Política

Ventura acusa Cravinho de mentir ao Parlamento, PSD diz que "a verdade do ministro não coincide com os factos"

João Gomes Cravinho
João Gomes Cravinho
PEDRO NUNES/LUSA

O líder do Chega anunciou que vai escrever a Marcelo Rebelo de Sousa para pedir demissão do atual ministro dos Negócios Estrangeiros. Luís Montenegro pede “esclarecimento cabal” para se perceber se o ministro foi responsável por não evitar a derrapagem nas obras do antigo Hospital Militar de Belém.

Lusa e Expresso

O PSD disse esta sexta-feira que a “verdade” do ministro João Gomes Cravinho não coincide com “a verdade dos factos" e que este tem “um mundo de contradições” por esclarecer sobre as obras do Hospital Militar, mas que aguardará pela audição parlamentar antes de pedir consequências políticas. Luís Montenegro, o líder social-democrata, já pediu um ”esclarecimento cabal". Entretanto, o presidente do Chega, André Ventura, vai mais longe: acusa o ministro de mentir ao Parlamento e considera que não tem condições para continuar no Governo. Na base destas declarações está a notícia do Expresso a dar conta que o ex-ministro da Defesa e atual ministro dos Negócios Estrangeiros foi informado em março de 2020 de que o custo das obras no antigo Hospital Militar de Belém estava a derrapar.

Depois de uma visita à fábrica do Licor Beirão, Luís Montenegro afirmou que “e público" que o PSD tem "um conjunto de 30 questões já inventariadas e as informações que hoje vêm na comunicação social reforçam a necessidade de o esclarecimento ser cabal, quanto ao nível de conhecimento e quanto à eventual negligência de informação que estava na posse do senhor ministro e que possa ter sido desvalorizada”.

O líder do PSD sublinhou a importância de se aferir se João Cravinho foi responsável por "não evitar tal derrapagem", que considerou ser "muito significativa".

Mas o Chega vai mais longe e pede a demissão do ministro e a intervenção do Presidente da República. “Na nossa perspetiva o senhor ministro [João Gomes Cravinho] tem apenas como saída a sua demissão porque mentiu deliberadamente ao Parlamento”, considerou o líder do Chega em declarações aos jornalistas na Assembleia da República.

O presidente do Chega lembrou que em dezembro, num debate de urgência sobre o tema no parlamento, questionou o ministro sobre se “sabia ou se tinha sido questionado ou se tinha sido pedida autorização para o aumento da despesa nas obras no Hospital Militar de Belém” e que Cravinho lhe respondeu que “não sabia, que não lhe tinha sido requerido jamais que essa despesa fosse aumentada". Referindo-se à notícia do jornal, o líder do Chega salientou que o Expresso refere um ofício “que está numerado e, portanto, que tem uma base de existência inequívoca e incontornável”.

Na opinião do deputado, se Gomes Cravinho “não se demitir a mentira ao órgão que sustenta o Governo que é o Parlamento, ao órgão fiscalizador que é o Parlamento, torna-se prática aceitável e habitual”. O Chega, disse, vai enviar ainda esta sexta-feira um apelo “por escrito” ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, “para que exerça a sua função de contrapeso e de magistratura de influência e que deixe claro a António Costa que João Cravinho não pode continuar no Governo”.

Também em declarações aos jornalistas no Parlamento, o deputado e coordenador do PSD na Comissão de Defesa, Jorge Paulo Oliveira, considerou que esta notícia reforça o entendimento dos sociais-democratas. “Há um mundo de questões por responder, um mundo de contradições por esclarecer quanto à atuação do ministro João Gomes Cravinho em torno das obras de conversão do antigo Hospital Militar de Belém em centro Covid (…) A verdade do senhor ministro em vários momentos não coincide com a verdade dos factos”, criticou.

O deputado do PSD recordou que, recentemente no Parlamento, o ministro afirmou que “nunca autorizou nem lhe foi solicitado” que autorizasse um aumento do custo das obras. “Ora, os factos hoje conhecidos vêm demonstrar de forma cabal que pelo menos metade dessa derrapagem foi do conhecimento do senhor ministro, que a essa derrapagem da despesa não se opôs e que, pelo menos tacitamente, autorizou essa mesma despesa”, considerou Jorge Paulo Oliveira.

O deputado defendeu que “os portugueses têm direito à verdade e que essa não prescreve”, lembrando que os sociais-democratas têm feito várias diligências nos últimos dois anos para esclarecer este assunto.

Na quarta-feira, a comissão parlamentar de Defesa aprovou, com a abstenção do PS, a audição do ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, e do secretário de Estado da Defesa, Marco Capitão Ferreira, sobre a investigação “Tempestade Perfeita”, a pedido do PSD. “Esperamos que na audição ainda não marcada – que seja o mais breve possível – na Comissão de Defesa o senhor ministro ofereça as respostas que os portugueses exigem e têm direito”, afirmou.

Questionado se as notícias conhecidas não são suficientes para o PSD pedir a demissão de Gomes Cravinho. Jorge Paulo Oliveira reiterou que “a principal preocupação do PSD é o apuramento da verdade”. “O PSD tem feito inúmeras diligências, não é primeira vez que interpelamos o ministro e, no final dessa audição, o PSD será consequente com a avaliação que fizer dessa mesma audição, da prestação do ministro”, disse.

No passado dia 20 de dezembro, no debate de urgência requerido pelo Chega no Parlamento sobre o tema, Gomes Cravinho garantiu não ter autorizado um aumento de despesa além dos 750 mil euros inicialmente previstos para a requalificação do antigo Hospital Militar de Belém quando tutelava a Defesa. “Se eu autorizei algum acréscimo de despesa para além dos 750 mil euros? Não, a resposta é não, não autorizei, nem aliás me foi solicitado que autorizasse”, assegurou.

A operação “Tempestade Perfeita” foi desencadeada em dezembro pela Polícia Judiciária (PJ), em coordenação com o Ministério Público, e resultou em cinco detenções, entre as quais três altos quadros da Defesa e dois empresários, num total de 19 arguidos, que respeita ao período em que João Gomes Cravinho tutelou aquele ministério.

Um dos cinco detidos é o ex-diretor-geral de Recursos da Defesa Nacional Alberto Coelho, alegadamente envolvido na derrapagem nas obras de requalificação do Hospital Militar de Belém – e que mais tarde presidiu a uma empresa pública do setor da Defesa, a ETI (EMPORDEF - Tecnologias de Informação, S.A).

Em causa estão gastos de cerca de 3,2 milhões de euros na empreitada para reconverter o antigo Hospital Militar de Belém, em Lisboa, num centro de apoio à covid-19, obra que tinha como orçamento inicial 750 mil euros – derrapagem revelada por uma auditoria da Inspeção-Geral da Defesa Nacional (IGDN)

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