Política

Guerra aberta entre deputadas do PS

9 fevereiro 2015 23:29

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Troca de acusações começou com os submarinos, mas já vai nos voos da CIA. Isabel Moreira diz que Ana Gomes quis usar investigação do Parlamento Europeu apenas para "queimar" Durão e Portas.

9 fevereiro 2015 23:29

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

A troca de acusações entre a deputada do PS Isabel Moreira e a eurodeputada, também do PS, Ana Gomes teve desenvolvimentos na tarde desta segunda-feira. O diferendo, que começou por causa das suspeitas de corrupção que Ana Gomes tem lançado sobre Paulo Portas no caso dos submarinos, chegou agora a um caso ainda mais antigo: a investigação do Parlamento Europeu aos voos da CIA. Com Isabel Moreira a acusar a sua colega de partido de agir com "má-fé absoluta" e de "atirar lama em redor" quando se sente "desmascarada". E de ter usado essa investigação do Parlamento Europeu para tentar "queimar" Portas e Durão Barroso.

A guerra entre as duas deputadas socialistas começou no sábado, depois do Expresso ter noticiado que há erros de transcrição nas escutas do processo dos submarinos, e que esses erros estiveram na base de um dos fundamentos invocados por Ana Gomes para pedir a reabertura deste caso, que o Ministério Público arquivou em dezembro. Numa das escutas, de 2004, Portas era citado como tendo dito que tinha ido à Alemanha para "aquilo" com o "Canalis" - o que adensou as suspeitas de Ana Gomes, que admitiu poder tratar-se de uma referência a Michel Canals, o principal arguido do processo Monte Branco, um caso de branqueamento de capitais e fraude fiscal. Na verdade, a audição da escuta - que o Expresso disponibilizou - permite perceber que Portas se limita a dizer ao seu interlocutor que esteve na Alemanha no Canal de Kiel, onde fica o estaleiro onde estavam a começar a ser construídos os submarinos comprados por Portugal. 

Perante a revelação destes erros, Isabel Moreira deixou uma pergunta na rede social Facebook: "E agora, Ana Gomes?" A que a eurodeputada respondeu, no Twitter, com outra pergunta: "Isabel Moreira que me ataca por tentar expor corruptos nos submarinos era a mesma que assessorava Luís Amado para impedir o inquérito aos voos de tortura da CIA?"

Objetivo: "queimar" Durão e Portas 

Sim, era a mesma. Isabel Moreira não só o confirmou, como contou, num texto no blogue Aspirina B, o que se passou nessa altura, quando era assessora jurídica do então ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) Luís Amado. "Naquela altura, investigava-se, através de uma comissão temporária do Parlamento Europeu da qual fazia parte Ana Gomes (...), se os países da UE tinham sido cúmplices por ação ou por omissão dos chamados voos da CIA que teriam transportado prisioneiros de forma ilegal para a infame prática de tortura que sabemos".

Ora, Isabel Moreira garante que se lembra bem da primeira reunião que a eurodeputada teve com o então MNE, e de qual era o objectivo de Ana Gomes: "limitar a investigação ao período de governação de Barroso e de Portas, usando o processo para os queimar".

Amado deu "dois berros" a Ana Gomes

A resposta de Luís Amado também é revelada por Isabel Moreira: "Naturalmente [Ana Gomes] levou dois berros, porque um ministro de Estado não defende o PS, representa o Estado e, nesse sentido, a nossa investigação abarcou todos os governos, sem tentativas torpes de queimar pessoas, pelo contrário, abrindo todas as gavetas daquele ministério a começar pelas do tempo de então, o do PS."

A partir daí, a eurodeputada "iniciou um processo de má-fé absoluta, com ajuda de alguma imprensa, mostrando-se nas tintas para os outros países e tudo fazendo para mostrar o impossível: Portugal tinha ajudado os EUA a fazer aquela monstruosidade." Houve peças truncadas, e dezenas de perguntas feitas ao MNE, apenas para a eurodeputada poder queixar-se de que o Governo não lhes respondia.

"É evidente que o ódio com que [Ana Gomes] viveu aquele processo veio do facto de Luís Amado não ter acedido em usar o Estado para perseguir Barroso e Portas", garante Isabel Moreira, lembrando que, no final da investigação, Portugal foi ilibado de qualquer cumplicidade com os abusos da CIA.

Todo o caso sustenta a acusação, da parte de Isabel Moreira, de que Ana Gomes, "quando desmascarada, atira lama em redor. É a técnica compreensível de quem saiu do MRPP, mas que continua com o MRPP dentro dela. Na verdade, desmascara-se com o desespero."