A Revista do Expresso

A ordem dos livros de Alberto Manguel. São 40 mil volumes para Lisboa

19 março 2022 23:56

Pedro Nunes

Pedro Nunes

Fotojornalista

style="color:#666633">RARIDADES No meio dos 40 mil livros da biblioteca escondem-se objetos únicos, como uma Bíblia alemã manuscrita de 1300. Ou como um volume (na foto) com capa metálica oferecido a Manguel pelo embaixador da Geórgia na Argentina e que contém a epopeia clássica georgiana traduzida para inglês

Alberto Manguel doou a Lisboa a sua biblioteca. São 800 caixas, que estão a ser abertas para que cada obra ocupe o seu lugar no centro a que escolheu chamar Espaço Atlântida

19 março 2022 23:56

Pedro Nunes

Pedro Nunes

Fotojornalista

O ritual é sempre o mesmo. Alberto Manguel entra, tira o eterno chapéu, Conceição Santos vem ao seu encontro, e ambos dialogam brevemente. A seguir dirigem-se para a sala das caixas onde, num extremo, uma mesa lhes servirá de apoio. Nela já os esperam os livros que Conceição separou para esclarecer o que são, de onde vêm, qual a sua arrumação possível. São volumes cujo lugar numa estante não é evidente. Como situar um autor árabe que escreve em francês? Ou um russo que publica em língua inglesa? Joseph Brodsky e Vladimir Nabokov, recorda Manguel, estão nessa dualidade. Beckett vive entre o inglês e o francês. “Vamos ter de pensar nisto”, comenta. As sessões costumam ser semanais ou quinzenais, de acordo com a agenda do escritor. Em cada uma abrem-se três ou quatro caixas de livros. E o processo, iniciado há perto de um ano, tem dado frutos: autores como Dante, Cervantes, Atwood, Cortázar e Borges, assim como as obras em espanhol e em inglês, já se encontram devidamente “tratados”, o que na linguagem dos bibliotecários significa que foram objeto de catalogação.

Nas profundezas do antigo Arquivo Municipal de Lisboa, no Alto da Eira, na zona da Penha de França, está a nascer uma nova biblioteca. Livro a livro. Ao todo são 40 mil e pertencem à coleção privada de Alberto Manguel, doada à capital portuguesa em setembro de 2020 e que constitui a base do Centro de Estudos da História da Leitura (CEHL). Este centro, por ele dirigido e que irá ocupar o Palacete dos Marqueses de Pombal após as obras de que está a ser alvo, a cargo da arquiteta Teresa Nunes da Ponte, acabou de ser rebatizado Espaço Atlântida. Primeiro, diz ele, porque soa bem. Mas, acima de tudo, “porque a Atlântida é uma utopia imperfeita”, que foi engolida pelo ocea­no mas que, desde Platão, reemergiu numerosas vezes na literatura.