gás natural, sete das quais estão sob o jugo de sistemas políticos totalitários, onde a democracia é um bem escasso. É isso que evidencia o “Democracy Index 2021”, elaborado pela revista “The Economist”, que coloca a Rússia, o Irão, o Catar, o Turquemenistão, a China, a Venezuela, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos na lista de regimes autoritários. A Nigéria surge catalogada como um “regime híbrido” e só os EUA são considerados uma “democracia com falhas”.

Olhando para as regiões onde estão concentradas as maiores reservas de gás natural, o Médio Oriente surge destacado com 40,3% do total, a Comunidade dos Estados Independentes — composta por 11 países da antiga União Soviética — com 30,1%, a Ásia e a Oceânia com 8,8%, a América do Norte com 8,1%, África com 6,9%, América do Sul com 4,2% e a Europa com uns residuais 1,7%.

Outra das consequências nefastas da guerra na Ucrânia é o aumento no preço dos combustíveis e a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) decidiu diminuir a produção petrolífera em 2 milhões de barris por dia a partir de novembro, o que poderá inflacionar ainda mais os preços. E, mais uma vez, serão os países detentores das maiores reservas de petróleo a lucrar com a situação.

Nessa lista, de acordo com dados do “OPEC Annual Statistical Bulletin”, referentes a 2019, a Venezuela surge destacada na liderança com uma reserva de 303,8 mil milhões de barris, seguida pela Arábia Saudita com 258,6 mil milhões, acima dos 208,6 mil milhões de barris que o Irão pode extrair dos seus depósitos no subsolo. Já o Iraque possui uma reserva comprovada de 145 mil milhões de barris de petróleo, o Kuwait tem 101 mil milhões e os Emirados Árabes Unidos possuem 97,8 mil milhões. No que toca a reservas de ‘ouro negro’, a Rússia impõe-se como a sétima principal potência (80 mil milhões de barris), bastante acima dos 52,6 mil milhões que estão nas mãos dos EUA. A Líbia e a Nigéria completam o top ten, com 48,3 mil milhões e 36,8 mil milhões, respetivamente. Tal como acontece com o gás natural, também as maiores reservas de crude estão localizadas em países dominados por autocracias, nomeadamente a Venezuela, a Arábia Saudita, o Irão, o Iraque, o Koweit, os Emirados Árabes Unidos, a Rússia e a Líbia.

De acordo com a Agência Internacional de Energia, todos os dias são consumidos 99,7 milhões de barris e os Estados Unidos representam um quinto desse valor (20,48 milhões de barris diários), sendo o país mais dependente de petróleo. A China e a Índia são outros dois gigantes com economias movidas a petróleo, com um consumo diário de 13,07 milhões de barris e de 4,84 milhões de barris, respetivamente. Sendo a Rússia o segundo maior exportador de petróleo — só superada pela Arábia Saudita —, 48 países encheram os cofres russos com 123 mil milhões de dólares em 2019. Nesse ano, a China foi responsável por 27% das exportações petrolíferas da Rússia, um volume tão acentuado que se traduziu numa fatura de 34 mil milhões de dólares. O peso do petróleo russo é ainda mais significativo na Bielorrússia, em Cuba, no Cazaquistão e na Letónia, onde 99% do crude que esses países importam vem precisamente da Rússia.

Considerando o aumento galopante da inflação, as reservas de ouro são uma garantia para salvaguardar a robustez financeira e travar a perda do poder de compra. E se tanto os monopólios do gás natural como o do petróleo são detidos por regimes autocráticos, o do ouro, esse, é bem mais democrático, como indicam os dados do “World Gold Council”, relativos ao ano de 2020.

O país que possui a maior reserva de ouro é, de longe, os Estados Unidos, com 8,1 mil toneladas acumuladas, duas vezes superior à segunda maior, a da Alemanha (3,36 mil toneladas). Em terceiro lugar surge a Itália, com 2,45 mil toneladas, e o quarto lugar é ocupado pela França (2,43 mil), seguidos pela Rússia (2,29 mil) e pela China (1,94 mil). Entre as dez maiores reservas de ouro, é possível aferir que sete delas são geridas por governos democráticos, uma (a da Turquia) é controlada por um “regime híbrido” e apenas duas (a da China e da Rússia) estão ao dispor de regimes autoritários.

Nesta lista, Portugal aparece na 13ª posição das maiores reservas de ouro do mundo e é o quinto Estado-membro da UE com mais ouro acumulado, com 383 toneladas, acima do Reino Unido com 310 e de Espanha com 282. Comparativamente com outros países de língua oficial portuguesa, Portugal também está bem acima, pois é preciso descer até à 43ª posição para encontrar o Brasil, com uma reserva de ouro na ordem das 67,4 toneladas, enquanto Moçambique ocupa o 89º posto, com apenas 3,9 toneladas.

Eis o retrato de um mundo que é uma mina de riquezas várias, mas a pobre distribuição dos recursos torna-o também num campo minado.