Política

"The winter is coming". Comissário europeu para a Economia diz que "ninguém pode excluir risco de recessão"

8 setembro 2022 11:35

Rita Dinis

Rita Dinis

Jornalista

thierry monasse/getty images

Em Portugal para uma intervenção na Academia socialista, o italiano Paolo Gentiloni alertou para o período de incerteza que aí vem na Europa e avisou que o risco de recessão não pode ser descartado. A chave para o problema da inflação, disse, é a resposta “conjunta” da Europa à crise energética, que deve passar por uma maior consistência na transição para a energia verde

8 setembro 2022 11:35

Rita Dinis

Rita Dinis

Jornalista

“The Winter is Coming”. A frase alusiva à famosa série de televisão Game of Thrones foi usada por Paolo Gentiloni esta manhã no discurso que fez perante jovens socialistas para resumir o problema com que a Europa se confronta: depois de anos e anos de prosperidade, em que reinou a ideia de que “somos fortes e imbatíveis”, a pandemia e a guerra que rebentaram no espaço de dois anos deixando a descoberto as “fragilidades” do ser humano, primeiro, e do projeto europeu, depois.

Agora, vem a “incerteza”. O discurso não é catastrofístico, é sobretudo cauteloso. “Nos próximos meses ninguém pode excluir o risco de recessão, ainda que não estejamos ainda em recessão. Os riscos estão lá, daí a incerteza”, disse o comissário europeu para os Assuntos Económicos, que foi primeiro-ministro italiano entre 2016 e 2018.

Há dois pratos na balança. Por um lado, disse, “estamos a viver um nível decente de crescimento na Europa - 0,6% nos primeiros quatro meses do anos, 0,7% nos segundos - e a taxa de desemprego é historicamente baixa apesar as dificuldades”, por outro, contudo, a taxa de inflação bate recordes e é movida sobretudo pela componente energética. É aí que a Europa se tem de unir para atacar, defende.

Perante uma plateia de jovens socialistas, reunida na Batalha, em Leiria, até domingo, Paolo Gentiloni mostrou os números: se em fevereiro de 2021 a componente da energia na inflação era “negativa”, agora anda na ordem dos 40%. Ou seja, a taxa de inflação está neste momento na ordem dos 9% e, desses, 38 a 39% dizem respeito ao setor da energia.

Segundo Gentiloni, existe a “expectativa” entre os cidadãos europeus de que as instituições europeias façam algo para travar a subida dos preços da energia, tal como agiram de forma eficaz no combate à pandemia, mas, no seu entender, “a Europa não tem muitos poderes na área da energia”.

A única forma é manter a “consistência” no caminho da transição energética. “É crucial a forma como lidamos com a emergência energética e iremos usar as ferramentas da política fiscal nesse sentido, mas sem uma resposta comum não será fácil na Europa conter a inflação. Por isso temos de encarar esta crise em função da estratégia do ‘green deal’: seria um erro esquecer o nosso compromisso na transição verde”, disse, defendendo que, no final da crise gerada pela guerra na Ucrânia, ou acabamos “mais dependentes da Rússia no que toca aos combustíveis fósseis”, ou conseguimos maior independendência por via da estratégia de energia verde.

É essa a “oportunidade” que Gentiloni vê na atual crise. “Está em causa a nossa independência energética”, afirmou, deixando, no final, uma nota mental aos jovens socialistas: “Estamos a responder a uma guerra de agressão - o que está em causa é também o modelo das democracias europeias. Se recearem que, com as sanções, estaremos a afetar a nossa própria economia, continuem a lembrar-se que o que está é uma autocracia a usar o seu poder militar para dominar um estado soberano”.