Política

Esquerda e direita criticam lógica de continuidade com escolha de Pizarro a Saúde

9 setembro 2022 18:46

sérgio azenha

Catarina Martins afirma que escolha de Manuel Pizarro para ministro da Saúde “não garante qualquer mudança”. PCP pede atenção, de vez, ao “subfinanciamento crónico” do setor. À direita, PSD e IL apontam a falta de capacidade de abertura do Governo

9 setembro 2022 18:46

À esquerda e à direita, as reações são de lamento pela falta de um sinal de mudança na escolha de Manuel Pizarro para substituir Marta Temido no Ministério da Saúde. Ainda que por razões diferentes, todos os partidos apontam a lógica de continuidade nesta escolha e a falta de novidade e de capacidade de atração do Governo.

O PSD considera que a escolha de Manuel Pizarro como ministro da Saúde demonstra mesmo que o primeiro-ministro “está cada vez mais limitado” ao aparelho socialista e criticou a indisponibilidade de António Costa para mudar de política para o SNS.

“Aquilo que preocupa o PSD são as afirmações do primeiro-ministro, António Costa, aquando da demissão da ministra Marta Temido, quando afirmou que, independentemente de quem viesse a ser o próximo ministro, que não estaria disponível para mudar de política, de rumo para o SNS”, criticou, em declarações à agência Lusa, o deputado do PSD Ricardo Baptista Leite a propósito da escolha do novo ministro da Saúde.

Para o social-democrata, o primeiro-ministro socialista “tem de reconhecer que as políticas públicas da saúde falharam e que é preciso mudar de rumo”. “A escolha de Manuel Pizarro demonstra que António Costa, enquanto primeiro-ministro, está cada vez mais limitado àquilo que é o aparelho socialista”, defendeu.

Na análise de Ricardo Baptista Leite, o primeiro-ministro “limita-se a ter que escolher pessoas” da máquina do PS perante a sua indisponibilidade em permitir que o novo ministro possa impor uma nova visão e um conjunto de reformas para o SNS, “sem desprimor para a experiência passada de Manuel Pizarro como eurodeputado e como secretário de Estado da Saúde no tempo do primeiro-ministro José Sócrates”.

“Aquilo que nos preocupa é que o SNS consiga responder efetivamente às necessidades e à procura dos doentes portugueses”, enfatizou, considerando que neste momento os portugueses “não têm encontrado no SNS aquilo que são as respostas às suas necessidades”. Segundo o deputado do PSD, “se o Governo não mudar de rumo”, continuará a haver “um desgaste cada vez maior do sistema público de saúde”.

Para a Iniciativa Liberal, a escolha de Pizarro mostra que “António Costa está contente” com o rumo da Saúde em Portugal, mas é uma “má notícia para todos os portugueses que não têm alternativa ao SNS”.

“Enquanto não reconhecer os efeitos catastroficos da sua política, António Costa será sempre o princpal responsável pelo estado calamitoso do SNS”, diz a deputada Joana Cordeiro, numa declaração enviada às redações, onde também salienta a incapacidade do Governo em ir recrutrar um nome novo. “Para o Governo cabe sempre mais um fiel do aparelho do PS e mais um ex-governante de José Sócrates”, diz a parlamentar da IL.

“Nada muda”, diz BE; dedicação exclusiva, pede PCP

A crítica à falta de mudança de políticas, ainda que por outras razões, leva tambám a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, lamentar a escolha de Manuel Pizarro como novo ministro da Saúde. "Não garante qualquer mudança”, salientando que “nada muda com a mesma política”, escreveu numa publicação na sua conta pessoal na rede social ‘Twitter’.

A líder do BE sublinha que “a degradação do SNS [Serviço Nacional de Saúde] levou à demissão da anterior ministra”, Marta Temido. “A escolha do novo ministro não garante qualquer mudança. Salvar o SNS exige fixação de profissionais, mais investimento e menos vetos de gaveta. Nada muda com a mesma política”, acrescentou.

Já o PCP considerou que mais importante do que a escolha de Manuel Pizarro para ministro da Saúde é aquilo que vai fazer naquela área e apontou como prioridade acabar com “subfinanciamento crónico” do SNS. Contactado pela agência Lusa, o deputado comunista João Dias disse que “mais importante do saber quem vem, importa saber o que vem com estes novos responsáveis do Ministério da Saúde”.

O dirigente comunista acrescentou que até hoje o Governo socialista demonstrou que “não quer fazer aquilo que é necessário” para que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) assegure a resposta necessária à população. João Dias apontou duas prioridades ao eurodeputado socialista e antigo secretário de Estado da Saúde que vai ser o sucessor de Marta Temido: acabar com o “desinvestimento crónico” do SNS e valorizar as carreiras dos profissionais de saúde.

É necessário restabelecer as carreiras dos profissionais de saúde, carreiras estáveis com remunerações justas, que permitam a sua realização pessoal e profissional, com um estímulo que nós defendemos – e que este Governo não tem querido defender – que é à dedicação exclusiva”, completou o deputado.

Manuel Pizarro foi secretário de Estado da Saúde no segundo executivo liderado por José Sócrates. Na altura era Ana Jorge a ministra. No plano político, foi por duas vezes candidato derrotado a presidente da Câmara do Porto, é o líder da Federação do Porto do PS e foi nono na lista de candidatos a eurodeputados socialistas nas últimas eleições para o Parlamento Europeu. Substitui agora Marta Temido que pediu a demissão no passado dia 30 de agosto, mas António Costa pediu-lhe para se manter em funções mais algumas semanas até concluir a aprovação do diploma que regulamenta o Serviço Nacional de Saúde (SNS) - o que aconteceu esta quinta-feira.