Política

Contenção nos aumentos destrói metas de António Costa para os salários

16 setembro 2022 18:01

João Silvestre

João Silvestre

Editor de Economia

nuno fox

Objetivo de aumentar peso dos salários no PIB vai ficar mais longe em 2022 e 2023. Pelo menos

16 setembro 2022 18:01

João Silvestre

João Silvestre

Editor de Economia

Quando António Costa começou a falar de política de rendimentos, ainda a meio do seu primeiro Governo, a inflação em Portugal andava bem abaixo de 2%. Dentro do patamar de segurança do Banco Central Europeu (BCE), depois de anos, entre 2013 e 2016, em que não chegou sequer a 1% e teve até uma passagem por terreno negativo em pleno programa da troika (2014). Nessa altura, a grande preocupação do BCE era trazer a inflação de volta à meta de 2%. Ganhos reais de salários implicavam pequenos saltos nas remunerações, e mesmo os trabalhadores com vencimentos congelados não perdiam muito poder de compra com a subida dos preços. Tudo mudou a partir do verão de 2021, quando nos países da moeda única a inflação passou a fasquia dos 2% e não voltou a descer. A guerra na Ucrânia ajudou a trazer de volta níveis de subida de preços como não se viam há décadas e os objetivos de Costa para os salários foram uma das vítimas. Pelo menos para já.

Na entrevista desta semana à TVI/CNN, o primeiro-ministro voltou a insistir no objetivo de atingir até ao final da legislatura, em 2026, um peso dos salários no PIB “correspondente à média da União Europeia”. O que corresponde, na prática, a atingir de forma estrutural um rácio de 48%, partindo Portugal de um valor de 45%. Nestas contas, o Governo considera como ponto de partida o ano de 2019, antes da pandemia, já que em 2020 e 2021, por causa da queda do PIB, Portugal ultrapassou a fasquia dos 48%, embora de forma temporária. Com o PIB a recuperar o nível pré-pandemia, o rácio irá, por si só, diminuir. E estes anos de inflação vão agravar ainda mais a situa­ção. António Costa admitiu, ­aliás, que neste momento essa meta poderá ficar temporaria­mente adiada, já que “é muito difícil encontrar o ponto de equilíbrio” entre a subida dos salários necessária para que, no conjunto, estes avancem em percentagem do PIB e, ao mesmo tempo, não se alimente a espiral inflacionista.

Este cenário já preocupa muitos socialistas. E dentro da maioria há receios que alguns dos selos que o PS tanto gostou de colar ao ciclo da troika — austeridade, empobrecimento, pensões em queda — começam a fazer ricochete

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.